Sempre gostei de literatura, mas nunca tinha ido à Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Em 2016 não podia deixar passar. Afinal, este é o ano em que comecei a levar minha paixão pelos livros mais a sério. Eu e Tatá lançamos o blog, me tornei uma leitora mais atenta e estou acompanhando de perto o que acontece no universo literário.

Minhas expectativas, que não eram poucas, foram todas atendidas. A cidade, que havia visitado na minha adolescência e da qual já não me lembrava bem, conseguiu ficar ainda mais bonita com a atmosfera criada pela Flip. Não imagino lugar melhor no nosso país para sediar essa festa.

A sensação que tive quando lançamos o blog – de satisfação por encontrar tantas pessoas interessadas em literatura – me invadiu novamente nesses dias. Ouvi sotaques de todas as regiões e esbarrei com várias gerações. Nas filas para os autógrafos e para as mesas, escutei conversas e tive diálogos fortuitos com pessoas que carregavam o mesmo entusiasmo e ansiedade que eu.

Literatura no chão, em movimento, em espera, pendurada em árvores, em rodas de crianças, deitada na grama… Se vocês me perguntarem o que eu ouvi de mais interessante na Flip com certeza foi isto: o burburinho alentador de livros ganhando vida por toda parte.


Deixei aqui embaixo o que pude resgatar das minhas anotações (nem sempre legíveis! rs) de cada uma das mesas que acompanhei.

[sábado, 2 de julho, 17h15] SVETLANA ALEKSIÉVITCH 

“Temos somente homens-consumo. Daqui alguns séculos, vão dizer que éramos homens primitivos. O mundo não será salvo por esse homem racional, mas pelo homem com visão ampla, que abrange diversos sentidos.”

Svetlana Aleksiévitch
Flip 2016

Vou começar falando da autora bielorrussa, porque, das mesas que acompanhei, foi a que mais me tocou. Quando ela entrou em cena, vestindo um blazer rosa de uma singela estampa florida e com um sorriso tímido e constante, colocou a bolsa ao lado da cadeira e posicionou os fones de ouvido para acompanhar a tradução simultânea, eu não consegui imaginar aquela mulher serena nas experiências intensas que havia lido em Vozes de Tchernóbil.

Bastou ela começar a falar para eu mudar de ideia. À medida que avançava, percebi que aquela serenidade não era antagônica à intensidade do que ela tinha vivido. Pelo contrário, era necessária. Não seria possível encarar todas aquelas realidades e histórias de outra forma.

Aleksiévitch contou que, durante uma conversa para o livro A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, a entrevistada, após confessar um detalhe íntimo de sua vida, lhe disse: “Como revelei isso para você? Nunca contei isso a ninguém! Acho que é porque você tem um olhar bondoso”. Segundo a escritora, é preciso ser ingênuo para conquistar a confiança das pessoas. “Eu sempre valorizo a entonação de amizade. Chego como ser humano. Não faço entrevista. É uma conversa sobre a vida. Você tem que buscar um ser humano dentro do ser humano e não pode jamais perder essas qualidades dentro de si.” Aleksiévitch grava todos os depoimentos, pois acredita que nas anotações em papel, perde-se a personalidade de quem fala.

Sobre o papel do jornalismo em seu trabalho, a escritora disse que em certo momento enxergou a profissão como uma limitação. “É difícil achar esse tipo de conversa como jornalista. O jornalismo transmite informações banais, supérfluas. Não era isso que eu buscava.” Na hora me veio à cabeça uma frase de Marcel Proust, no primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido: “O que censuro aos jornais é fazer-nos prestar atenção todos os dias a coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais”.

Quanto ao processo de edição, Aleksiévitch considera que o grande desafio é definir as linhas principais de todas as peças que ela reúne. “São dois lados: tudo que foi dito e a minha visão. Procuro sempre compor uma experiência diversa: idades diversas, profissões diversas, contextos diversos.”

Outro ponto interessante foi quando Aleksiévitch falou sobre a relação do homem com a natureza. Ela relatou sua viagem ao Japão e a visita que fez aos reatores, algum tempo antes do acidente em Fukushima. Os cientistas japoneses diziam que o que havia acontecido em Tchernóbil não se repetiria, porque eles haviam calculado tudo certo, os russos é que não sabiam construir uma usina. E Fukushima aconteceu. “A humanidade tomou um lugar errado na natureza. É muita ingenuidade usar a força contra a natureza. O mundo precisa de uma filosofia de vida nova. Esse progresso levará à nossa autodestruição”, disse Aleksiévitch.

E qual o papel da literatura nesse futuro nebuloso? A escritora é bem realista. “Não sei se a literatura pode atender a todas as expectativas que colocamos nela. Mas acredito que ela tem que ser mais simples.”

