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Lemos, gostamos (ou não) e indicamos (ou não). Aqui, colocamos nossas impressões sobre livros que, de alguma forma, nos marcaram. Tem opinião, mas não tem spoiler!

[Resenha] O Conto da Aia

Imagine um mundo no qual as mulheres são divididas em categorias, não podem mais ler nem escrever sob pena de ter a mão cortada, e no qual o amor e a paixão são crimes contra o objetivo primordial do Estado: a reprodução. Foi esse futuro distópico que a canadense Margaret Atwood descreveu em O Conto da Aia, o clássico lançado em 1985 que acumula milhões de exemplares vendidos nos últimos 30 anos, além de ter sido traduzido para mais de 40 idiomas. Em junho, O Conto da Aia ganha nova edição no Brasil, pela Rocco.

Poucas vezes se falou tanto de um livro lançado há mais de três décadas. O influente clube do livro de Emma Watson, com fóruns de discussão no Goodreads e em perfis do Instagram,  por exemplo, escolheu O Conto da Aia como leitura para o mês de maio, o que só fez aumentar o debate em torno do título.

É claro que a série televisiva, uma produção americana resultado da parceria entre as emissoras MGM e Hulu, contribuiu para o fenômeno, mas o que parece ter levado as atenções a se voltar para esse romance é mesmo a ascensão da extrema-direita nos Estados Unidos, cujo símbolo maior foi a eleição de Donald Trump para a presidência no fim do ano passado.

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[Resenha] O Muro

Publicado às vésperas da Segunda Guerra Mundial, O Muro, do escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre, reúne cinco contos – O Quarto, Erostrato, A Intimidade, A Infância de um Chefe e O Muro, que intitula e abre o livro.

Nessas narrativas, a riqueza do pensamento filosófico de Sartre se concretiza em personagens e situações inquietantes que trazem à tona as tensões menos evidentes de um mundo pré-guerra. É a filosofia se aproximando da experiência humana, assim como desejavam os existencialistas, escola da qual Sartre e outros grandes pensadores e autores, como sua companheira Simone de Beauvoir e Albert Camus, faziam parte.

No primeiro conto, O Muro, Sartre relata a última noite de três condenados à morte. A espera exaure cada um deles de maneira diferente. Um se desespera, o outro se apega ao materialismo de seu corpo e Pablo Ibbieta, o narrador, é a pura expressão da indiferença. Para ele, a vida carece de sentido e isso fica especialmente claro diante da iminência da morte. A existência é toda ela uma espera:

No estado em que eu estava, se eles tivessem vindo me anunciar que eu podia voltar tranquilamente para casa, que eles poupariam minha vida, isso não teria me sensibilizado: algumas horas ou alguns anos de espera é tudo igual, quando já perdemos a ilusão de ser eterno.

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[Resenha] O jornalista e o assassino

Em O Jornalista e o Assassino, a repórter Janet Malcom retoma a história de um famoso crime nos Estados Unidos para refletir sobre princípios jornalísticos e, principalmente, sobre a delicada relação moral entre jornalistas e suas “fontes”, os personagens que dão vida e cor às histórias narradas em grandes reportagens.  

A história do médico Jeffrey MacDonald, acusado e condenado pelo assassinato da esposa e das duas filhas pequenas, é o pano de fundo desse livro, mas não é exatamente essa a história que Malcom quer contar. MacDonald nunca se declarou culpado, a despeito de diversas evidências que lhe eram bastante desfavoráveis. Ao fim do julgamento, que o sentenciou à prisão perpétua, decidiu procurar alguém que pudesse fornecer a sua própria versão dos fatos. Esse alguém seria o jornalista Joe McGinniss, que havia alcançado o sucesso com a publicação de A Promoção do Presidente, um relato sobre as táticas usadas pelo então candidato à Presidência Richard Nixon para parecer menos detestável aos eleitores.

Malcom expõem o conflito ético subjacente nessa relação logo no primeiro parágrafo:

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[Resenha] Salões de Paris

A cidade de Paris e o texto de Marcel Proust são sinônimos de sofisticação. A coletânea de crônicas que revela o lado jornalista do célebre escritor francês encontrou a combinação perfeita de forma e conteúdo nesta luxuosa edição da Carambaia. Salões de Paris reúne 22 textos de Proust, publicados entre o final do século XIX e início do XX, a maioria deles no Le Figaro.

As festas requintadas que atraíam a alta burguesia e a nobreza remanescente da França imperial são o principal tema dessas crônicas. A minuciosidade da prosa proustiana é capaz de transportar o leitor ao salão da princesa Mathilde ou ainda ao ateliê da sra. Madeleine Lemaire.

O escritor não economiza nas adjetivações quando retrata os ambientes, tampouco quando introduz os anfitriões e convidados dessas reuniões. Suas observações são carregadas da postura bajuladora que caracterizou tanto o Proust jornalista, quanto o Proust escritor. Sobre a princesa Mathilde, tia do príncipe Luís Napoleão, ele diz:

Essa rudeza um pouco máscula da princesa se tempera a um extrema doçura que transborda de seus olhos, de seu sorriso, de toda a sua hospitalidade. Mas por que analisar o charme dessa anfitriã? Prefiro tentar fazê-los sentir isso, mostrando a princesa no momento em que recebe.

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[Resenha] Os Irmãos Sisters

Em plena corrida do ouro no oeste dos Estados Unidos, dois irmãos são contratados para liquidar um garimpeiro na Califórnia. Poderia ser mais uma história de faroeste, mas Os Irmãos Sisters, de Patrick deWitt, é um livro de fôlego, em que a missão original da dupla logo cede espaço para uma narrativa que discute compaixão, ganância, fraternidade e moral, ao mesmo tempo em que prende o leitor como poucos romances são capazes.

Boa parte dessa sedução se deve a Eli, o narrador da história. Irmão mais novo da dupla, Eli é a antítese do assassino frio e calculista: sensível, dado a reflexões sobre justiça, ele  se sente desprezado pelo irmão, mas não consegue abandoná-lo.

Entre os desvios de caminho aos quais os dois são submetidos, conseguimos compreender melhor a natureza oposta, mas um tanto complementar, dos dois irmãos. Logo no início do livro, Eli é picado por uma aranha e tem uma forte reação alérgica. Em seguida, uma dor de dente aguda impede que eles prossigam viagem e os dois acabam decidindo pedir abrigo em uma cabana ocupada por uma velha misteriosa.

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