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[Resenha] Amiga de Juventude

A canadense Alice Munro é a rainha da narrativa breve. Não à toa, ela foi a primeira escritora dedicada exclusivamente a esse gênero a conquistar o Prêmio Nobel de Literatura, em 2013. A precisão de sua linguagem e a construção de ótimos personagens, em sua maioria figuras femininas, garantem aos seus contos a profundidade de grandes romances.

Amiga de Juventude (Globo Livros – Biblioteca Azul, 303 páginas) reúne dez narrativas publicadas em 1990. Nessas breves histórias, ela dá vida a mulheres cujas personalidades, em algum momento, entram em choque com seu meio social, desencadeando instantes de liberdade tão fugazes quanto decisivos

O destino dessas personagens é nebuloso, sempre nas entrelinhas, e é justamente essa condição que torna as histórias ainda mais envolventes. O leitor se deixa levar pela busca, às vezes inconsciente, empreendida por essas mulheres, e acaba em tramas marcadas por paixão, violência ou fantasmas da memória.

Munro sabe trabalhar muito bem a tensão do elemento surpresa. Embora sua escrita tenha um ritmo sereno, quem já conhece a obra da autora não se deixa enganar pela calmaria e logo enxerga a reviravolta à espreita.

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[Resenha] Meu Livro Violeta

No último mês, o autor inglês Ian McEwan completou 70 anos. Para comemorar a data, a Companhia das Letras publicou, em edições primorosas, duas obras inéditas do autor.

Meu Livro Violeta (Companhia das Letras, 125 páginas) é uma dessas publicações. Ela reúne duas breves histórias que comprovam que o talento do britânico cabe tanto em narrativas curtas quanto longas. Para quem já conhece a escrita de McEwan, é leitura para aumentar a admiração pela versatilidade do autor. Quem ainda não teve contato com sua literatura, é uma ótima oportunidade para engatar os romances mais famosos, como Reparação e Enclausurado.

O primeiro conto, que intitula o livro, foi originalmente publicado na seção de ficção da revista The New Yorker, em 2016 (nesse post, há inclusive o áudio do autor lendo a história). A narrativa, conduzida em primeira pessoa pelo personagem Parker Sparrow, revela duas grandes marcas da escrita de McEwan: a ironia e o humor negro, tipicamente britânicos.

Logo no início, o narrador avisa que seu relato se trata de uma espécie de confissão de um crime, do qual, ao que parece, ele não se orgulha, tampouco se arrepende:

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[Resenha] Fugitiva

Não espere finais felizes dos oito contos reunidos em Fugitiva, uma das coletâneas de textos de Alice Munro. Em suas histórias, a canadense, ganhadora do Prêmio Nobel em 2013, não procura desfechos grandiosos, arrebatadores. A vida, ela nos ensina, é o cotidiano e o banal, e fugir nem sempre é possível.

Embora adore o gênero – enquanto estava lendo Munro, escrevi uma lista com cinco contos que considero imperdíveis -, acho particularmente difícil resenhá-lo. Há nessas coletâneas uma multiplicidade de vozes e temas que nem sempre permitem generalizações.

Os contos em Fugitiva, porém, têm, além das mulheres como protagonistas, alguns pontos de convergência. A inescapabilidade do destino – ou até mais do que isso, a força do acaso, que por vezes assume até um ar místico – é algo recorrente em suas histórias.

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[Resenha] Era Uma Vez uma Mulher que Tentou Matar o Bebê da Vizinha

Impossível ficar indiferente ao título deste livro da russa Liudmila Petruchévskaia: Era Uma Vez uma Mulher que Tentou Matar o Bebê da Vizinha. A cena sombria que ele anuncia e os ares de fábula contidos no “era uma vez” são uma ótima introdução à coletânea de contos dessa autora, que foi censurada na época do regime soviético. Hoje, Petruchévskaia é uma das escritoras e dramaturgas mais reconhecidas do seu país e chega, pela primeira vez, muito bem recomendada, às livrarias brasileiras, com essa edição da Companhia das Letras.

Sua escrita bebe na fonte fantasiosa dos contos de fadas na mesma medida em que lança um olhar afiado sobre a sociedade. Assim, Petruchévskaia se destaca por criar situações e personagens mágicos a partir de problemas reais, como a guerra, a fome, o inverno desolador, a solidão e tudo aquilo que desperta a escuridão da alma humana:

… existe um lado da vida secreto, animal, que floresce teimosamente, e é nele que se concentram as coisas detestáveis e hediondas;

Os contos dessa coletânea são habitados por fantasmas, viúvas e órfãos, uma crítica contundente aos horrores de uma nação que está sempre em combate. Mesmo depois da morte, vítimas e familiares não conseguem encontrar a paz. Em Um Caso em Sokólniki, por exemplo, um soldado morto reaparece para sua esposa para pedir um enterro digno, pois seus restos espalhadas e esquecidos não o permitem descansar.

A ausência é outro tema que perpassa a obra de Petruchévskaia. Se a morte ronda os soldados, a solidão assombra os que ficam à sua espera. Por meio de histórias fantasiosas, a escritora levanta um problema bastante real: o que será dessa geração de órfãos e viúvas?

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[Resenha] No Seu Pescoço

Não são muitos os autores que transitam com tanta facilidade do romance para o conto, do conto para o ensaio, do ensaio para os manifestos. Não importa o formato, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie mostra completo domínio do seu ofício. Uma das melhores escritoras de sua geração, Adichie expõe nossa vulnerabilidade perante o desconhecido nos doze contos que compõem No Seu Pescoço, lançado originalmente em 2009, mas só agora traduzido para o português pela Companhia das Letras.

As histórias contidas nessa coletânea são joias raras. Há ali a mesma potência de escrita que já conhecíamos dos romances da escritora, como Americanah e Hibisco Roxo, mas com mais espaço para experimentação de estilos, pontos de vista, narradores.

Em No Seu Pescoço, o conto que dá título ao livro, a história é narrada em segunda pessoa, uma inversão estilística que nos coloca diretamente no lugar da personagem, uma recém-chegada aos Estados Unidos que tenta se adaptar aos cheiros, comportamentos e hábitos fora do seu lugar.

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