Leitor no divã (página 1 de 9)

Nós, leitores, somos seres cheios de manias. Queremos sentir que não estamos sozinhas no mundo com nossas, digamos, peculiaridades. Leia, identifique-se e comente!

[Divã] Um caso de amor com a literatura russa

Tudo começou quando fui pela primeira vez à Festa do Livro da USP, em 2008. Nas bancadas da Cosac Naify e da Editora 34, reluziam os clássicos russos – edições lindíssimas e traduções primorosas, todas com 50% de desconto. Daí pra frente, a coleção só aumentou: novos autores, novos títulos e nenhuma decepção.

Não é comum ver literatura russa na grade curricular dos colégios brasileiros. Como meus hábitos literários na infância e na adolescência eram totalmente influenciados pela escola, apenas na faculdade surgiu esse interesse.

Uma das minhas melhores lembranças da graduação de Jornalismo na USP é viver rodeada de leitores ávidos. Não demorou muito para o nome de Dostoiévski se destacar nas conversas, e eu me sentir um pouco envergonhada por não conhecer o autor.

Logo depois da minha primeira Festa do Livro, resolvi a questão. Devorei, em seguida, minhas primeiras aquisições: Anna Kariênina, de Liev Tolstói, e Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Não poderia ter iniciado melhor. O atormentado Raskólnikov e a infeliz Anna me acompanharam por meses e meses. Quem me perguntasse sobre literatura naquela época, não ouviria nada diferente de Dostoiévski e Tolstói. Depois de anos tendo apenas Machado de Assis no meu rol de gênios literários, essa lista finalmente crescia.

Mas por que será que a literatura russa atravessa séculos, conquistando tantos leitores? O Brasil é tão distante da Rússia, geograficamente, politicamente e culturalmente. Ainda assim, não faltam fãs da literatura russa por aqui.

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[Divã] Um Ano de Mulheres

Um dos objetivos literários que tinha traçado para este ano era ler mais mulheres. Posso dizer, faltando apenas dois meses para o fim do ano (dá para acreditar?!), que 2017 foi de fato um ano recheado de autoras. Houve espaço para minhas escritoras preferidas,, claro, mas o mais interessante foi descobrir novas vozes e novos jeitos de contar o que é ser mulher no mundo.

A inspiração desse Divã veio, justamente, da entrevista concedida pela autora ruandesa Scholastique Mukasonga ao Achados & Lidos, uma das vozes femininas mais interessantes que descobri nos últimos anos. Na conversa que tivemos com a autora, perguntamos como ela enxergava o papel das escritoras em um mundo ainda tão desigual e injusto.

As escritoras, nos disse ela, devem contribuir para mudar a condição das mulheres,um tema que parece mais atual a cada novo episódio  de violência doméstica ou de abusos em série, como os cometidos pelo produtor americano Harvey Weinstein relatados pela imprensa.  Em Nossa Senhora do Nilo, Mukasonga nos mostrou um colégio só para mulheres em que a elite feminina ruandesa era educada com o único objetivo de formar boas esposas e mães. Apenas. A falta de perspectivas leva muitas delas a aderirem a caminhos tortuosos, como amantes de chefes locais, damas de companhia ou se deixando seduzir por sonhos de poder e fama.

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[Divã] Edições primorosas

Este texto é uma confissão que apenas os apaixonados por livros – e não só por literatura – irão entender.

Comecemos por um dos meus favoritos: Dom Casmurro, de Machado de Assis, da editora Carambaia. Por que pagar quase 100 reais em uma obra que é domínio público e que tem dezenas de outras edições muito mais baratas? Porque esse clássico merece. Porque esse gênio brasileiro merece. Porque a edição é quase uma obra de arte. Todas as alternativas anteriores.

Exemplar em capa dura, envolto em uma luva e numerado. Projeto gráfico de Tereza Bettinardi, com fotografias do Rio de Janeiro da época de Machado de Assis, sobre as quais o artista plástico Carlos Issa fez intervenções, utilizando técnicas como letraset, tinta, fita adesiva. O formato remonta à edição original de Dom Casmurro, de 1899, publicado pela Livraria Garnier, repetindo suas dimensões. Há também uma referência à antiga prática de decoração de livros, na qual imagens ficam dissimuladas na lateral do volume, revelando-se ao leitor à medida que ele manuseia as páginas. A perfeita harmonia entre forma e conteúdo: esse é, para mim, o diferencial que justifica o preço de edições de livros luxuosas.

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[Divã] A Arte da Tradução

Imagine que, se você quisesse ler Dostoiévski, teria que aprender russo. Ou japonês, se o escolhido fosse Haruki Murakami. Ou que boa parte do mundo jamais conheceria Machados de Assis ou Clarice Lispector, já que apenas uma parte pequena da população global fala português? A cada obra, uma nova língua. Esse seria o mundo sem os tradutores.

Sorte que essa é uma das atividades mais antigas do mundo. No dia 30 de setembro, comemora-se o dia internacional desse profissional porque é também o dia de São Jerônimo, que entre outras prerrogativas carrega o título de tradutor da Bíblia para o latim. São eles, os tradutores, que ao encarar o desafio de reescrever uma obra em outra língua, nos permitem saltar a barreira que nos separa da literatura produzida em outros idiomas.

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[Divã] Livros e memória afetiva

Tenho a impressão de que dentre as pessoas mais importantes da minha vida estão alguns livros.

O escritor português Valter Hugo Mãe disse essa frase durante uma palestra em São Paulo, no ano passado. Concordo totalmente. Os livros guardam mais do que a história dos seus personagens. Como bons amigos, eles carregam um pouco da nossa própria história.

Tenho o hábito de anotar na folha de rosto dos meus livros o mês e o ano em que concluí a leitura – além do registro, é uma forma de controlar minha pilha de não lidos, rs. De vez em quando, gosto de revirar minha estante olhando essas datas.

Apesar da decepção por ver que meu fôlego literário para calhamaços tem diminuído (saudade, vida de estudante), há outros sentimentos que me invadem. Alguns títulos me despertam memórias afetivas de certos períodos da minha vida.

Em março de 2011, terminei a leitura de 2666, de Roberto Bolaño. A obra-prima do escritor chileno é um livro denso, com uma narrativa violenta e perturbadora. Ainda assim é um dos meus romances favoritos. Provavelmente, porque era o que eu precisava naquele momento em que a espera por uma decisão me angustiava. A escrita de Bolaño me acompanhou por meses, preenchendo vazios e marcando minha memória sobre esse romance. Todos que me perguntam sobre 2666 recebem respostas entusiasmadas, seguidas de um “tem que ler!”.

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