Não há como negar que Aleksiévitch tem contribuído para isso. E por simplicidade não quero dizer banalidade, pelo contrário. A escritora aborda temas importantes de maneira democrática, tanto para quem é ouvido quanto para quem lê suas obras. Essa é a simplicidade que a literatura tem que buscar. E isso não significa renegar o clássico. Svetlana e Dostoiévski podem conviver. Aliás, convivem. A autora o citou por diversas vezes em sua palestra.

O Prêmio Nobel, que ela merecidamente ganhou, marcou o reconhecimento de um novo formato. A confirmação alentadora de que a literatura está mais viva do que nunca e evoluindo. Tão estimulante quanto essa conclusão são as cenas de um auditório e telão lotados para escutar a autora e de uma fila para autógrafos que durou mais de duas horas. Aleksiévitch assinou cada livro com o cuidado e a serenidade de quem não perde a humildade, mesmo diante de todas as evidências de sua importância para a História.

aleksievitch_b


[sexta-feira, 1º de julho, 17h15] KARL OVE KNAUSGÅRD

“It wasn’t about publishing. It was about writing. When you write, you’re by yourself, you’re completely free. You reach a state of freedom.”

Karl Ove Knausgård
Flip 2016

Além do breve trecho de Uma Temporada no Escuro que foi publicado na revista piauí de junho, cheguei à mesa do escritor norueguês Karl Ove Knausgård sem nunca ter lido nada dele. Sua série Minha Luta, composta por seis volumes, já começou a ganhar espaço na minha prateleira, mas não ainda na minha lista de leituras a curto prazo. Quero ter o fôlego para terminar sua série sem me estender muito. São mais de três mil páginas, de uma história que parece intensa.

Na Noruega, sua obra foi um fenômeno. Em um país com cerca de 5 milhões de habitantes, Knausgård vendeu 700 mil cópias. 1 em cada 10 noruegueses tinha seu livro.

O tema principal do escritor é a busca pela identidade. “Se você reconhece o que escreve, provavelmente não está bom. Tem que escrever coisas que você não reconhece. O autoconhecimento é o que estimula.”

Romance ou memórias? Essa é uma das grandes polêmicas em torno da obra de Knausgård. Para ele, romance. “Não daria para escrever 100% sobre minha vida, ela é entediante. Nossas vidas, pensamentos e experiências são tão ricas e o dia a dia os reduz. Podemos explorar muito mais em um romance.”

Essa iniciativa teve um custo, ainda mais na Noruega, que não é um país que tem a cultura da confissão. O mediador da mesa, o jornalista Ángel Gurría-Quintana, lembrou uma ótima frase que ouviu do escritor americano Jonathan Franzen em outra edição da Flip: “You cannot be an artist interested in truth and be a good person”. Knausgård concordou. “A literatura desempenha um papel. Mesmo que esteja trabalhando em uma ficção, você escreve sobre pessoas. Tira alguma coisa delas e usa para o seu próprio propósito.”

Uma das consequências dessa exposição é a vergonha – outro tema bastante recorrente na obra de Knausgård. “Quando você escreve, você está por sua conta, é totalmente livre. Quando essa escrita é publicada, a questão se torna social e, com ela, vem a vergonha. Mas não há como se interessar pela identidade e não se interessar pela vergonha”.

Para Knausgård, escrever é um ato libertador, mas ao mesmo tempo exige muito. Ele contou que, no último volume da série, queria acabar logo e abandonar a literatura (decisão que, ainda bem, foi revogada!). “Senti um alívio quando escrevi a última frase! No começo, escrevia cinco páginas ao dia. Depois, dez. No final, 20.”

Um momento divertido da conversa foi quando lhe perguntaram se ele se sentia confortável com a comparação que alguns críticos haviam feito de sua obra com Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Ele foi direto. “Não! Proust é elegância. É um dos melhores livros já escritos. Minha escrita é crua e muito direta. Se temos alguma coisa em comum é só a quantidade de páginas e o foco no indivíduo”.

A relação de Knausgård com a literatura é cativante. Ele encontrou na escrita um refúgio e seus fãs sentem isso. Ele disse que, em muitos encontros com seus leitores, eles começam a desabafar suas histórias de vida. Na fila para os autógrafos, pude observar um pouco dessa comoção, a vontade de ir além da página assinada. É bem um sentimento que a Tatá descreveu em um dos seus textos aqui no Leitor no Divã – quando você termina de ler um livro e quer ser amigo do escritor. Knausgård parece criar essa proximidade. Afinal, tanta transparência não poderia ter apenas um lado ruim e polêmico. Eu mesma posso dizer que fui contagiada por essa sensação e, com certeza, o escritor norueguês já avançou algumas posições na minha lista imediata de leituras!

knausgaard_b


[sábado, 2 de julho, 12h00] DE CLARICE A ANA C.

soneto

Pergunto aqui se sou louca
Quem quem saberá dizer?
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés para amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
Quem é a loura donzela
Que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?

inconfissões – 31.10.68

Ana Cristina Cesar em Inéditos e Dispersos – Poesia/Prosa (1985)

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início se as coisas acontecem antes de acontecer?

