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[Lista] 5 livros para se emocionar

Se vocês me perguntarem quantos filmes me fizeram chorar, certamente lembrarei dois ou três, no máximo. Com livros, no entanto, a história é outra. A literatura me emociona mais frequentemente e intensamente que o cinema. Resolvi, então, listar cinco livros emblemáticos que, além de ótimas leituras, me renderam muitas lágrimas.

1. A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe: a prosa poética do escritor português já é, por si só, um convite às lágrimas. Quando o enredo trata da solidão e da saudade, sua escrita fica ainda mais poderosa.

Em A Máquina de Fazer Espanhóis, que lemos na quarta edição do nosso Clube do Livro, acompanhamos a história de António, que é abandonado pelos filhos em um asilo, depois de perder a esposa, companheira de tantos anos. O trecho em que o personagem recebe a notícia da morte de Laura, logo no primeiro capítulo, já é de cortar o coração:

só depois gritei, imediatamente sem fôlego, porque aquela teoria de que existe oxigénio e usamos os pulmões e fica feito também não é cem por cento verdade. entrei em convulsões no chão e as mãos do homem e da mulher que ali me assistiam eram exactamente iguais às bocas dentadas de um bicho que me vinha devorar e que entrava por todos os lados do meu ser. fui atacado pelo horror como se o horror fosse material e ali tivesse vindo exclusivamente para mim.

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[Divã] Histórias da Flip, parte 1

Quem passou pela rua Comendador José Luiz, no Centro Histórico de Paraty, na tarde de sábado, avistou um amontoado de gente sentado no chão ou parado de pé. A roda se formava em torno de um banco simples de madeira, sobre o qual se encolhia uma figura tímida, de aspecto gracioso e voz serena. Os transeuntes que chegavam até ali, quando não decidiam se juntar ao grupo, davam meia volta para não atrapalhar ou atravessavam a roda apressados, fazendo caretas de desculpas silenciosas pelo incômodo e esticando olhares curiosos sobre aquele palco improvisado. Quem seria aquela mulher?

Aquela mulher era a escritora ruandesa Scholastique Mukasonga, uma sobrevivente da luta fratricida entre os tutsis, sua etnia, e os hutus. A autora se salvou do desfecho trágico dessa guerra, porque conseguiu o exílio, primeiro para o Burundi, depois para a França. Seus pais, irmãos e sobrinhos, no entanto, não tiveram o mesmo destino. Em 1994, Mukasonga perdeu 27 membros de sua família. Nessa época, ela já morava na França, onde as manchetes de jornal anunciavam o que a ONU em pouco tempo confirmaria: um genocídio havia devastado Ruanda. Foram cerca de 800 mil mortos em 100 dias.

Muitos que passaram pela rua de Paraty naquele sábado provavelmente não faziam ideia de quem era Mukasonga. Aliás, antes da Flip, a maioria dos brasileiros não a conhecia. A partir de agora, a expectativa é que a escritora ganhe cada vez mais leitores por aqui: dois dos seus livros acabam de ser lançados em português – A Mulher de Pés Descalços e Nossa Senhora do Nilo.

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[Resenha] A Mulher de Pés Descalços

À Scholastique Mukasonga não foi dada a chance de cumprir o desejo da mãe, que era ter o corpo coberto depois de sua morte. Os assassinos não deixaram sequer um corpo, apenas os membros soltos e espalhados de Stefania, A Mulher de Pés Descalços (a edição brasileira saiu recentemente pela Editora Nós).

Nascida em Ruanda, Mukasonga viveu a luta fratricida entre os tutsis, sua etnia, e os hutus. Diferente do restante de sua família, a escritora conseguiu o exílio, primeiro para o Burundi, depois para França. Stefania, sua mãe, foi uma entre tantas vítimas do genocídio que devastou o país em 1994.

Este livro é a homenagem de Mukasonga à mãe. Mas não é só isso. É também um tributo às mulheres e à cultura ruandesas. É ainda uma forma de resistência à tirania que cala os mortos, reduzindo vítimas a números, e aniquila os vivos, transformando suas memórias em traumas, em tabus. Mukasonga venceu o horror das lembranças e criou, com sua literatura, um relato único de sua etnia.

Cada capítulo do livro dá conta de um aspecto da vida das famílias tutsis. A busca incansável da mãe por criar esconderijos para salvar as crianças, a colheita do sorgo, a construção das casas, as lendas, os casamentos, a farmácia, os rituais de beleza, a alimentação – tudo isso tem espaço na narrativa de Mukasonga.

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[Lista] 5 leituras para Flip 2017

O Achados & Lidos já está de malas prontas para a 15a Festa Literária Internacional de Paraty! \o/ Mais do que um evento para celebrar a literatura, a Flip é uma ótima oportunidade para (re)descobrir escritores. Do autor homenageado aos participantes das mesas, a lista de hoje traz cinco livros que já estão na nossa bagagem!

1. A Mulher de Pés Descalços, de Scholastique Mukasonga: desde que começaram a ser anunciados os convidados da Flip deste ano, esse foi o nome que mais chamou minha atenção. Nascida em Ruanda e sobrevivente das lutas fratricidas entre as etnias Tutsi e Hutu, Mukasonga é uma das principais escritoras e ativistas da diáspora negra.

Em A Mulher de Pés Descalços, a escritora revira suas memórias e dá voz à dor e à perda em uma comovente homenagem à mãe, Stefania. Li pouco mais de 30 páginas do livro e já senti um nó na garganta em diversos trechos.

Logo no início, Mukasonga explica que o livro foi a forma que ela encontrou de cumprir com um pedido da mãe: após sua morte, ter seu corpo coberto para que ninguém o visse, pois “não se deve deixar ver o corpo de uma mãe”. Mukasonga não pôde atender esse desejo, pois Stefania foi brutalmente assassinada no genocídio que devastou seu país:

Mamãe, eu não estava lá para cobrir seu corpo e não tenho nada além de palavras – palavras de uma língua que você não entenderia – para cumprir o que você pediu. E estou só com minhas pobres palavras e minhas frases, sobre a página do caderno, tecendo a mortalha de seu corpo ausente.

Alguém duvida que a participação de Mukasonga na Flip será marcante?

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