Quem passou pela rua Comendador José Luiz, no Centro Histórico de Paraty, na tarde de sábado, avistou um amontoado de gente sentado no chão ou parado de pé. A roda se formava em torno de um banco simples de madeira, sobre o qual se encolhia uma figura tímida, de aspecto gracioso e voz serena. Os transeuntes que chegavam até ali, quando não decidiam se juntar ao grupo, davam meia volta para não atrapalhar ou atravessavam a roda apressados, fazendo caretas de desculpas silenciosas pelo incômodo e esticando olhares curiosos sobre aquele palco improvisado. Quem seria aquela mulher?

Aquela mulher era a escritora ruandesa Scholastique Mukasonga, uma sobrevivente da luta fratricida entre os tutsis, sua etnia, e os hutus. A autora se salvou do desfecho trágico dessa guerra, porque conseguiu o exílio, primeiro para o Burundi, depois para a França. Seus pais, irmãos e sobrinhos, no entanto, não tiveram o mesmo destino. Em 1994, Mukasonga perdeu 27 membros de sua família. Nessa época, ela já morava na França, onde as manchetes de jornal anunciavam o que a ONU em pouco tempo confirmaria: um genocídio havia devastado Ruanda. Foram cerca de 800 mil mortos em 100 dias.

Muitos que passaram pela rua de Paraty naquele sábado provavelmente não faziam ideia de quem era Mukasonga. Aliás, antes da Flip, a maioria dos brasileiros não a conhecia. A partir de agora, a expectativa é que a escritora ganhe cada vez mais leitores por aqui: dois dos seus livros acabam de ser lançados em português – A Mulher de Pés Descalços e Nossa Senhora do Nilo.

A mesa oficial da Flip que contou com a participação de Mukasonga aconteceu na quinta-feira e não pudemos presenciá-la, pois só chegamos a Paraty na sexta. O evento paralelo na Casa Paratodos foi, então, a oportunidade que esperávamos. Logo cedo, no sábado, passamos para nos informar como seria organizado o encontro, já que a casa era bem pequena. Soubemos, então, que tentariam reunir as pessoas na rua mesmo.

Saímos apressadas da mesa com Maria Valéria Rezende e Luaty Beirão, que acabou exatamente às 16h30, horário que começaria a conversa com Mukasonga. Quando chegamos, o tradutor a estava apresentando. Assim que ela tomou a palavra, sua voz serena acalmou todo o desconforto daquela plateia improvisada. A escritora começou dizendo que agradecia a todos por estarem ali para escutá-la, mesmo apesar das pedras duras que serviam como assento. Na verdade, ela não queria que aquele encontro fosse uma palestra, mas sim um diálogo. Mukasonga estava ali para ter um momento de troca com os leitores.

Logo seu tradutor abriu para perguntas. A primeira questão abordou sua chegada à Normandia, na França, e sua adaptação pessoal e profissional no país. Mukasonga não negou que o racismo existe, mas ressaltou a importância da determinação do imigrante na fase de integração. “É sempre mais fácil dizer que não fomos bem recebidos. O racismo existe sim, mas é preciso passar por ele como quem atravessa o fogo e não se queima.”

Depois, Mukasonga contou como foi seu encontro com a escrita. Segundo ela, o genocídio a fez descobrir habilidades narrativas que ela não sabia que tinha. “Aqueles fantasmas não podia ficar comigo. A escrita me ajudou a libertá-los. Escrevemos para exprimir aquilo que a língua não pode dizer. A folha branca é minha confidente. Ela não faz perguntas.”

Mukasonga falou ainda sobre a diferença entre o romance e a autobiografia. Ela começou escrevendo ficção e isso a ajudou a se preparar para o turbilhão de memórias e emoções que é o texto biográfico. “O relato, diferente do romance, é como ter agulhas picando todo seu corpo.”

A Mulher de Pés Descalços é resultado desse processo. Mukasonga sentiu que tinha a obrigação de falar sobre sua mãe, Stefania. Sua condição de sobrevivente lhe impunha uma missão: resgatar a memória dos que já não estão mais aqui. Nesse momento, a escritora se emocionou e emocionou a todos que a escutavam. Mesmo aqueles que não entenderam de imediato seu discurso em francês podiam sentir o peso das suas palavras.

Quando levei meu livro para que ela autografasse, eu disse o quanto a leitura de A Mulher de Pés Descalços mexeu comigo e lhe agradeci por dividir sua história conosco. Mukasonga não se cansava de repetir “obrigada” e ainda fez questão de reforçar que já tinha ouvido que o povo brasileiro era acolhedor, mas não imaginava o quanto. “Vou partir do Brasil com ótimas memórias”.

E foi assim que a “mesa” mais interessante desta minha experiência na Flip 2017 aconteceu: sem cadeiras almofadadas, equipamentos de luz e som ou fones para tradução. O palco da escritora foi um banco de madeira encostado na parede. O fone de tradução foi a habilidade e agilidade de Leonardo Tonus que anotava freneticamente tudo (e era bastante!) que Mukasonga dizia para depois traduzir para o português. O equipamento de som foi um único microfone que passeava pelas mãos da escritora, do tradutor e dos ouvintes. As cadeiras da plateia foram as pedras que cobrem o chão de Paraty. A iluminação ficou por conta do sol que parecia também estar gostando daquele bate-papo, pois se pôs vagarosamente, numa calma incomum para dias de inverno.

Agora, quando recordo essa cena, me vem à mente um trecho do livro A Mulher de Pés Descalços, em que Mukasonga conta sobre uma das várias habilidades de sua mãe – a de contar histórias:

Mamãe se senta na esteira encostada no biombo que esconde a cama maior. Ela estica as pernas e tira da cabeça o lenço improvisado, feito com um pedaço de tecido que ela aproveitou de um pano antigo. Ela o dobra com cuidado e coloca na borda de um cesto cheio de feijão. Estamos as três sentadas na frente dela. Pouco a pouco vamos sentindo o calor do fogo tão próximo, uma sensação agradável de torpor nos invade, o fogo é apenas uma luz leve. Está na hora de contar histórias.

Provavelmente, a arte de contar histórias foi apenas uma das virtudes que Mukasonga herdou da mãe. Diante da generosidade em compartilhar conosco suas memórias, a despeito da dor que elas lhe causam, só nos resta desejar que, naquela roda improvisada em uma rua de Paraty, ela tenha se sentido em casa. Tão em casa como no inzu em que se reunia com as irmãs para ouvir as histórias de Stefania.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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