Uma travessia de balsa até Niterói, no Rio de Janeiro, é o pano de fundo do belo romance de estreia de Carlos Eduardo Pereira, Enquanto os Dentes (Editora Todavia, 93 páginas). Nesta narrativa enxuta e ao mesmo tempo densa, acompanhamos Antônio em um momento bastante preciso: sua mudança da “antigo apartamento” de volta para a casa dos pais.

O grande trunfo do livro é sem dúvida a perspectiva adotada por Pereira. De um fôlego só, sem divisões de capítulos ou respiros entre parágrafos, acompanhamos não apenas o fluxo de pensamentos e as memórias de passagens decisivas na vida do narrador, mas também suas percepções visuais e sensoriais.

Antônio, que sofreu um acidente que o colocou em uma cadeira de rodas, enfrenta as ruas e calçadas do Rio de Janeiro, com seus inúmeros personagens e passantes: os funcionários do serviço das Barcas, excessivamente protocolares, a solicitude de um ou outro transeunte, a senhora religiosa que lhe recomenda fé.

Neste mundo novo de limitações físicas, Antônio precisa lidar com o paradoxo de ser excessivamente visível para a sociedade, e ainda assim sofrer de certa invisibilidade social. Esse processo de adaptação exige grande esforço do personagem, além de uma série de ajustes em sua rotina, do abandono da direção à mudança de altura dos móveis. Em um contato mais próximo com o que está no solo, com os desvãos e degraus do caminho, também passamos a enxergar, como o próprio narrador afirma, “tudo por baixo”:

Antônio olha para a cidade, que vem se transformando a cada dia, num movimento progressivo, seguindo uma ideia de urbanismo vertical. Os acordos com as construtoras, que vencem as licitações oferecendo o mais em conta de três orçamentos para o Estado, preveem alterações sempre apontando para cima. O que não se vê nesses casos é a terra podre, o subterrâneo formado de terreno arenoso misturado com água salobra, as máquinas nos condomínios ligadas dia e noite, bombeando uma coisa barrenta, depositando em algum terreno baldio, em algum rio ou lagoa, o lodo que está na base, teimando em retomar o espaço que um dia foi seu.

Enquanto se locomove de volta para a casa dos pais, o narrador também leva o leitor a desbravar seus anos de formação, em uma sobreposição de passagens habilmente manejada por Pereira, que intercala infância, juventude e vida adulta a cada parágrafo, formando um quebra-cabeça montado ao longo das 90 páginas do romance.

Logo nas primeiras folhas, demoramos um pouco para situar sua relação com o Comandante, o pai autoritário que controla todos os movimentos da mãe e que espera do filho a mesma carreira na Marinha, a mesma posição de macho alfa. Antônio, contudo, está a anos-luz distante desse perfil.

Percebemos assim um desconforto crescente de Antônio com seu lugar no mundo, apaziguado de certa forma apenas na idade adulta, quando o acidente vem de novo colocá-lo na berlinda, levando-o a retornar para uma casa na qual não pisa há mais de 20 anos.

A violência permeia todo o romance. Se na Marinha o personagem enfrenta os abusos institucionalizados por uma das organizações mais machistas e autoritárias do país, Antônio já a conhecia de casa, das ruas do bairro, da escola.

Sem perder o fôlego, Pereira, ele próprio cadeirante, parte de um ponto de vista que aproxima leitor e personagem, criando um elo entre os dois que nos faz ler o romance de uma só tacada. Enquanto amarramos as pontas soltas do passado de Antônio, percebemos que raramente a vida nos dá as respostas que procuramos. .

Enquanto os Dentes é um romance ao mesmo tempo duro e delicado e a  estreia de Carlos Eduardo Pereira mostra mais uma vez o vibrante cenário da literatura contemporânea brasileira. Aguardamos os próximos títulos do autor!

 

Tainara Machado

Tainara Machado

Acredita que a paz interior só pode ser alcançada depois do café da manhã, é refém de livros de capa bonita e não pode ter nas mãos cardápios traduzidos. Formou-se em jornalismo na ECA-USP.
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