[Resenha] O Sol na Cabeça

Geovani Martins tem apenas 26 anos, mas seu romance de estreia, O Sol na Cabeça (Companhia das Letras, 119 páginas), teve ampla divulgação por sua editora, recebeu elogios de Chico Buarque e já teve direitos vendidos para mais de nove países. Embora poucos consigam realizar feito parecido, não é difícil entender esse magnetismo:  Martins nasceu em Bangu e foi criado no Vidigal. É filho de uma cozinheira com um jogador de futebol amador. Seu destino como escritor parecia improvável, mas é justamente a infância e a adolescência pobres do autor que formam a essência – e o apelo –  dos treze contos que compõem este livro, que partem de episódios cotidianos para expor as fraturas de uma sociedade que se divide entre morro e asfalto.

Essa primeira divisão está, muito claramente, na linguagem. As gírias, aqui, não estão entre aspas ou em itálico, como estamos tão acostumados a observar. A concordância deixa de ser perfeita. A oralidade tão literal que Martins exibe em alguns de seus contos, como Rolézim, que abre o livro, nos faz imergir na vida das favelas cariocas, a realmente escutar quem quase nunca tem voz.

Teco é maluco. Até parece que ia conseguir dormir com aquela lua. Geral falou que na praia ele ia ficar tranquilão, só palmeando as novinha, dando uns mergulho pra refrescar a carcaça. Quando chegasse em casa, ia tá morgadão, dormir que nem criança. Ele disse que deixava um baseado com nós, mas que ia marcar em casa mermo. Sorte foi que o Vitim conseguiu instigar ele a dar um belengo pra ficar na atividade.

Neste conto, Martins mostra uma turma de amigos que decide curtir o dia de sol na praia, no período em que a polícia reforçou o policiamento na orla carioca contra arrastões. Depois de banhos de mar e a eterna procura por maconha e seda, o narrador precisa voltar para casa, mas esbarra em um problema: perto da estação de metrô, os policiais estão levando para a delegacia todos os garotos que não estão com identidade.

A arbitrariedade da violência e das pré-condenações não vem, é claro, só do poder policial, embora essa seja uma constante. Em Espiral, talvez o melhor conto do livro, quem desperta a violência é o medo, provocado pelo abismo que marca a fronteira entre morro e asfalto, como escreve o próprio autor, em uma das passagens mais fortes de O Sol na Cabeça:

É foda sair do beco, dividindo com canos e mais canos o espaço da escada, atravessar as valas abertas, encarar os olhares dos ratos, desviar a cabeça dos fios de energia elétrica, ver seus  amigos de infância portando armas de guerra, pra depois de quinze minutos estar de frente pra um condomínio com plantas ornamentais enfeitando o caminho das grades, e então assistir adolescentes fazendo aulas particulares de tênis. É tudo muito próximo e muito distante. E, quanto mais crescemos, maiores se tornam os muros.

Nesse abismo social, o narrador acaba decidindo ser protagonista do temor que desperta involuntariamente nos vizinhos da Zona Sul, com pequenas perseguições, que vão tomando proporções cada vez mais inacreditáveis, em uma espiral alimentada pela violência e pelo preconceito. A descrição do sentimento de humilhação que o narrador enfrenta ao tomar sustos e perceber que a ameaça percebida é ele é uma das passagens que mostra porque Martins de fato merece a alcunha de promessa da literatura brasileira. 

Ao longo de seu livro de estreia, é quase impossível não se sentir o outro, o do comportamento absurdo, dominado por um medo quase sem sentido, que contamina as relações. Mais do que nos identificar com os personagens ali retratados, nos vemos de forma constrangida como o “playboy” na praia que procura esconder mochila e celular, que mora no condomínio decorado por plantas ornamentais, que acredita que é um problema sério quando a empregada falta.

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Nem todos os contos do livro, contudo, têm a força desses dois primeiros. Alguns são inexpressivos, como O Caso da Borboleta, em outros falta amadurecimento da narrativa, como Primeiro Dia. Alguns, como Travessia e Sextou, repetem o êxito dos dois primeiros, ao explorarem a realidade do absurdo que é o Rio de Janeiro, mas não deixam de ter como pano de fundo os clichês de sempre sobre a cidade – a violência onipresente, a polícia ineficiente e corrupta, a pobreza e a falta de perspectivas.

O livro também expõem o fracasso da guerra às drogas. A maconha está por todos os lados. Para onde se olha, alguém está buscando um “salve”, uma ponta ou o dinheiro que garanta a droga do dia seguinte. Vale até cruzar todo o Rio de Janeiro atrás de maconha de melhor qualidade, como em Sextou. A única droga proibida, por sua nocividade, é o crack. As definições de “tranquilo” em relação às drogas é inusitada, como neste trecho da A Viagem:

Gabriel nunca cheirou cocaína, é um moleque tranquilo em relação às drogas, além de maconha só usa doce e lança-perfume (em ocasiões especiais).  

Tentar conter o consumo via repressão policial, já vimos, falhou, uma realidade mostrada de forma ainda mais evidente em O Dono do Morro, do jornalista inglês Misha Glenny. Como contei aqui, esses foram os dois livros selecionados para abril em um clube de leitura do qual participo. O livro-reportagem sobre a vida de Nem, que comandou a Rocinha durante mais de cinco anos, dá um panorama bastante relevante da vida nas favelas cariocas da zona sul, com a rotina das famílias que vivem ali, suas regras, a estrutura de comando do tráfico. Por isso, embora os pontos de vista, abordagens e estilo sejam completamente diferentes, vale ler primeiro O Dono do  Morro, depois O Sol na Cabeça.

Esperamos que aproveitem a leitura!

*Esta resenha foi originalmente publicada no dia 2 de maio de 2018

 

Tainara Machado

Tainara Machado

Acredita que a paz interior só pode ser alcançada depois do café da manhã, é refém de livros de capa bonita e não pode ter nas mãos cardápios traduzidos. Formou-se em jornalismo na ECA-USP.
Tainara Machado

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1 Comentário

  1. Nossa! Vou ler com certeza O Dono do Morro, e deixar esse na lista.
    Gostei bastante da resenha, que fala dos contos sem entregar muito da história.

    xero

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