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Lemos, gostamos (ou não) e indicamos (ou não). Aqui, colocamos nossas impressões sobre livros que, de alguma forma, nos marcaram. Tem opinião, mas não tem spoiler!

[Resenha] Coisas Que Não Quero Saber

Em Coisas Que Não Quero Saber, a sul-africana Deborah Levy transforma relatos autobiográficos em ensaios e constrói uma breve narrativa sobre o poder libertador da escrita. Quatro textos, organizados a partir do ensaio Por Que Escrevo, de George Orwell, trazem à tona três momentos cruciais da vida da escritora. As memórias que Levy passou décadas tentando afastar afloram em sua escrita, instigada, sobretudo, pelas perguntas:

“O que fazemos com o conhecimento com o qual não suportamos conviver? O que fazemos com as coisas que não queremos saber?”

O primeiro ensaio contextualiza essa autoinvestigação a que Levy se propõe. Após uma crise de choro nas escadas rolantes do trem de Londres, ela decide, abruptamente, fazer uma viagem a um lugar ermo de Maiorca. Durante essa escapada, um encontro fortuito a faz voltar às suas origens e encarar algumas lembranças difíceis.

Levy nasceu na África do Sul da época do Apartheid. Ela tinha apenas cinco anos quando assistiu, em sua própria casa, à prisão do pai, perseguido por ser membro do partido social-democrata African National Congress e atuar contra o regime segregacionista. Passam-se quatro anos até que ela e o irmão voltem a vê-lo.

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[Resenha] Infância

A realidade árida da savana sul-africana dá o tom do primeiro volume da trilogia de ficção autobiográfica de J. M. Coetzee, um dos maiores escritores contemporâneos. Em Infância – Cenas da Vida na Província (Companhia de Bolso, 150 páginas), Coetzee relata, com a secura que lhe é habitual, seus anos de formação, em busca de uma identidade que não parece estar em lugar nenhum.

A casa em Worcester, para onde mudaram por causa do pai, que tem dificuldade em se fixar em um emprego, é simples, idêntica a todas as outras. O garoto não consegue se habituar ao local, à brutalidade do entorno.

A infância, segundo a Enciclopédia das Crianças, é uma época de felicidade inocente, que se vive nas campinas entre flores e coelhos, ou  junto à lareira absorto num livro de contos. É uma visão da infância totalmente alheia a ele. Nada do que vive em Worcester, em casa ou na escola, o faz pensar que a infância seja mais que uma fase de engolir a seco e suportar.

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[Resenha] O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva

Não é segredo para os leitores do blog que gosto muito de romances que exploram os artifícios da memória. Já escrevi até um post sobre esse assunto e ressaltei em diversas resenhas a habilidade de certos autores com o tema (Alan Pauls, Javier Marías e Patrick Modiano são alguns exemplos). Era de se esperar, portanto, minha identificação com esta obra do argentino Patricio Pron, intitulada O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva (Editora Todavia, 158 páginas).

Um jornalista viciado em remédios e com problemas para enfrentar a realidade volta à sua cidade natal, na Argentina, depois de uma longa e confusa temporada na Europa. Ele retorna para rever o pai, que está hospitalizado. Mais do que o reencontro com sua terra e sua família, essa visita traz à tona um acerto de contas com o passado.

O protagonista, assim como seu pai, sofre com alguns problemas de memória. Seus momentos sob o efeito dos remédios e sua infância são borrões que pouco revelam acerca de sua identidade. Já o pai tem dificuldades com a memória recente, especialmente para os fatos rotineiros.

O texto de Pron é repleto de metáforas bem construídas, que recorrem à materialidade do cotidiano para expressar conceitos bastante abstratos como o tempo e a memória. Seu estilo lembra muito o de Alan Pauls, outro grande escritor argentino:

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[Resenha] O Sol na Cabeça

Geovani Martins tem apenas 26 anos, mas seu romance de estreia, O Sol na Cabeça (Companhia das Letras, 119 páginas), teve ampla divulgação por sua editora, recebeu elogios de Chico Buarque e já teve direitos vendidos para mais de nove países. Embora poucos consigam realizar feito parecido, não é difícil entender esse magnetismo:  Martins nasceu em Bangu e foi criado no Vidigal. É filho de uma cozinheira com um jogador de futebol amador. Seu destino como escritor parecia improvável, mas é justamente a infância e a adolescência pobres do autor que formam a essência – e o apelo –  dos treze contos que compõem este livro, que partem de episódios cotidianos para expor as fraturas de uma sociedade que se divide entre morro e asfalto.

Essa primeira divisão está, muito claramente, na linguagem. As gírias, aqui, não estão entre aspas ou em itálico, como estamos tão acostumados a observar. A concordância deixa de ser perfeita. A oralidade tão literal que Martins exibe em alguns de seus contos, como Rolézim, que abre o livro, nos faz imergir na vida das favelas cariocas, a realmente escutar quem quase nunca tem voz.

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[Resenha] As Manifestações

Misturar política com literatura dá certo? Em As Manifestações, a escritora francesa Nathalie Azoulai faz uma aposta corajosa e coloca a temática no centro do seu romance. Mais do que um pano de fundo, a política é a engrenagem que move a narrativa.

Virginie Tessier, Anne Toledano e Emmanuel Teper são três amigos que se conheceram no colégio e tiveram uma juventude intensa, participando das manifestações dos anos 80 em Paris. De origens bastante distintas, esse trio encontra suas semelhanças no movimento político de esquerda que contagiou a França nesse período.

Anne nasceu no seio de uma família judia burguesa, muito culta e simpatizante da direita. Emmanuel, filho de intelectuais, cresceu rodeado pelos debates acadêmicos de esquerda. Virginie, filha da classe média francesa, não foi educada em um ambiente politizado, tampouco culto, mas a realidade proletária de seus pais os aproximava da esquerda.

Ainda no colégio, os amigos organizaram sua primeira manifestação em prol de um garoto de origem árabe, de ótimo desempenho escolar, que corria o risco de não conseguir seu diploma, porque sua família estava à beira de ser deportada. Era um período na França em que a esquerda, enquanto movimento de defesa dos direitos das minorias, era o caminho a ser tomado.

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