[Divã] Mais poesia, por favor

Ler mais poesia é uma das minhas metas literárias para 2018. Comecei o ano bem, com Rabo de Baleia (Alice Sant’anna) e Um Amor Feliz (WisławaSymzborska). Parece pouco, mas esses dois títulos já são uma vitória, considerando que, para mim, poesia é um gênero extremamente desafiador.

Interpretação é uma habilidade necessária a qualquer tipo de leitura. No entanto, para poesia, ela é vital. Entre um verso e outro cabem mais possibilidades de compreensão do que entre a primeira e a última página de um grande romance.

A concisão do formato em versos exige certos malabarismos com a linguagem que trazem, ao mesmo tempo, beleza e abertura ao texto. A escassez de palavras na poesia, quando comparada à prosa, faz com que elas ganhem muito mais força nesse gênero. Embora pareçam jogadas ao vento, são escolhidas milimetricamente, levando em conta a multiplicidade de significados. Carlos Drummond de Andrade em seu Consideração do Poema, descreve bem essa tarefa:

Não rimarei a palavra sono
Com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre, por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Concordo com quem diz que ler poesia é mais sentir do que entender. Eu costumo demorar bem mais em dez versos do que em dez páginas de um romance. Leio e releio, em busca de sentido. Mas às vezes, só consigo enxergar a beleza das palavras e ouvir o ritmo das rimas, descobrindo uma nova possibilidade a cada leitura.

Antes, essa oscilação me frustrava, mas tenho aprendido a apreciá-la. Confesso que os poetas que flertam com a prosa, como João Cabral de Melo Neto e a própria Wisława Szymborska, são ainda os que mais me atraem, mas tenho tentado diversificar esse leque.

Sobre essa separação entre gêneros literários, aliás, a poeta polonesa Nobel de Literatura tinha uma opinião bastante contundente. Ela não acreditava em uma divisão drástica entre prosa e poesia. Em uma entrevista de 1975, Szymborska disse: “Parece-me que esses críticos que acham que eu às vezes escrevo como que novelinhas em miniatura, que são na verdade pequeninas histórias com alguma ação – talvez tenham razão.” Em seu poema Medo do Palco, ela vai ainda mais longe:

Poetas e escritores,
É assim que se diz.
Logo, poetas não são escritores, então o quê –

O caminho contrário também pode acontecer: em vez de “novelinhas em miniatura”, versos encadeados formando longas novelas. Temos a sorte de um dos grandes nomes contemporâneos da prosa poética ser da literatura portuguesa. Poder ler o texto original de Valter Hugo Mãe é não perder a beleza de versos disfarçados de frases, como estas que aparecem em Homens Imprudentemente Poéticos:

Esperaram pelo sono para se mudarem para o dia seguinte. Havia sempre esperança na travessia nocturna. Cada deus revia a criação no quieto da noite, acender os dias era sempre a possibilidade de uma nova criação. Era importante dormir com esperança.

E você, gosta de poesia ou prosa poética? O que mais chama sua atenção? Deixe aqui nos comentários suas dicas de leitura!

“Era isso que seus pais haviam lhe ensinado e que ela prometera a eles: escolher, eles insistiam, e nunca ser empurrada. Não deixar nenhum insulto ou ofensa derrubá-la.”

 

Toni Morrison em Voltar para Casa

[O Retrato de Dorian Gray] Semana #6

O grande protagonista deste romance, o famoso retrato de Dorian Gray, começa a ganhar espaço na narrativa e já estamos curiosas para saber o que vem pela frente. Para a próxima semana, leremos os capítulos 11 e 12, até a página 180, se você tem a edição da foto, da Penguin-Companhia.

Por Mariane Domingos e Tainara Machado

Depois da paixão tão avassaladora quanto passageira por Sibyl, a nova obsessão de Dorian Gray é esconder o seu retrato. Na noite da morte da jovem, ele reparou que o quadro era um espelho da sua alma. Todos seus maus sentimentos refletiam-se na pintura, dando forma a um rosto horrendo, com ares de escárnio:

O que o verme era para o cadáver, seus pecados seriam para a imagem pintada sobre a tela.

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[Lista] 5 livros sobre momentos históricos do século XX

O século XX foi marcado por guerras, genocídios, explosões nucleares e revoluções que marcaram gerações em diferentes continentes. Mais do que nunca, escritores buscaram retratar esses acontecimentos, seja como testemunha ocular, seja por meio de relatos capazes de humanizar eventos aparentemente distantes. Na lista de hoje, selecionamos cinco livros sobre momento históricos dos últimos cem anos, entre reflexões filosóficas, ficção e jornalismo literário! A lista, obviamente, não se esgota nesses cinco títulos. Deixe sua dica de leitura para quem se interessar sobre o tema nos comentários!

1. Hiroshima, de John Hersey – Publicado originalmente no dia 31 de agosto de 1946 na revista The New Yorker, um ano depois da explosão da bomba atômica que matou milhares de japoneses na cidade de Hiroshima, o artigo de John Hersey se tornaria um clássico do jornalismo literário. Vencedor do prêmio Pulitzer, Hersey buscou retratar o dia da explosão por meio dos relatos de seis vítimas,  em um livro assombroso sobre uma das maiores atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial, que permitiu que o mundo tomasse conhecimento dos efeitos catastróficos dar armas nucleares, especialmente quando usadas contra uma população civil indefesa.

A sra. Hatsuyo Nakamura, a viúva do alfaiate, lutou para desvencilhar-se das ruínas de sua casa, após a explosão, e, ao ver sua caçula, Myeko, soterrada até o peito e incapaz de se mover, rastejou pelos escombros, afastando tábuas e removendo telhas, no afã de libertar a menina. Então ouviu duas vozes, provenientes das profundezas, do que parecia uma caverna distante: “Tasukete! Tasukete! Socorro! Socorro!˜.

Ela chamou o filho de dez anos e a filha de oito: ˜Toshio! Yaeko!˜

As vozes responderam.

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[Resenha] Um Amor Feliz

Minha vontade é transcrever os poemas de Wisława Szymborska (pronuncia-se Vissuáva Chembórska) todos aqui, para convencê-los de imediato de sua genialidade. Tenho, no entanto, apenas algumas linhas para cumprir essa missão. Espero fazer jus à capacidade de concisão, que é uma das marcas de Szymborska, sintetizando, em poucos parágrafos, por que a coletânea Um Amor Feliz (Companhia das Letras, 327 páginas) deve ser sua próxima leitura.

A primeira razão é, sem dúvida, a sagacidade de sua poesia. A amplitude um tanto assustadora do mundo e a beleza por vezes cruel dos detalhes são comuns à obra da poeta polonesa, que ganhou o Nobel de Literatura em 1996. Com um olhar aguçado sobre a realidade, Szymborska extrai reflexões essenciais de momentos que, para a maioria das pessoas, soam banais. No poema Elegia de Viagem, por exemplo, a fugacidade do instante, tão corriqueira na vida de um turista, ganha forma em belos versos:

Tudo meu, nenhuma posse,
nenhuma posse para a lembrança,
mas meu enquanto olho.

(…)

Da cidade de Samokov só a chuva
e nada além da chuva.

Paris do Louvre às unhas
em brancura se vela.

(…)

Saudação e despedida
numa única olhada.

Para o excesso e a falta
um só mover do pescoço.

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