Que dia triste. Não foram apenas objetos que viraram cinzas. O incêndio que, neste domingo, devastou o Museu Nacional no Rio de Janeiro, acabou com 200 anos de pesquisa, destruiu um dos maiores acervos de antropologia e história natural do Brasil e levou um pouco mais da já escassa fé que temos no futuro do nosso país. Para qualquer pessoa que acredita no poder transformador da cultura, ver o descaso com que nossa sociedade trata esse tema é desesperador.

Um povo que ignora sua própria história é um povo disposto a cometer os mesmos erros. E quando falamos de memória, não precisamos nem ir muito longe para ver como ela é diariamente espezinhada no Brasil.

Basta prestar atenção em certos discursos que se proliferam nessas épocas eleitorais e que tentam amenizar ou até negar os horrores da ditadura. Estamos falando de um passado recente. O golpe militar tem pouco mais de 50 anos e já há quem o tenha esquecido.

A educação e a cultura, juntas, são os antídotos para esse esquecimento nocivo, porque, mais que oferecer e preservar conhecimento, elas munem o cidadão de identidade e capacidade crítica.

Para onde correr, portanto, quando nossos governos resolvem “se esquecer” de investir nessas áreas? Desculpem o pessimismo, mas não vejo saída para o caos. Como bem diz este trecho do livro A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery:

… talvez a maior cólera e a maior frustração não seja o desemprego, não seja a miséria, não seja a ausência de futuro: seja a sensação de não ter cultura, porque a pessoa está dilacerada entre culturas, símbolos incompatíveis. Como existir se não sabemos onde estamos?

O incêndio do Museu Nacional é a alegoria perfeita para a falência das nossas políticas públicas. Há uma inversão de valores em nossa sociedade que deixa pouco espaço para a esperança.

Um dos melhores textos que li hoje sobre essa tragédia foi um post no facebook do escritor Valter Hugo Mãe, em que ele diz:

… o museu nacional do brasil não pode arder. só em tempo de guerra, no grotesco que a guerra pode ser, coisas assim acontecem. fico com a impressão de que o brasil está em guerra consigo mesmo.

meu abraço solidário a todos os que prestigiam o brasil e a sua cultura, e a todas as gerações futuras que se vêem impedidas de aceder ao melhor do seu próprio património e tanta da sua memória.

estou horrorizado.

Estamos também horrorizados. E sim, parece que estamos em guerra com nós mesmos. Quem acredita na arte, na literatura e na educação vive tempos difíceis, de total desilusão.

O Brasil precisa fazer as pazes com a sua memória e aprender a tratá-la melhor. Não se constrói futuro abandonando o passado. Wisława Szymborska tem um poema que se chama Vida difícil com a memória, em que ela diz uma grande verdade:

(…) Às vezes fico farta de sua companhia.
Proponho nos separarmos. De hoje para sempre.
Então sorri com complacência,
sabe que também para mim seria uma condenação.

No final das contas, não há perdição maior para uma sociedade do que viver em guerra com sua memória. Entre cinzas e escombros, não há vencedores.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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