No último mês, o autor inglês Ian McEwan completou 70 anos. Para comemorar a data, a Companhia das Letras publicou, em edições primorosas, duas obras inéditas do autor.

Meu Livro Violeta (Companhia das Letras, 125 páginas) é uma dessas publicações. Ela reúne duas breves histórias que comprovam que o talento do britânico cabe tanto em narrativas curtas quanto longas. Para quem já conhece a escrita de McEwan, é leitura para aumentar a admiração pela versatilidade do autor. Quem ainda não teve contato com sua literatura, é uma ótima oportunidade para engatar os romances mais famosos, como Reparação e Enclausurado.

O primeiro conto, que intitula o livro, foi originalmente publicado na seção de ficção da revista The New Yorker, em 2016 (nesse post, há inclusive o áudio do autor lendo a história). A narrativa, conduzida em primeira pessoa pelo personagem Parker Sparrow, revela duas grandes marcas da escrita de McEwan: a ironia e o humor negro, tipicamente britânicos.

Logo no início, o narrador avisa que seu relato se trata de uma espécie de confissão de um crime, do qual, ao que parece, ele não se orgulha, tampouco se arrepende:

Não nego que houve desonestidade. Roubei uma vida e não tenciono devolvê-la. Você pode tratar as poucas páginas que se seguem como uma confissão.

Na sequência, a história volta no tempo para contar como Sparrow e Jocelyn Tarbet se conheceram, ainda na faculdade. Egressos da mesma escola e do mesmo meio, com as mesmas ambições literárias, os amigos tinham tudo para seguir carreiras parecidas. Sparrow até sai na frente, conseguindo publicar, primeiro que o colega, em veículos mais relevantes. No entanto, seus destinos começam a se afastar quando ele decide construir uma família e as obrigações da vida adulta se sobrepõem aos sonhos literários. Enquanto isso, Tarbet vê sua carreira de escritor decolar. Ele conquista tudo: fama, dinheiro e glamour.

Apesar da distância entre seus destinos, os dois amigos mantêm contato. O incômodo, que, a princípio, não existia, aparece quando Sparrow começa a comparar sua vida com a do amigo.

Chegamos assim aos cinquenta anos, com mais de meia vida já vivida. Jocelyn era um patrimônio nacional e eu – bem, era errado pensar em termos de fracasso. Todos os meus filhos tinham cursado ou cursavam universidades; eu ainda jogava um tênis decente; meu casamento, após algumas rachaduras, rangidos e duas crises explosivas, se mantinha de pé; e corria o boato de que eu seria nomeado professor titular durante aquele ano. Além disso, estava escrevendo meu quinto romance – mas essa parte não vinha correndo muito bem.

A inveja e a ambição estão no centro desse enredo. Com um texto inteligente e um narrador sarcástico, McEwan evidencia as fraquezas humanas e faz uma crítica bem-humorada, sobretudo, às vaidades tão presentes no meio literário.

A segunda história da coletânea, Por Você, segue a mesma linha ao trazer personagens que vão aos extremos sem se importar em prejudicar o outro para alcançar seus desejos. Um marido mulherengo, uma esposa doente e fiel, apesar de um amor secreto pelo médico, e uma empregada com uma paixão obsessiva: uma combinação para um drama de primeira qualidade.

O mais interessante dessa leitura é ver uma faceta não muito conhecida de McEwan, já que o texto não é um conto, nem um romance ou uma poesia, mas sim um libreto escrito para uma ópera de Michael Berkeley, cuja estreia aconteceu em 2008.

Durante toda a leitura, fiquei imaginando a escrita de McEwan extravasando as páginas do livro para se encontrar com a música e se submeter ao ritmo. É impressionante como a obrigação desse encontro em nada onera a beleza e a precisão do seu texto:

Coisas demais para dizer.

ANTONIA Sim. Coisas demais para dizer.

SIMON Impossíveis de dizer.

ANTONIA Impossíveis. E desnecessárias.

SIMON Porque você sabe.

ANTONIA Nós sabemos.

SIMON Só o silêncio.

ANTONIA O silêncio dirá tudo.

Meu Livro Violeta é uma grata surpresa para fãs de McEwan e um ótimo começo para quem não o conhece. É um daqueles livros de leitura muito rápida, ideal para momentos de bloqueio literário, quando faltam concentração e envolvimento com os livros. Em pouco mais de meia hora, garanto que você irá se reconciliar com a literatura.

Meu Livro Violeta

Companhia das Letras
R$ 39,11 (capa dura)
125 páginas

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Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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