Autor: Tainara Machado (página 29 de 38)

“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá, um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.”

Machado de Assis em Dom Casmurro

[Resenha] De Veludo Cotelê e Jeans

Literatura e humor não são uma combinação trivial. Uma boa parte dos livros que se pretendem engraçados penaria muito para ser qualificado como literatura. E a maior parte das obras de ficção não estão aí para nos fazer gargalhar, temos que admitir.

O escritor norte-americano David Sedaris supera essas distâncias com facilidade. Sua escrita nos faz rir de verdade, mas não por causa de fórmulas feitas ou apelos baratos. Sua prosa é cômica porque ele retrata com um misto de ironia e sarcasmo a vida familiar, os hábitos da classe média americana e a constante paranoia em que vivemos como sociedade.

Sedaris tem quase uma dezena de livros publicados, a maioria já traduzidos para o português, mas meu preferido é De Veludo Cotelê e Jeans. O titulo reúne crônicas autobiográficas em que quase sempre estão presentes um ou outro membro de sua extensa família: o pai, a mãe, o irmão ou uma das quatro irmãs.

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Longa vida ao papel

Sempre que vou viajar, encaro um dilema. Será que é melhor colocar na mala aquele volume enorme, do qual você acha que finalmente vai tirar a poeira durante os merecidos dias de descanso, ou uma edição de bolso, que pode amassar e é ótima companhia para a beira da piscina? É bastante óbvio que não precisaria passar por essa dúvida se eu fosse adepta de leitores eletrônicos. Por que, então, até hoje não me acostumei com e-books?

O primeiro motivo é que eu trato a minha pequena biblioteca como um tesouro e gosto de tê-la como memória. É um prazer folhear livros já um pouco desgastados e lembrar que aquele volume meio destruído foi companhia diária na minha cabeceira por alguns meses. Ou então abrir, dez anos depois, uma edição de contos do Machado de Assis e lembrar, em um recado, que aquele foi um presente de dois meses de namoro.

Essas memórias, que só podem ser preservadas no mundo físico, nos ajudam a entender a razão pela qual os livros despertam paixões. Temos relações de amor e ódio com personagens e enredos que acabam se estendendo para os volumes físicos (especialmente para os títulos com capas bonitas, admitimos). O mundo digital é impessoal e perecível, com livros sem cheiro, textura.

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[Resenha] História do Novo Sobrenome

Arrebatadora. Apaixonante. Empolgante. Emocionante. É longa a lista de adjetivos que já foram usados para definir História do Novo Sobrenome, o segundo romance da “tetralogia napolitana”, da italiana Elena Ferrante (a resenha do primeiro volume, A Amiga Genial, está aqui).

A escrita de Ferrante é tudo isso e, arrisco dizer, até mais um pouco. Chega a ser difícil explicar tamanha empolgação. Por que Elena Ferrante escreve algo diferente de tudo o que você já leu se, no fim da contas, ela retrata uma história banal, de duas amigas marcadas pela pobreza e pelo destino opressor reservado principalmente às mulheres em Nápoles nos anos 50?

Confesso que não tenho uma resposta definitiva para essa questão, mas o fato é que a escrita de Ferrante tem uma força interna que nos prende ao livro de uma forma que poucos autores conseguem. Uma amiga comentou comigo que começou a guardar o livro em casa, em vez de levá-lo no caminho para o trabalho, para fazer com que a leitura durasse mais tempo. Ferrante é paixão.

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[Lista] 5 livros que inspiraram (bons) filmes

Cinema e literatura têm uma ligação quase umbilical. A adaptação de algumas sagas, como Harry Potter, Senhor dos Anéis e Crepúsculo, só para ficar entre as mais famosas, arrastaram milhões para os cinemas. Mas é claro que nem só de blockbusters vive essa relação! Nesta semana, listamos cinco ótimos livros que também renderam bons filmes.

1. A Fazenda Africana, de Karen Blixen: Nascida em uma família aristocrata da Dinamarca, a baronesa Karen Blixen já ensaiava escrever algumas novelas na juventude, mas é a partir da sua experiência na África que surge sua obra-prima. Em A Fazenda Africana, Blixen relata, em primeira pessoa, sua experiência de estranhamento e intimidade com o Quênia, para onde se mudou depois do casamento. A beleza do local a arrebata logo de início:

A posição geográfica e a altitude da região combinavam-se para criar uma paisagem sem igual no resto do mundo. Ali não havia nada de excessivo ou luxuriante; era a África destilada por uma altitude de 1.800 metros, a essência forte e sublimada de um continente. As cores eram secas e crestadas, como uma cerâmica.

Como administradora de uma fazenda de café, conquistou seu lugar como mulher em um ambiente patriarcal, conservador e preconceituoso. Sua posição de autoridade, porém, advém de uma noção europeia de superioridade marcante entre os colonizadores, que aos poucos cede espaço a um forte sentimento pelo continente. Leia mais

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