A Cor Púrpura, de Alice Walker (José Olympio, 336 páginas) é um livro violento. Logo nas primeiras páginas, Celie, a personagem principal, é abusada sexualmente pelo pai, engravida e é dada em casamento para um vizinho que a maltrata. É também um livro recheado de ternura, de amor e de personagens que demonstram sua capacidade de reinvenção e, sobretudo, de afeto.

A linguagem simplória, com erros de ortografia e concordância cometidos pela narradora, que escreve cartas para a irmã desaparecida para combater a solidão, em um primeiro momento causa estranheza. Mas essa sensação inicial é logo substituída por uma crescente empatia pela personagem, com a qual desenvolvemos uma relação de intimidade.

Celie é a mais velha entre vários irmãos e, na tentativa de proteger a irmã mais nova, ela sofre constantes abusos sexuais do pai. Suas duas gravidez não desejadas terminam com os bebês sendo retirados de seu convívio, entregues para outras famílias. Quando sua mãe morre, o pai decide tirá-la terminantemente de casa, na tentativa de afastá-la da irmã mais nova, Nessie, dando-a em casamento para Albert, um fazendeiro da região que também cortejava sua irmã, que decide fugir em busca de uma vida diferente.

No início, Celie tem dificuldade de reagir. Entre os abusos do pai e os maus tratos do marido, ela se afunda na depressão, concentrada em trabalhar na roça e cuidar dos filhos do primeiro casamento de Albert.

Mas eu num sei como brigar. Tudo o queu sei fazer é cuntinuar viva.

A história só começa a mudar com a chegada de Avery Shug, a amante de Albert. No começo, as duas se estranham. Avery diz para Celie que ela é mesmo feia, e Celie se sente pouco à vontade em sua insignificância perto da exuberância da mulher, que emana calor e decisão, do alto de suas roupas bonitas e de sua confiança. Ela é tudo que Celie não é.

A relação entre as duas se torna mais próxima. O desgastado termo sororidade poderia ser aplicado aqui sem problemas. É Shug que vai contribuir para a reviravolta na vida de Celie, lhe garantindo autonomia, independência e até mesmo felicidade.

Esse caminho, claro, é tortuoso, mas a leitura fica cada vez mais empolgante a cada passo dado por Celie em direção à liberdade.

Os demais personagens também contam boas histórias, simbolizando embates específicos. Walker não tem receio de encarar diversos temas em um mesmo livro. Celie, que é negra, é alvo de violência doméstica. Em seu entorno, os negros também sofrem preconceito de raça. Aqueles que ousam se levantar, como Sofia, a esposa de um dos filhos de Albert, acabam tendo um destino ainda pior. Sofia, que não engoliu as agressões gratuitas da esposa do prefeito e a agrediu, acabou atrás das grades, em uma prisão de condições subumanas, que quase a mataram.

Um outro núcleo, que aparece mais para o fim da trama, retrata outro drama do início do século XX, a colonização africana. O olhar que Walker apresenta da chegada dos colonizadores ingleses a um povoado africano, destruindo seus costumes, suas crenças, tomando suas terras, é devastador. Entre as tentativas de resistência frustrada da aldeia, surge um pensamento óbvio: “eles estavam aqui desde sempre”. Mas essa verdade incontestável não estava escrita nas leis dos homens brancos, que em pedaços de papel podiam designar a posse de terras de propriedade de tribos milenares.

O território inteiro, incluindo a aldeia dos Olinka, agora pertencia a um comerciante de borracha da Inglaterra. À medida que ele ia se aproximando da costa, ele se surpreendia vendo centenas e mais centenas de nativos como os Olinka limpando a floresta de cada lado da estrada, plantando seringueira. As antigas, gigantescas árvores de mogno, todas as árvores, a caça, tudo na floresta estava sendo destruído.

Um povo sem terra e sem pátria, seja na África, onde nasceram e de onde vieram, seja nos Estados Unidos, onde eram considerados cidadãos de segunda classe. Ao explorar o destino de uma família negra no século XX, Walker constrói um panorama do racismo, ao mesmo tempo em que mostra a condição de submissão das mulheres. O livro não é um manifesto racial ou feminista, mas é um forte discurso sobre raça e gênero, ao mostrar o poder devastador da opressão sobre a vida de seres humanos comuns, com vontades, desejos e dramas pessoais.

A lição de amor, contudo, é o que fica. Celie aprende a amar a si mesma e aos outros, com a ajuda de Avery Shug. E até mesmo Albert tem uma segunda chance, quando fica sozinho e tem que aprender, aos trancos, como se cuidar. A lição mais bonita vem de Shug, claro, a personagem mais esclarecida sobre seu papel no mundo:

Celie, fala a verdade, você alguma vez encontrou Deus na igreja? Eu nunca. Eu só encontrei um bando de gente esperando ele aparecer. Se alguma vez eu senti Deus na igreja foi o Deus queu já tinha levado comigo. E eu acho que todo o pessoal também. Eles vão pra igreja para repartir Deus, não para achar Deus.

Além de uma leitura cativante, a obra também ganhou aclamada versão para o cinema, com direção de Steven Spielberg e 11 indicações ao Oscar, entre elas a de Whoopi Goldberg para Melhor Atriz no papel de Celie.

Tainara Machado

Tainara Machado

Acredita que a paz interior só pode ser alcançada depois do café da manhã, é refém de livros de capa bonita e não pode ter nas mãos cardápios traduzidos. Formou-se em jornalismo na ECA-USP.
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