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[Divã] Domínio da linguagem

Após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, muito se falou e escreveu sobre o aumento da procura por livros que retratam um futuro distópico, com Estados totalitários assumindo poder absoluto sobre cidadãos.

Assim, dispararam as vendas de 1984, o clássico escrito por George Orwell sobre um governo hiperautoritário capaz de monitorar – e controlar – cada passo de seus cidadãos.

Publicado em 1932, Aldous Huxley imaginou, em Admirável Mundo Novo, um planeta dividido em dez grandes regiões administrativas, com definições categóricas das funções de cada um na sociedade. Os menos dotados vão para o trabalho braçal, outros são destinados a comandar. Os avanços da ciência passam a ditar o destino de cada um, sem espaço para surpresas, para o imponderável, o imprevisível.

Mais recentemente, até por causa do seriado que está sendo transmitido nos Estados Unidos com base no livro, quando se pensa em futuro distópico, não se fala em outra obra que não seja O Conto da Aia, de Margaret Atwood. Empolgante na mesma medida em que é absolutamente assustador, a escritora canadense descreve um mundo em que as mulheres perderam qualquer direito ou liberdade.

O Estado patriarcal que assumiu os Estados Unidos divide essas mulheres em esposas, aias ou serviçais: as que não se encaixam nesses perfis são enviadas para as Colônias, no qual se encarregam de limpar rejeitos radioativos. O acesso à informação foi quase totalmente extinto. A leitura foi banida, e a comunicação é estritamente controlada.

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[Lista] 5 personagens trabalhadores

Para celebrar o 1º de Maio, comemorado em todo o mundo como Dia do Trabalho, prestamos homenagens a esses personagens que, assim como nós, pobres mortais, precisam enfrentar chefes, horários e as demais pressões da vida laboral.

Trabalhadores do mundo (da literatura), uni-vos!

1. Macabea, de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector: A “delicada e vaga existência” diária de Macabea, a personagem principal desse clássico da literatura brasileira, é preenchida por sua função como datilógrafa, habilidade adquirida em um “curso ralo de como bater à máquina”.

Macabea, uma nordestina de dezenove anos que migrou para o Rio de Janeiro, leva uma vida miserável e sem perspectivas, em um trabalho em que o chefe chega a ameaçar mandá-la embora, mas desiste por sua ingenuidade e delicadeza. Seus dias são preenchidos com pensamentos fantasiosos sobre a infância, a fome e a vontade de ser quem não era.

Ao retratar a personagem, Clarice Lispector habilmente descreveu uma geração de migrantes nordestinos que, em terras cariocas ou paulistas, era invisível socialmente, ocupada com subempregos em uma paisagem urbana que irremediavelmente marchava em sentido oposto. 

Domingo ela acordava mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada.

O pior momento de sua vida era nesse dia ao fim da tarde: caía em meditação inquieta, o vazio do seco domingo. Suspirava. Tinha saudade de quando era pequena – farofa seca – e pensava que fora feliz. Na verdade por pior a infância é sempre encantada, que susto.

Quem nunca compartilhou dessa aflição que emana de uma tarde de domingo que atire a primeira pedra!

2. Michael Beard, de Solar, de Ian McEwan: O personagem principal de Solar tem um currículo invejável: ganhador do prêmio Nobel de Física por uma teoria que leva seu nome, Michael Beard vive de palestras, conferências e pareceres até ascender ao posto de chefe do Centro Nacional de Energia Renovável da Inglaterra.

Sua grande contribuição para a área, porém, foi resultado de uma confluência de fatores em que seu talento não necessariamente teve grande peso. Agora, o personagem vive há quase duas décadas obtendo os dividendos de conquistas profissionais obtidas bem no início de carreira (um tipo bem comum na vida corporativa, não é mesmo?).

Como poderia Beard confessar a Jesus que havia anos não praticava a ciência a sério e não acreditava em profundas transformações interiores? Tudo que existia era deterioração interna e externa.

Com a ironia fina característica, McEwan mostra os altos e baixos de um personagem narcisista e sem nenhuma ética no trabalho.

3. Ifemelu, de Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie: O mundo do trabalho certamente ganhou contornos diferentes nas últimas décadas e é natural que essas mudanças estejam refletidas na literatura.

