[Resenha / Review] A Vida Pela Frente / The Life Before Us

O afeto improvável entre um garoto árabe órfão e uma senhora judia, ex-prostituta e sobrevivente do nazismo é o fio condutor do romance A Vida Pela Frente, de Émile Ajar (pseudônimo do escritório francês Romain Gary).

Momo cresceu na casa de Madame Rosa e, embora saiba bem pouco de sua história, desconfia que ela não seja tão diferente das origens das outras crianças que chegam àquele lar. Madame Rosa é conhecida no bairro por acolher, mediante um pagamento mensal para o custeio dos gastos, os filhos das prostitutas que, por lei, são impedidas de criá-los. Ela mesma, outrora prostituta, viu nesse modelo uma forma de se manter na sua velhice e apoiar as mulheres cuja situação ela entende bem.

No entanto, diferente da maioria das outras crianças, Momo nunca recebe a visita de sua mãe e logo os pagamentos que lhe correspondem começam a falhar. Apesar disso, Madame Rosa o mantém sob seus cuidados, e eles constroem juntos um forte laço que desafia todas as probabilidades e diferenças culturais.

Momo não sabe ao certo qual é a sua idade, mas aprende cedo o bastante que a vida nem sempre é justa e que as pessoas queridas se vão, às vezes de maneira lenta e dolorosa. Madame Rosa não chega bem à velhice, e os seis lances de escada até seu apartamento são um lembrete diário de que seu corpo já se cansou dos golpes da vida.

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[Resenha / Review] The Vanishing Half

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Identidade, raça, liberdade. The Vanishing Half, de Brit Bennett, reúne todos esses temas em uma história envolvente sobre as irmãs gêmeas Desiree e Stella, que seguem caminhos diferentes na vida – caminhos separados por questões raciais – e acabam vivendo histórias totalmente opostas.

Desiree e Stella nasceram nos anos 40 em Mallard, uma cidadezinha de Louisiana, nos Estados Unidos. Essa pequena comunidade, habitada exclusivamente por negros de pele clara, era marcada pela discriminação escancarada contra aqueles de pele mais escura.

Na adolescência, as gêmeas decidem deixar, juntas, Mallard. Uma vez na cidade grande, o vínculo que outrora lhes tornava inseparáveis começa a desaparecer. A grande virada em suas vidas acontece quando Stella foge se sua irmã e de todo seu passado para viver como uma mulher branca.

Você não se encontra apenas esperando acontecer – você tem que fazer sua própria identidade. Você tem que criar quem você quer ser.

Essa ruptura parece ainda mais profunda para Desiree e Stella, já que as irmãs não são apenas parentes de sangue, elas são gêmeas idênticas. Para elas, estar longe uma da outra significa ter uma metade desaparecida:

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5 melhores leituras de 2020

Começo esse post fazendo uma confissão: ao contrário das pessoas que se mostraram altamente produtivas durante a quarentena, eu tive grande dificuldade de concentração nos meses confinada em casa. Como quase todo mundo, fui consumida pela ansiedade diante de uma doença desconhecida e do modo como ela foi e continuar a ser enfrentada pelas autoridades, em um desgoverno que parece não esbarrar em nenhum limite. Soma-se a isso algumas outras dificuldades pessoais (afinal, 2020 não foi fácil pra ninguém) e o fato de uqe o ano passado foi provavelmente o período  em que mais trabalhei na vida e a lista de leituras ao fim do ano deixou um pouco a desejar: foram 21 livros (segundo meu acompanhamento no Goodreads. Me siga por lá!), nenhum clássico, poucos calhamaços e a promessa de finalmente acabar Grande Sertão: Veredas empurrada para 2021. 

Isso não quer dizer que não tenha esbarrado com algumas grandes leituras no ano passado. Vamos à lista!

Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior: A história deste livro é um pouco insólita. Antes mesmo de ser editado no Brasil, o romance ganhou o Premio Leya, em Portugal, tendo sido escrito por conta própria pelo autor, que ainda não contava com uma editora. Depois, quem se interessou pela obra aqui foi a Todavia. Eu acabei conhecendo o livro e o autor por uma indicação de uma colega que participa de um clube de leitura do qual faço parte. Depois disso, ele virou uma espécie de febre – quase um culto, presente nas conversas e indicações de muitos amigos e conhecidos virtuais devoradores de novidades literárias. Acabou por levar também o Prêmio Jabuti de melhor Romance Literário e o Prêmio Oceanos de Literatura. 

Fiquei tão fissurada por autor e obra que participei de um curso online dado por Itamar, sobre antropologia e literatura. Ao longo das aulas, o autor contou um pouco sobre sua formação, a inspiração para alguns personagens e como ele encontrou as vozes tão potentes das duas personagens principais do livro: duas irmãs no sertão da Bahia, ligadas entre si de forma indelével por  um acidente na infância e assombradas por um passado escravagista do qual estamos longe de superar. Em entrevista ao El País, em dezembro, ele também falou um pouco sobre essa história. 

A leitura me fez pensar muito sobre nossa ligação com a terra e nosso senso de comunidade (foi até inspiração para um post sobre o tema, que você pode ler aqui), sobre formação e história do Brasil e sobre racismo. O livro ainda é muito bem escrito, com uma das aberturas mais surpreendentes que eu já encontrei. 

Como comentou outro amigo participante do mesmo clube do livro, é um romance que já nasceu clássico, que deveria ser leitura obrigatória nas escolas e no vestibular. Quem não foi arrebatado por Torto Arado em 2020, aproveite a chance. 

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[Resenha / Review] Garota, Mulher, Outras / Girl, Woman, Other

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Garota, Mulher, Outras (Companhia das Letras, 496 páginas), de Bernardine Evaristo, reúne várias histórias curtas de personagens fortes, com trajetórias marcadas por desafios relacionados à raça, sexualidade e classe. À primeira vista, essas narrativas parecem histórias independentes, mas à medida que a trama avança, elas acabam se cruzando de alguma maneira.

Mais do que um estilo narrativo, essa intersecção entre breves relatos se revela uma harmonia perfeita entre forma e conteúdo. Afinal, uma das principais mensagens que ecoam da escrita de Evaristo é a de que todos os seres humanos se conectam de alguma forma, seja por suas afinidades, suas trajetórias ou, o mais evidente, por seus laços sanguíneos.

Apesar das muitas oportunidades de conexão, a realidade da vida em sociedade se mostra bem menos tolerante. As personagens criadas por Evaristo, em sua maioria mulheres negras imigrantes ou filhas de imigrantes, experimentam, cada uma sob uma perspectiva de tempo e espaço, a injustiça da opressão contra minorias.

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[Resenha / Review ] Para o meu coração num domingo / To My Heart, on Sunday

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Para o meu coração num domingo (Companhia das Letras, 344 páginas) é a mais recente coletânea de poemas de Wisława Szymborska, autora polonesa que ganhou o Nobel de Literatura em 1996, lançada no Brasil. Ela reúne poesias publicadas entre 1957 e 2001.

Nesse livro, a beleza da escrita de Szymborska se evidencia mais uma vez em sua habilidade para enxergar poesia nos momentos simples e fortuitos da vida. Seus poemas são um lembrete constante de como somos pequenos diante da grandeza do universo.

Se nas outras duas coletâneas publicadas no Brasil (Poemas e Um Amor Feliz), a guerra, a natureza e o cotidiano ocupam a maior parte dos versos de Szymborska, neste terceiro volume, a finitude da vida é o tema mais recorrente.

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