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[Resenha] O Muro

Publicado às vésperas da Segunda Guerra Mundial, O Muro, do escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre, reúne cinco contos – O Quarto, Erostrato, A Intimidade, A Infância de um Chefe e O Muro, que intitula e abre o livro.

Nessas narrativas, a riqueza do pensamento filosófico de Sartre se concretiza em personagens e situações inquietantes que trazem à tona as tensões menos evidentes de um mundo pré-guerra. É a filosofia se aproximando da experiência humana, assim como desejavam os existencialistas, escola da qual Sartre e outros grandes pensadores e autores, como sua companheira Simone de Beauvoir e Albert Camus, faziam parte.

No primeiro conto, O Muro, Sartre relata a última noite de três condenados à morte. A espera exaure cada um deles de maneira diferente. Um se desespera, o outro se apega ao materialismo de seu corpo e Pablo Ibbieta, o narrador, é a pura expressão da indiferença. Para ele, a vida carece de sentido e isso fica especialmente claro diante da iminência da morte. A existência é toda ela uma espera:

No estado em que eu estava, se eles tivessem vindo me anunciar que eu podia voltar tranquilamente para casa, que eles poupariam minha vida, isso não teria me sensibilizado: algumas horas ou alguns anos de espera é tudo igual, quando já perdemos a ilusão de ser eterno.

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[Divã] Domínio da linguagem

Após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, muito se falou e escreveu sobre o aumento da procura por livros que retratam um futuro distópico, com Estados totalitários assumindo poder absoluto sobre cidadãos.

Assim, dispararam as vendas de 1984, o clássico escrito por George Orwell sobre um governo hiperautoritário capaz de monitorar – e controlar – cada passo de seus cidadãos.

Publicado em 1932, Aldous Huxley imaginou, em Admirável Mundo Novo, um planeta dividido em dez grandes regiões administrativas, com definições categóricas das funções de cada um na sociedade. Os menos dotados vão para o trabalho braçal, outros são destinados a comandar. Os avanços da ciência passam a ditar o destino de cada um, sem espaço para surpresas, para o imponderável, o imprevisível.

Mais recentemente, até por causa do seriado que está sendo transmitido nos Estados Unidos com base no livro, quando se pensa em futuro distópico, não se fala em outra obra que não seja O Conto da Aia, de Margaret Atwood. Empolgante na mesma medida em que é absolutamente assustador, a escritora canadense descreve um mundo em que as mulheres perderam qualquer direito ou liberdade.

O Estado patriarcal que assumiu os Estados Unidos divide essas mulheres em esposas, aias ou serviçais: as que não se encaixam nesses perfis são enviadas para as Colônias, no qual se encarregam de limpar rejeitos radioativos. O acesso à informação foi quase totalmente extinto. A leitura foi banida, e a comunicação é estritamente controlada.

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“mas a laura queria acreditar que eles ainda acatavam o que lhes dizia. acreditava que se impressionavam com a sua sabedoria e, respeitosamente, cumpriam cada conselho e chamavam-lhe conselho para não se humilharem com a ideia de se submeterem às ordens da mãe. eu ria-me, uma vez e outra, dizendo que era a mais pura ilusão a de a laura ordenar o que quer que fosse aos nossos miúdos já grandes.”

 

Valter Hugo Mãe em A Máquina de Fazer Espanhóis

[O Amor dos Homens Avulsos] Semana #8

Encerramos a leitura de mais uma edição do nosso Clube do Livro! Gostamos muito de O Amor dos Homens Avulsos e, agora, fazemos coro a todas as boas críticas que nos levaram à escolha do título escrito por Victor Heringer. Os últimos capítulos mantiveram a força da narrativa e fecharam de maneira muito coerente a ideia que baseia a história. E vocês, gostaram da leitura de O Amor dos Homens Avulsos? Fiquem ligados: na próxima semana, teremos um post muito especial por aqui!

Por Mariane Domingos e Tainara Machado

A relação de pai e filho entre Camilo e Renato é finalmente definida. A partir das sutilezas do dia a dia, Victor Heringer mostra como os laços de cuidado e afeto vão se construindo. Dos detalhes da ceia de Natal, que neste ano deveria ser mais especial pela presença do garoto, às broncas pelas travessuras, fica claro que a ternura venceu o ódio:

Onde é que começa o amor ninguém lembra. Os gatilhos do ódio são todos fáceis (…). Aí poderia ter começado o ódio, mas não começou. Poderia ter começado quando o moleque berrou que ele não era seu pai porque foi proibido de ir para rua às oito da noite. Mas não começou.

É assim que Camilo sabe que ama o filho.

O ódio nunca começa quando pode.

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[Resenha] O jornalista e o assassino

Em O Jornalista e o Assassino, a repórter Janet Malcom retoma a história de um famoso crime nos Estados Unidos para refletir sobre princípios jornalísticos e, principalmente, sobre a delicada relação moral entre jornalistas e suas “fontes”, os personagens que dão vida e cor às histórias narradas em grandes reportagens.  

A história do médico Jeffrey MacDonald, acusado e condenado pelo assassinato da esposa e das duas filhas pequenas, é o pano de fundo desse livro, mas não é exatamente essa a história que Malcom quer contar. MacDonald nunca se declarou culpado, a despeito de diversas evidências que lhe eram bastante desfavoráveis. Ao fim do julgamento, que o sentenciou à prisão perpétua, decidiu procurar alguém que pudesse fornecer a sua própria versão dos fatos. Esse alguém seria o jornalista Joe McGinniss, que havia alcançado o sucesso com a publicação de A Promoção do Presidente, um relato sobre as táticas usadas pelo então candidato à Presidência Richard Nixon para parecer menos detestável aos eleitores.

Malcom expõem o conflito ético subjacente nessa relação logo no primeiro parágrafo:

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