Em alguns casos, chefes e horários rígidos perderam espaço para atividades autossuficientes, como no caso de Ifemelu. A personagem principal de Americanah é uma jovem nigeriana que, diante da falta de oportunidades de estudo em seu país, marcado por greves e por conflitos militares, migra para os Estados Unidos para estudar.

Na América, Ifemelu trava relações com um ilustre desconhecido em sua vida até então: a raça. O preconceito contra negros nos Estados Unidos a leva a começar a escrever para um blog, que se torna bastante bem sucedido. Mas, antes disso, Ifemelu encara a dificuldade que é conseguir uma vaga em um ambiente socio-cultural totalmente distinto ao que ela estava acostumada:

Cada vez que ela ia para uma entrevista de emprego ou fazia um telefonema sobre uma vaga, ela dizia a si mesma que que este seria, finalmente, o seu dia; dessa vez, a vaga de garçonete, recepcionista ou babá seria dela, mas mesmo que ela torcesse por si mesma, já havia uma sombra crescente em um canto da sua mente. “O que eu estou fazendo de errado?”, ela perguntava a Ginika, e Ginika lhe dizia para ser paciente, para ter esperança.

Ngozi Adichie explora, por meio dessas frustrações, como é a vida de um imigrante, até que Ifemelu consiga se estabelecer e conquistar seu próprio espaço na América. O problema, então, é que ela será uma estrangeira em sua própria casa.

4. Rob, de Alta Fidelidade, de Nick Hornby: Neste livro despretensioso, mas muito divertido, Rob tenta se refazer após o fim do relacionamento com uma namorada, o que o leva a questionar toda a sua vida até aquele momento.

Dono de uma loja semi-abandonada de discos em Londres, o personagem tenta sair do impasse por meio de listas,  dos cinco rompimentos mais importantes de sua vida até a trilha sonora perfeita para curtir uma fossa, buscando sempre o apoio emocional de sua vasta coleção de CDs. Difícil não se identificar com esse trecho:

Na noite de terça-feira eu reorganizo minha coleção de discos; eu sempre faço isso em período de stress emocional. Uma parte das pessoas poderia achar essa uma terrível maneira de passar um fim de tarde, mas eu não sou uma delas. Essa é a minha vida, e é bom poder se aprofundar nela, imergir seus braços nela, tocá-la.

Sem muitas aspirações na carreira, Rob tenta procurar respostas em seu passado. Leve e de um humor autoirônico difícil de resistir, esse é um ótimo livro para as férias ou para descansar a cabeça depois de uma longa semana no trabalho (ou te fazer se sentir um pouco melhor consigo mesmo).

PS: Está de bobeira no feriado? Alta Fidelidade já foi adaptado para o cinema e tem John Cusack no papel principal, com uma atuação perfeita para o personagem. Ainda que aqui no Achados e Lidos sejamos fiéis aos livros, o filme é divertidíssimo e ainda conta com o bônus de ter uma ótima trilha sonora.

5. Renée, de A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery: Uma zeladora de um prédio parisiense que prefere ocultar sua cultura e conhecimento é o pano de fundo desse romance de Muriel Barbery, que vendeu mais de 900 mil exemplares na França.

Renée, a personagem que narra a maior parte do romance, guarda para si seus gostos refinados e sua ampla capacidade de raciocínio lógico porque sabe que os moradores do prédio do qual ela é zeladora se assombrariam caso enxergassem nela algo mais do que alguém que está sempre ali perto da porta, disposta a resolver problemas ou socorrer alguém em necessidade. Por vezes, ela deixa escapar algum comentário, mas quase nenhum dos oito inquilinos consegue enxergar além das convenções sociais:

Como sempre, sou salva pela incapacidade dos seres humanos de acreditar naquilo que explode a moldura de seus pequenos hábitos mentais. Uma zeladora não lê A Ideologia Alemã, e, por conseguinte, seria incapaz de citar a décima primeira tese sobre Feuerbach. Além disso, uma zeladora que lê Marx está, necessariamente, de olho na subversão e se vendeu a um diabo que se chama Confederação Geral dos Trabalhadores, a CGT.

Paloma, de doze anos, é das poucas moradoras que consegue ver por dentro da couraça de proteção de Renée. Procurando um sentido para sua vida, é Paloma quem ligará as pontas da existência da zeladora com outro personagem igualmente reservado.

