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[Resenha] Enquanto Os Dentes

Uma travessia de balsa até Niterói, no Rio de Janeiro, é o pano de fundo do belo romance de estreia de Carlos Eduardo Pereira, Enquanto os Dentes (Editora Todavia, 93 páginas). Nesta narrativa enxuta e ao mesmo tempo densa, acompanhamos Antônio em um momento bastante preciso: sua mudança da “antigo apartamento” de volta para a casa dos pais.

O grande trunfo do livro é sem dúvida a perspectiva adotada por Pereira. De um fôlego só, sem divisões de capítulos ou respiros entre parágrafos, acompanhamos não apenas o fluxo de pensamentos e as memórias de passagens decisivas na vida do narrador, mas também suas percepções visuais e sensoriais.

Antônio, que sofreu um acidente que o colocou em uma cadeira de rodas, enfrenta as ruas e calçadas do Rio de Janeiro, com seus inúmeros personagens e passantes: os funcionários do serviço das Barcas, excessivamente protocolares, a solicitude de um ou outro transeunte, a senhora religiosa que lhe recomenda fé.

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[Resenha] O Sol na Cabeça

Geovani Martins tem apenas 26 anos, mas seu romance de estreia, O Sol na Cabeça (Companhia das Letras, 119 páginas), teve ampla divulgação por sua editora, recebeu elogios de Chico Buarque e já teve direitos vendidos para mais de nove países. Embora poucos consigam realizar feito parecido, não é difícil entender esse magnetismo:  Martins nasceu em Bangu e foi criado no Vidigal. É filho de uma cozinheira com um jogador de futebol amador. Seu destino como escritor parecia improvável, mas é justamente a infância e a adolescência pobres do autor que formam a essência – e o apelo –  dos treze contos que compõem este livro, que partem de episódios cotidianos para expor as fraturas de uma sociedade que se divide entre morro e asfalto.

Essa primeira divisão está, muito claramente, na linguagem. As gírias, aqui, não estão entre aspas ou em itálico, como estamos tão acostumados a observar. A concordância deixa de ser perfeita. A oralidade tão literal que Martins exibe em alguns de seus contos, como Rolézim, que abre o livro, nos faz imergir na vida das favelas cariocas, a realmente escutar quem quase nunca tem voz.

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“É foda sair do beco, dividindo com canos e mais canos o espaço da escada, atravessar as valas abertas, encarar os olhares dos ratos, desviar a cabeça dos fios de energia elétrica, ver seus  amigos de infância portando armas de guerra, pra depois de quinze minutos estar de frente pra um condomínio com plantas ornamentais enfeitando o caminho das grades, e então assistir adolescentes fazendo aulas particulares de tênis. É tudo muito próximo e muito distante. E, quanto mais crescemos, maiores se tornam os muros.”

 

Geovani Martins em O Sol na Cabeça

[O Amor dos Homens Avulsos] Semana #2

Foram poucas páginas de leitura, mas já deu pra perceber que O Amor dos Homens Avulsos promete uma prosa marcante e um narrador daqueles que realmente sabem contar uma história. E você, qual foi sua primeira impressão? Para a próxima semana, avançamos até o capítulo 22, na página 44.

Por Mariane Domingos e Tainara Machado

Como acontece na maioria dos livros, o começo de O Amor dos Homens Avulsos é dedicado a ambientar o leitor no espaço e no tempo. Victor Heringer não dispensa essa fórmula, mas dá um toque de originalidade à narrativa logo na primeira página, com um “informe meteorológico”:

A temperatura deste romance está sempre acima dos 31ºC.
Umidade relativa do ar: jamais abaixo dos 59%.
Ventos: nunca ultrapassam os 6km/h, em nenhuma direção.

O mar está muito longe deste livro.

Todas essas descrições correspondem perfeitamente às condições climáticas do cenário principal do romance: o bairro do Queím, um subúrbio carioca. Mas basta conhecer um pouco os personagens para perceber que esse informe irá bem além de uma abordagem geográfica.

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Notas sobre a Flip 2016

Sempre gostei de literatura, mas nunca tinha ido à Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Em 2016 não podia deixar passar. Afinal, este é o ano em que comecei a levar minha paixão pelos livros mais a sério. Eu e Tatá lançamos o blog, me tornei uma leitora mais atenta e estou acompanhando de perto o que acontece no universo literário.

Minhas expectativas, que não eram poucas, foram todas atendidas. A cidade, que havia visitado na minha adolescência e da qual já não me lembrava bem, conseguiu ficar ainda mais bonita com a atmosfera criada pela Flip. Não imagino lugar melhor no nosso país para sediar essa festa.

A sensação que tive quando lançamos o blog – de satisfação por encontrar tantas pessoas interessadas em literatura – me invadiu novamente nesses dias. Ouvi sotaques de todas as regiões e esbarrei com várias gerações. Nas filas para os autógrafos e para as mesas, escutei conversas e tive diálogos fortuitos com pessoas que carregavam o mesmo entusiasmo e ansiedade que eu.

Literatura no chão, em movimento, em espera, pendurada em árvores, em rodas de crianças, deitada na grama… Se vocês me perguntarem o que eu ouvi de mais interessante na Flip com certeza foi isto: o burburinho alentador de livros ganhando vida por toda parte.


Deixei aqui embaixo o que pude resgatar das minhas anotações (nem sempre legíveis! rs) de cada uma das mesas que acompanhei.

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