Autor: Mariane Domingos (página 1 de 32)

[Divã] Mais poesia, por favor

Ler mais poesia é uma das minhas metas literárias para 2018. Comecei o ano bem, com Rabo de Baleia (Alice Sant’anna) e Um Amor Feliz (WisławaSymzborska). Parece pouco, mas esses dois títulos já são uma vitória, considerando que, para mim, poesia é um gênero extremamente desafiador.

Interpretação é uma habilidade necessária a qualquer tipo de leitura. No entanto, para poesia, ela é vital. Entre um verso e outro cabem mais possibilidades de compreensão do que entre a primeira e a última página de um grande romance.

A concisão do formato em versos exige certos malabarismos com a linguagem que trazem, ao mesmo tempo, beleza e abertura ao texto. A escassez de palavras na poesia, quando comparada à prosa, faz com que elas ganhem muito mais força nesse gênero. Embora pareçam jogadas ao vento, são escolhidas milimetricamente, levando em conta a multiplicidade de significados. Carlos Drummond de Andrade em seu Consideração do Poema, descreve bem essa tarefa:

Não rimarei a palavra sono
Com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre, por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Concordo com quem diz que ler poesia é mais sentir do que entender. Eu costumo demorar bem mais em dez versos do que em dez páginas de um romance. Leio e releio, em busca de sentido. Mas às vezes, só consigo enxergar a beleza das palavras e ouvir o ritmo das rimas, descobrindo uma nova possibilidade a cada leitura.

Antes, essa oscilação me frustrava, mas tenho aprendido a apreciá-la. Confesso que os poetas que flertam com a prosa, como João Cabral de Melo Neto e a própria Wisława Szymborska, são ainda os que mais me atraem, mas tenho tentado diversificar esse leque.

Sobre essa separação entre gêneros literários, aliás, a poeta polonesa Nobel de Literatura tinha uma opinião bastante contundente. Ela não acreditava em uma divisão drástica entre prosa e poesia. Em uma entrevista de 1975, Szymborska disse: “Parece-me que esses críticos que acham que eu às vezes escrevo como que novelinhas em miniatura, que são na verdade pequeninas histórias com alguma ação – talvez tenham razão.” Em seu poema Medo do Palco, ela vai ainda mais longe:

Poetas e escritores,
É assim que se diz.
Logo, poetas não são escritores, então o quê –

O caminho contrário também pode acontecer: em vez de “novelinhas em miniatura”, versos encadeados formando longas novelas. Temos a sorte de um dos grandes nomes contemporâneos da prosa poética ser da literatura portuguesa. Poder ler o texto original de Valter Hugo Mãe é não perder a beleza de versos disfarçados de frases, como estas que aparecem em Homens Imprudentemente Poéticos:

Esperaram pelo sono para se mudarem para o dia seguinte. Havia sempre esperança na travessia nocturna. Cada deus revia a criação no quieto da noite, acender os dias era sempre a possibilidade de uma nova criação. Era importante dormir com esperança.

E você, gosta de poesia ou prosa poética? O que mais chama sua atenção? Deixe aqui nos comentários suas dicas de leitura!

“Era isso que seus pais haviam lhe ensinado e que ela prometera a eles: escolher, eles insistiam, e nunca ser empurrada. Não deixar nenhum insulto ou ofensa derrubá-la.”

 

Toni Morrison em Voltar para Casa

[Resenha] Um Amor Feliz

Minha vontade é transcrever os poemas de Wisława Szymborska (pronuncia-se Vissuáva Chembórska) todos aqui, para convencê-los de imediato de sua genialidade. Tenho, no entanto, apenas algumas linhas para cumprir essa missão. Espero fazer jus à capacidade de concisão, que é uma das marcas de Szymborska, sintetizando, em poucos parágrafos, por que a coletânea Um Amor Feliz (Companhia das Letras, 327 páginas) deve ser sua próxima leitura.

A primeira razão é, sem dúvida, a sagacidade de sua poesia. A amplitude um tanto assustadora do mundo e a beleza por vezes cruel dos detalhes são comuns à obra da poeta polonesa, que ganhou o Nobel de Literatura em 1996. Com um olhar aguçado sobre a realidade, Szymborska extrai reflexões essenciais de momentos que, para a maioria das pessoas, soam banais. No poema Elegia de Viagem, por exemplo, a fugacidade do instante, tão corriqueira na vida de um turista, ganha forma em belos versos:

Tudo meu, nenhuma posse,
nenhuma posse para a lembrança,
mas meu enquanto olho.

(…)

Da cidade de Samokov só a chuva
e nada além da chuva.

Paris do Louvre às unhas
em brancura se vela.

(…)

Saudação e despedida
numa única olhada.

Para o excesso e a falta
um só mover do pescoço.

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[Lista] 5 livros para se emocionar

Se vocês me perguntarem quantos filmes me fizeram chorar, certamente lembrarei dois ou três, no máximo. Com livros, no entanto, a história é outra. A literatura me emociona mais frequentemente e intensamente que o cinema. Resolvi, então, listar cinco livros emblemáticos que, além de ótimas leituras, me renderam muitas lágrimas.

1. A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe: a prosa poética do escritor português já é, por si só, um convite às lágrimas. Quando o enredo trata da solidão e da saudade, sua escrita fica ainda mais poderosa.

Em A Máquina de Fazer Espanhóis, que lemos na quarta edição do nosso Clube do Livro, acompanhamos a história de António, que é abandonado pelos filhos em um asilo, depois de perder a esposa, companheira de tantos anos. O trecho em que o personagem recebe a notícia da morte de Laura, logo no primeiro capítulo, já é de cortar o coração:

só depois gritei, imediatamente sem fôlego, porque aquela teoria de que existe oxigénio e usamos os pulmões e fica feito também não é cem por cento verdade. entrei em convulsões no chão e as mãos do homem e da mulher que ali me assistiam eram exactamente iguais às bocas dentadas de um bicho que me vinha devorar e que entrava por todos os lados do meu ser. fui atacado pelo horror como se o horror fosse material e ali tivesse vindo exclusivamente para mim.

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“Não existe uma única realidade, cabo. Existem muitas realidades. Não existe um único mundo. Existem muitos mundos, e todos seguem paralelos uns aos outros, mundos e antimundos, mundos e mundos-sombra, e cada mundo é sonhado ou imaginado ou escrito por alguém num outro mundo. Cada mundo é a criação de uma mente.”

 

Paul Auster em Homem no Escuro

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