É a luta de classes combinada ao melhor da literatura!

Lembrou de outro trabalhador da literatura? Conte para a gente nos comentários!

[Divã] Como criar empatia

 

Há algumas semanas, esbarrei com uma reportagem bastante interessante. Um grupo de garotos, todos na faixa de 16 e 17 anos de idade, recebeu como punição por ter pichado um prédio com insultos racistas a tarefa de ler uma lista de clássicos da literatura de autores negros, afegãos e judeus (vale dar uma olhada na seleção de títulos aqui).

O objetivo, óbvio, era desenvolver nestes meninos a empatia pela história e pelo sofrimento alheios e fazê-los entender o poder devastador dos discursos de ódio. A juíza, Alex Rueda, filha de uma bibliotecária, declarou que a sentença partiu de sua própria formação, já que ela conheceu e compreendeu o mundo pelos livros.  

A capacidade de nos colocar no lugar do outro é, sem dúvida, um grande valor da literatura. Mais do que nos levar a conhecer lugares distantes sem sair do sofá de casa, o poder dos livros reside principalmente em nos permitir compartilhar experiências coletivas, discriminação, sofrimento e abusos sem que essa seja nossa vivência imediata.

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[Lista] 5 escritoras para ler mais mulheres

Ler mais mulheres é sempre um objetivo aqui no Achados e Lidos. Para incentivar nossos leitores na semana em que o mundo celebra o Dia da Mulher, listamos cinco escritoras que, em suas obras, contam histórias de personagens femininas fortes e interessantes, seja com base em relatos reais ou fictícios!

1. Xinran: A chinesa Xinran nasceu em Beijing em 1958 e escolheu uma profissão particularmente difícil em um país controlado por um partido pouco afeito à liberdade de expressão: o jornalismo. Em seus livros, entre os quais os mais conhecidos são Testemunhas da China e As Boas Mulheres da China, Xinran parte dos relatos de pessoas comuns para contar a história de um país que passou por transformações traumáticas nos últimos 50 anos, que trouxeram desenvolvimento ao mesmo tempo em que deixaram uma parte dos cidadãos à margem do progresso. 

A escritora, que passou pelo Brasil em 2009, se preocupou, especialmente, em dar voz às mulheres esquecidas nesse processo. Grande parte desses relatos foram colhidos durante o período em que Xinran apresentou um programa de rádio muito popular, Palavras na Brisa Noturna, no qual entrevistava mulheres de diferentes condições sociais para tentar entender como viviam essas personagens em um ambiente opressivo, humilhante e miserável.

A maioria das pessoas que me escreviam na rádio eram mulheres. Geralmente eram cartas anônimas ou assinadas com um nome fictício. Muito do que diziam me causava um choque profundo. Eu achava que compreendia as chinesas. Lendo as cartas, percebi como estava enganada. Elas viviam uma vida e enfrentavam problemas com que eu nem sequer sonhava.

O livro é de uma sensibilidade aguçada e mostra, além das agruras do mundo material, a falta de convívio sentimental que prevalecia na China. 

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Literatura engajada

Meia-Noite e Vinte, o romance mais recente de Daniel Galera, resume a sensação que temos quase todos os dias ao abrir o jornal: em algum momento na última década, o mundo deu errado (você encontra resenha do livro aqui). O pessimismo dos personagens, especialmente de Aurora, parece crescer na esteira de um período de razoável satisfação que começou a ruir com o ataque às torre gêmeas em 2001.

O fim da história, como Francis Fukuyama uma vez batizou o período pós-guerra fria, não durou muito. O desalento crescente com as catástrofes que parecem cada vez mais iminentes, da excessiva polarização política até ameaças de terrorismo e mudanças climáticas, transparecem no livro de forma clara, sob a forma de violência ou desespero que dominam as ações dos personagens. Em um entrevista recente para o blog Livros Abertos, Daniel Galera falou um pouco sobre a questão:

De um lado, há quebras sucessivas e crescentes daquelas expectativas gestadas no fim do milênio. De outro, a sensação de um excesso de conhecimento, sobretudo científico, a respeito das tendências destrutivas da civilização, mas sem uma capacidade de ação correspondente.

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