[Divã] Caçadores de autógrafos

Neste ano, não teve Flip pro Achados. Com o gostinho amargo de quem gostaria de estar lá, eu e Tatá passamos cinco dias tentando superar uma timeline monopolizada por fotos e notícias de Paraty. Não foi fácil, mas sobrevivemos à base de muita leitura e boas lembranças das edições anteriores.

Das barracas de doces às mesas com os autores, a Flip é um conjunto de experiências imperdíveis, principalmente por proporcionar aos apaixonados por literatura a proximidade com os escritores.

Além de poder ouvi-los nas mesas e nos eventos paralelos, ainda temos as famosas filas de autógrafos, um dos meus momentos favoritos! É preciso muita paciência, porque elas podem tomar um bocado de tempo. Meu recorde foi em 2016, quando levei duas horas e meia para conseguir um autógrafo da Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch. Valeu a pena? Com certeza!

Mas por que será que livros autografados são objetos de desejo para grande parte dos apaixonados por literatura? No meu caso, a resposta é fácil: o autógrafo está ligado à memória. É como ter uma lembrança física de uma experiência agradável.

A maior parte dos meus livros autografados é resultado de participações em eventos com escritores. Ainda hoje, quando abro meu exemplar de Desumanização, na preciosa edição da Cosac Naify, e vejo o autógrafo de Valter Hugo Mãe, lembro-me na hora de ouvi-lo falar, lá em 2014, sobre a literatura como utopia, a Islândia, os monstros marinhos e a solidão.

Já o autógrafo de Aleksiévitch me recorda o dia em que vi uma mulher de fala mansa e trajes delicados emocionar um auditório lotado da Flip com seus relatos sobre tragédias e guerras.

A dedicatória, em francês, de Scholastique Mukasonga, é outra ótima lembrança da tarde em que fiquei mais de uma hora de pé em uma ruela de Paraty, numa roda de pessoas, ouvindo a autora ruandesa contar sobre como a literatura cruzou o seu caminho, tristemente marcado pelo genocídio em Ruanda, em 1994. Também me recordo das palavras que troquei com ela, quando lhe entreguei meu livro , e dos gentis elogios que ela fez ao meu francês. Mal sabia que, naquele mesmo ano, ainda teríamos a honra de entrevistá-la para o Achados.

Enfim, muito mais do que um papel assinado e datado, livros autografados são especiais para mim, porque eles contêm sempre duas histórias: aquela que o escritor conta e aquela que eu conto.

E vocês, gostam e têm livros autografados? Conte aqui, nos comentários, suas boas lembranças!

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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2 Comentários

  1. Eu não corro atrás de autógrafo principalmente por não achar que são muitos autores contemporâneos que mereçam meu tempo. Creio que a busca pelo autógrafo também diz respeito à ideia de proximidade mesmo que momentânea entre o escritor e o leitor. É como um prêmios e uma demonstração de que estiveram, por instantes, juntos. Além disso, eu acho que isso tem ligação com o fato de que é um diferencial em relação a qualquer outro. Só no seu livro o Valter Hugo traçou as letras daquela forma, escreveu tal palavra, dedicou aquele momento preciso de tempo.

    • Mariane Domingos

      12 de agosto de 2018 at 16:26

      Concordo, Ana! O autógrafo, para mim, é uma memória literária. E bem lembrada a questão da exclusividade: ela faz a lembrança ser ainda mais especial! 🙂

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