Clarice Lispector em A Hora da Estrela

A poeta Ana Cristina César foi a autora homenageada desta edição da Flip. Confesso que meus conhecimentos sobre poesia não são amplos, mas acredito que a Flip seja também para isso – descobertas. Além do mais, como resistir a uma mesa que traz, além da ensaísta brasileira Heloisa Buarque de Hollanda, o escritor e crítico norte-americano Benjamin Moser falando sobre Clarice Lispector?

Esses dois nomes de peso na cena literária teceram uma conversa criando vários paralelos entre as escritoras. No intervalo de 1959 a 1983, as duas moraram na mesma cidade (Rio de Janeiro), foram vizinhas de bairro na Zona Sul durante a década de 70, mas nunca se conheceram. Eram donas de belezas estonteantes, morreram jovens e tiveram, cada uma a seu modo, uma experiência intensa com a literatura. Moser até citou uma frase dita certa vez por Lispector: “A vida está ótima, o que me atrapalha é escrever”.

A principal diferença entre as duas, segundo Moser e Hollanda, é que, enquanto Ana C. era performática não apenas em sua aparência (roupas, trejeitos), mas também em sua escrita, Lispector era um poço de sinceridade e transparência. “A Ana escrevia sem parar. Não conseguia falar de outro lugar que não fosse da literatura. Ela encenava uma proximidade. Quando você a lê, seja em livros ou em sua correspondência, fica a impressão de que ela está muito perto. Mas não há intimidade, é uma armadilha. E eu mesma caí nessa armadilha. Ela significava o tempo todo, não conseguia parar de significar”, explica Hollanda.

Já Moser alude à verdade que Lispector colocava em sua obra. “A escrita de Clarice ou toca ou não toca. Não adianta forçar. É uma leitura que tem que entrar pelo coração, não pela cabeça. Clarice é muito sincera. Quando lemos sua obra em ordem cronológica, percebemos que ela não aguentaria viver mais de 56 anos. A literatura que mexe com a gente é uma questão de vida e morte. Sem essa inquietação, nem Ana C., nem Clarice teriam chegado aonde chegaram na literatura”. Moser falou bastante sobre essa relação profunda, por vezes tóxica, com a arte. “Escrever fica cada vez mais obsessivo. A arte pode mesmo mexer com a vida diária, isso não é brincadeira.”

Quanto ao feminismo na escrita das duas autoras, Hollanda destaca que Ana C. viveu no período da ditadura militar, em que um dos principais pontos de oposição era a Igreja Católica, condição que privou o movimento feminista no Brasil de uma série de lutas que apareceram no exterior, principalmente as relacionadas ao corpo feminino. “Ana considerava que o feminino é da ordem da linguagem. Ela dizia ‘intimidade é feminino’”.

Hollanda também citou o verso “estou cansada de ser homem”, de Ana C., que, segundo ela, é uma expressão de negação do convencional, da estrutura de escrita que tem “começo, meio e fim”. “Se você disser que Clarice e Ana C. são feministas, muitos vão reclamar. Feminismo é xingamento hoje e, se você entende que feminismo é a luta por direitos iguais, é muito estranho perceber que as pessoas têm medo do feminismo”, disse a ensaísta brasileira. “As mulheres estão mudando, mas muitas ainda têm medo de se declarar feministas. Ao menos essas garotas da nova geração estão fazendo bonito.”

Quanto a Lispector, Moser destacou um ponto interessante, que é o fato de a escritora ser a primeira mulher a não se calar na literatura em nenhum momento, seja pelo matrimônio, pela gravidez ou qualquer outro motivo. “Clarice consegue retratar em sua obra todos os momentos da vida de uma mulher”.

Vale aqui um adendo final sobre esforço louvável e bem-sucedido de Moser para levar a obra de Lispector a todos os cantos do mundo. A brasileira já chegou a países distantes como a Coreia do Sul e Macedônia. Moser conta que, depois de abandonar os estudos da literatura chinesa e ir para o português, ele já estava quase desistindo de encontrar algo que realmente o tocasse, quando, quase no final do curso, esbarrou com A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Ele ainda nem dominava tão bem o idioma, mas o efeito da escritora brasileira sobre ele foi incontornável. Moser é o autor do famoso Clarice, uma Biografia, editado pela Cosac Naify, e responsável também pela introdução da coletânea da autora, intitulada Todos os Contos e lançada, há pouco, pela Rocco.


Bem, acho que já falei demais! Para resumir tudo em uma frase, eu diria: se você gosta de literatura, não deixe de ir à Flip algum dia.

Ah, e quem também esteve em Paraty nessa última semana, sinta-se convidado para dividir sua experiência com a gente, aqui nos comentários!

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
Mariane Domingos

Últimos posts por Mariane Domingos (exibir todos)