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A leitura de Complô Contra a América (Companhia de Bolso, 440 páginas), é uma mistura de sentimentos contraditórios. De um lado, o prazer da boa literatura na escrita envolvente de Philip Roth, quase impossível de largar. Do outro, o gosto amargo de se enxergar em uma realidade não muito distante da ficção distópica apresentada pelo romance.

Philip, o protagonista, é um garoto estadunidense nos anos 40, nascido no seio de uma família judia. Sua infância tinha tudo para se passar na mais tranquila normalidade, não fosse por um acontecimento: a eleição de um simpatizante do nazismo de Hitler, o aviador Charles A. Lindbergh, como presidente dos Estados Unidos.

Roth narra, a partir da visão do garoto, a conjuntura social e política que levou à derrota do então presidente Franklin D. Roosevelt para um candidato novato que, ainda em campanha, demonstrava afinidades com as ideias extremistas que chegavam da Europa. Essa perspectiva infantil dos fatos é um dos grandes destaques do romance. A inocência com que, por vezes, o protagonista interpreta os sinais da tormenta que viria, deixa o leitor angustiado, com vontade de entrar na trama para mudar o curso da história.

Aliás, alterar o curso da História (desta vez, com H maiúsculo), foi o que Roth fez neste romance. Escritor conhecido por seu realismo mordaz, em Complô Contra a América, ele surpreende ao reescrever um passado real e amplamente conhecido: a ordem geopolítica durante a Segunda Guerra Mundial. Roth muda um fato na História – a eleição de um presidente – e desenrola um mundo totalmente novo. Como bem observa o narrador em uma passagem do livro, “o imprevisto era tudo”:

E, como a eleição de Lindbergh me ensinara muito bem, o desenrolar de um imprevisto era tudo. Visto de trás para frente, o imprevisto implacável era o que estudávamos na escola sob o nome de “História”, uma matéria inofensiva em que todo o inesperado no momento em que ocorrera surge estampado nas páginas como inevitável. É o terror imprevisível que a ciência da história encobre, transformando desastre em epopeia.

O mais impressionante é que, apesar de distorcer os fatos e criar uma distopia, Roth não se distancia tanto assim da realidade. Não à toa, embora publicado em 2004, o livro voltou à lista de mais vendidos no final de 2015, quando da eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. Com sua trama hipotética, Roth acabou prevendo o imprevisto, anunciando o inevitável e ilustrando como e por que demagogos chegam ao poder. Ele colocou em palavras aquele que seria o sentimento de uma nação, quase dez anos depois da publicação do romance:

Como é que isso pode estar acontecendo nos Estados Unidos? Como gente assim pode estar mandando no nosso país? Se eu não visse com meus próprios olhos, ia achar que era uma alucinação.

Quando seu mundo virou de cabeça para baixo, o que o pequeno Philip aprendeu é uma lição que serve para qualquer sociedade no mundo: nem a mais estável das situações é eterna, nem o mais básico dos direitos é tão óbvio que não precise ser defendido. Nada está garantido, nunca.


While reading The Plot Against America, I had mixed feelings. On the one hand, the pleasure of good literature in Philip Roth’s absorbing writing, almost impossible to put down. On the other hand, the bitter taste of finding myself in a reality not so different from the dystopian fiction depicted in the novel.

Philip, the main character, is an American boy in the 1940s, who was born within a Jewish family. His childhood seemed to be a normal and calm one until an unforeseen event changes it all: a Hitler Nazi supporter, the aviator Charles A. Lindbergh, wins the presidential elections in the United States.

Roth tells, from the boy’s point of view, the social and political situation that led to the defeat of then-President Franklin D. Roosevelt. The winner was a rookie candidate who, still on the presidential campaign trail, showed his support for the far-right ideology that was rising in Europe. This childish perspective of the facts is one of the great highlights of the novel. The protagonist’s innocence when facing the coming storm signs made me anxious. I yearned to step in the plot and to change the course of this story.

By the way, changing the course of History (this time, with a capital H), is precisely what Roth did in this novel. Known for his sharp realism, in The Plot Against America, he surprises readers by rewriting a real and well-known past: the geopolitical order during World War II. Roth changes one fact in history – a presidential election – and unfolds a whole new world. As the narrator well observes in the following passage, “the unforeseen was everything”:

And as Lindbergh’s election couldn’t have made clearer to me, the unfolding of the unforeseen was everything. Turned wrong way round, the relentless unforeseen was what we schoolchildren studied as “History,” harmless history, where everything unexpected in its own time is chronicled on the page as inevitable. The terror of the unforeseen is what the science of history hides, turning a disaster into an epic.

The most impressive thing is that, despite distorting the facts and creating a dystopia, Roth’s novel is not so far from reality. In fact, although published in 2004, the book featured in bestsellers list in late 2015, when Donald Trump was elected president of the United States. His “what-if” story turned out to be a warning about why and how demagogues come to power. Roth foresaw the unforeseen, announced the inevitable, and put into words what would be the feeling of a nation, almost ten years after the publication of the novel:

How can this be happening in America? How can people like these be in charge of our country? If I didn’t see it with my own eyes, I’d think I was having a hallucination.

When his world turned upside down, what little Philip learned is a lesson that fits any society in the world: neither the most stable of situation is eternal, nor the most basic of rights is so obvious that doesn’t need to be protected. Never take anything for granted.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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