Se vocês me perguntarem quantos filmes me fizeram chorar, certamente lembrarei dois ou três, no máximo. Com livros, no entanto, a história é outra. A literatura me emociona mais frequentemente e intensamente que o cinema. Resolvi, então, listar cinco livros emblemáticos que, além de ótimas leituras, me renderam muitas lágrimas.

1. A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe: a prosa poética do escritor português já é, por si só, um convite às lágrimas. Quando o enredo trata da solidão e da saudade, sua escrita fica ainda mais poderosa.

Em A Máquina de Fazer Espanhóis, que lemos na quarta edição do nosso Clube do Livro, acompanhamos a história de António, que é abandonado pelos filhos em um asilo, depois de perder a esposa, companheira de tantos anos. O trecho em que o personagem recebe a notícia da morte de Laura, logo no primeiro capítulo, já é de cortar o coração:

só depois gritei, imediatamente sem fôlego, porque aquela teoria de que existe oxigénio e usamos os pulmões e fica feito também não é cem por cento verdade. entrei em convulsões no chão e as mãos do homem e da mulher que ali me assistiam eram exactamente iguais às bocas dentadas de um bicho que me vinha devorar e que entrava por todos os lados do meu ser. fui atacado pelo horror como se o horror fosse material e ali tivesse vindo exclusivamente para mim.

2. A Mulher de Pés Descalços, de Scholastique Mukasonga: como não teve a chance de cumprir o desejo da mãe, que era ter o corpo coberto depois de sua morte, Mukasonga usou a literatura para homenageá-la. Assim, a escritora conseguiu não apenas expressar seus sentimentos, mas também ajudou a construir a memória do seu povo.

Nascida em Ruanda, Mukasonga viveu a luta fratricida entre os tutsis, sua etnia, e os hutus. Diferente do restante de sua família, a escritora conseguiu o exílio. Já Stefania, sua mãe, foi uma entre tantas vítimas do genocídio que devastou o país em 1994.

Em A Mulher de Pés Descalços, no entanto, não temos uma narrativa da violência ou do horror. Mukasonga destrincha nessas páginas suas memórias de infância, em um tributo às mulheres e à cultura ruandesas. Seu texto é uma forma de resistência à tirania que cala os mortos, reduzindo vítimas a números, e aniquila os vivos, transformando suas memórias em traumas, em tabus. Mukasonga venceu o pavor das lembranças e criou, com sua literatura, um relato único de sua etnia.

No prefácio, a escritora prepara para a força do texto que vem adiante, em uma emocionante declaração à sua mãe:

Não cobri o corpo da minha mãe com o seu pano. Não havia ninguém lá para cobri-lo. Os assassino puderam fica um bom tempo diante do cadáver mutilado por facões. As hienas e os cachorros, embriagados de sangue humano, alimentaram-se com a carne dela. Os pobres restos de minha mãe se perderam na pestilência da vala comum do genocídio, e talvez hoje, mas isso não saberia dizer, eles sejam, na confusão de um ossuário, apenas osso sobre osso e crânio sobre crânio.

Mãezinha, eu não estava lá para cobrir o seu corpo, e tenho apenas palavras – palavras de uma língua que você não entendia – para realizar aquilo que você me pediu. E estou sozinha com minhas pobres palavras e com minhas frases, na página do caderno, tecendo e retecendo a mortalha do seu corpo ausente.

Tão emocionante quanto ler Scholastique Mukasonga, é ouvi-la. Nosso encontro com ela na Flip 2017 rendeu até um post aqui no Achados. Também fizemos uma entrevista com a autora, quando do encerramento da edição do Clube do Livro de Nossa Senhora do Nilo.

3. O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksiévitch: antes, preciso confessar que chorei não apenas com esse livro, mas sim com os dois livros que li de Aleksiévitch. E também chorei quando a ouvi na Flip, em 2016. Sua obra é aquele tipo de literatura que é um soco no estômago.

Como escrevi na resenha de O Fim do Homem Soviético, por mais incômodos que sejam seus relatos, uma vez que começamos a lê-los, é impossível não ir até o fim. Aleksiévitch nos arranca de nossa zona de conforto e mostra que a consciência da realidade é um caminho sem volta.

Nesse livro, ela reúne entrevistas que realizou entre 1991 e 2012 com pessoas que viveram a queda do império soviético. De um momento a outro, de forma abrupta, ruiu uma estrutura gigantesca e poderosa. Enquanto a História dá conta dos grandes fatos e números, Aleksiévitch se ocupa dos sentimentos e da infinita quantidade de verdades humanas dos personagens da vida real:

Fico andando em círculos ao redor da dor. Não consigo me afastar. Na dor, existe tudo: tanto sombras como solenidade; às vezes, creio que a dor é uma ponte entre as pessoas, um elo oculto; mas outras vezes penso desesperada que aquilo é um abismo.

4. Os Miseráveis, de Victor Hugo: quem acompanha o blog há um tempo sabe que esse é um dos meus livros favoritos. Como o título já adianta, o romance não é feito de destinos tranquilos nem de histórias felizes de pessoas privilegiadas.

O herói Jean Valjean e a jovem Fantine são personagens que transbordam sofrimento graças a uma vida marcada pela miséria. Já faz alguns anos que concluí essa leitura, mas me lembro com clareza da cena que mais me impactou – aquela em que Fantine se vê obrigada a vender seus dentes para conseguir dinheiro:

E pôs-se a sorrir. A vela iluminava-lhe o rosto. Era um sorriso ensanguentado. Uma saliva avermelhada sujava-lhe os cantos dos lábios., na boca aparecia um buraco escuro.

Os dois dentes superiores tinham sido arrancados.

E esse era apenas o início da desgraça que cairia sobre ela… Impossível passar pelas mais de mil páginas dessa obra-prima sem derrubar uma lágrima.

5. Vidas Secas, de Graciliano Ramos: li esse romance quanto tinha apenas 15 anos. Foi uma leitura obrigatória do colégio e lembro-me do quanto fui impactada pela genialidade do escritor alagoano. Nunca fiz com tanto entusiasmo um trabalho da escola, rs.

A partir de personagens emblemáticos, Ramos constrói um retrato cortante da vida no sertão nordestino. A miséria imposta a Fabiano e sua família é tamanha que eles são privados até mesmo das características que os tornam humanos. Baleia, o cão que os acompanha, parece ser mais humano do que todos eles, pois é capaz de sonhar, sentir e pensar.

A impossibilidade não apenas de alcançar, mas até de imaginar, um futuro diferente é uma das mensagens mais fortes desse livro. E, infelizmente, é uma realidade tão presente em nosso país:

Por que haveriam de ser sempre desgraçados, fugindo no mato como bichos? Com certeza existiam no mundo coisas extraordinárias. Podiam viver escondidos, como bichos? Fabiano respondeu que não podiam.

– O mundo é grande.

Realmente para eles era bem pequeno, mas afirmavam que era grande – e marchavam, meio confiados, meio inquietos.

E você, já se emocionou com algum livro? Conte aqui nos comentários!

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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