Mês: (página 1 de 4)

[Divã] Histórias da Flip, parte 1

Quem passou pela rua Comendador José Luiz, no Centro Histórico de Paraty, na tarde de sábado, avistou um amontoado de gente sentado no chão ou parado de pé. A roda se formava em torno de um banco simples de madeira, sobre o qual se encolhia uma figura tímida, de aspecto gracioso e voz serena. Os transeuntes que chegavam até ali, quando não decidiam se juntar ao grupo, davam meia volta para não atrapalhar ou atravessavam a roda apressados, fazendo caretas de desculpas silenciosas pelo incômodo e esticando olhares curiosos sobre aquele palco improvisado. Quem seria aquela mulher?

Aquela mulher era a escritora ruandesa Scholastique Mukasonga, uma sobrevivente da luta fratricida entre os tutsis, sua etnia, e os hutus. A autora se salvou do desfecho trágico dessa guerra, porque conseguiu o exílio, primeiro para o Burundi, depois para a França. Seus pais, irmãos e sobrinhos, no entanto, não tiveram o mesmo destino. Em 1994, Mukasonga perdeu 27 membros de sua família. Nessa época, ela já morava na França, onde as manchetes de jornal anunciavam o que a ONU em pouco tempo confirmaria: um genocídio havia devastado Ruanda. Foram cerca de 800 mil mortos em 100 dias.

Muitos que passaram pela rua de Paraty naquele sábado provavelmente não faziam ideia de quem era Mukasonga. Aliás, antes da Flip, a maioria dos brasileiros não a conhecia. A partir de agora, a expectativa é que a escritora ganhe cada vez mais leitores por aqui: dois dos seus livros acabam de ser lançados em português – A Mulher de Pés Descalços e Nossa Senhora do Nilo.

Leia mais

“Casar, para ela, não era negócio de paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos; era uma ideia, uma pura ideia. Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da ideia de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvida a mamãe dizer: ‘aprenda a fazer isso, porque quando você se casar’ (…) – e a menina foi se convencendo de que toda a existência tendia para o casamento.”

 

Lima Barreto em
Triste Fim de Policarpo  Quaresma

[Dicas da Imensidão] Semana #10

Chegamos quase ao fim de Dicas da Imensidão, com o conto que dá nome ao livro de Margaret Atwood. Para falar da imensidão da vida, Atwood alterna perspectivas ao assumir diferentes pontos de vista de uma família disfuncional. Acima deles, paira a sombra do passado, representado pela figura do avô em um quadro. Com seus finais abertos, a autora mais uma vez nos permite entrever as várias possibilidades do destino. Na semana que vem, terminamos a leitura com Quarta-Feira Inútil.

Mariane Domingos e Tainara Machado

Dicas da imensidão é provavelmente o conto mais sofisticado, em termos estruturais, desta coletânea. Atwood faz uso de um narrador onisciente que alterna suas perspectivas para construir perfis breves, mas profundos, dos membros de uma família nada convencional.

Leva um tempo até o leitor entender as tensões que marcam as relações entre os personagens. São quatro irmãos – um homem, Roland, e três mulheres, Portia, Prue e Pamela – e o marido de uma delas, George. Portia é casada com George, que tem um caso com Prue, deseja Pamela e é detestado por Roland.

Leia mais

[Resenha] A Mulher de Pés Descalços

À Scholastique Mukasonga não foi dada a chance de cumprir o desejo da mãe, que era ter o corpo coberto depois de sua morte. Os assassinos não deixaram sequer um corpo, apenas os membros soltos e espalhados de Stefania, A Mulher de Pés Descalços (a edição brasileira saiu recentemente pela Editora Nós).

Nascida em Ruanda, Mukasonga viveu a luta fratricida entre os tutsis, sua etnia, e os hutus. Diferente do restante de sua família, a escritora conseguiu o exílio, primeiro para o Burundi, depois para França. Stefania, sua mãe, foi uma entre tantas vítimas do genocídio que devastou o país em 1994.

Este livro é a homenagem de Mukasonga à mãe. Mas não é só isso. É também um tributo às mulheres e à cultura ruandesas. É ainda uma forma de resistência à tirania que cala os mortos, reduzindo vítimas a números, e aniquila os vivos, transformando suas memórias em traumas, em tabus. Mukasonga venceu o horror das lembranças e criou, com sua literatura, um relato único de sua etnia.

Cada capítulo do livro dá conta de um aspecto da vida das famílias tutsis. A busca incansável da mãe por criar esconderijos para salvar as crianças, a colheita do sorgo, a construção das casas, as lendas, os casamentos, a farmácia, os rituais de beleza, a alimentação – tudo isso tem espaço na narrativa de Mukasonga.

Leia mais

[Lista] 5 autores que conheci por meio da Flip

A 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty começa nesta quarta-feira, dia 26 de julho, e mal estamos conseguindo conter a ansiedade. Além da expectativa para as mesas e para o clima que toma conta da cidade durante o evento, sabemos que Paraty é uma ótima  oportunidade para conhecer novos autores.

A curadora da edição deste ano, Joselia Aguiar, procurou compor uma seleção de escritores que garantisse paridade de gênero – serão 24 mulheres e 22 homens – e maior diversidade, com maior número de autores negros. Scholastique Mukasonga e Paul Beatty já despontam como as grandes estrelas do evento. Estamos mergulhados nas obras desses escritores para que logo eles apareçam por aqui, e temos certeza que a festa vai nos trazer outras ótimas surpresas.

Enquanto a Flip não começa, relembrei outros autores que conheci em festas passadas – mais precisamente, nas edições de 2008 e 2009:

1. Chimamanda Ngozi Adichie: Em 2008, quando Chimamanda Ngozi Adichie passou pelo Brasil para participar da 6ª edição da Flip, sua fama ainda não era a mesma de hoje. A autora já havia ganho o Orange Prize por Meio Sol Amarelo, mas eu nunca tinha ouvido falar de seus livros.

Infelizmente, não assisti à mesa dela em Paraty, quando ela discutiu a cobertura enviesada que a imprensa costuma fazer da África, um tema que até hoje permeia seus livros e palestras, entre outros assuntos, com Pepetela (veja mais sobre o autor nesta lista).

Comprei e li Meio Sol Amarelo naquelas férias mesmo (saudades, recesso escolar). Desde então, a paixão virou relacionamento sério. Acompanho a escritora de perto pelo Facebook, li praticamente tudo o que ela escreveu e, sempre que possível, indico a leitura de um de seus livros para amigos que  me pedem recomendação. Além da escrita leve sobre temas pesados, Adichie é uma mulher de personalidade forte, com mensagens e posicionamentos firmes sobre racismo e direitos das mulheres. Sem dúvida, uma descoberta e tanto proporcionada pela Flip!

Leia mais

Posts mais antigos

© 2017 Achados & Lidos

Desenvolvido por Stephany TiveronInício ↑