Impossível ficar indiferente ao título deste livro da russa Liudmila Petruchévskaia: Era Uma Vez uma Mulher que Tentou Matar o Bebê da Vizinha. A cena sombria que ele anuncia e os ares de fábula contidos no “era uma vez” são uma ótima introdução à coletânea de contos dessa autora, que foi censurada na época do regime soviético. Hoje, Petruchévskaia é uma das escritoras e dramaturgas mais reconhecidas do seu país e chega, pela primeira vez, muito bem recomendada, às livrarias brasileiras, com essa edição da Companhia das Letras.

Sua escrita bebe na fonte fantasiosa dos contos de fadas na mesma medida em que lança um olhar afiado sobre a sociedade. Assim, Petruchévskaia se destaca por criar situações e personagens mágicos a partir de problemas reais, como a guerra, a fome, o inverno desolador, a solidão e tudo aquilo que desperta a escuridão da alma humana:

… existe um lado da vida secreto, animal, que floresce teimosamente, e é nele que se concentram as coisas detestáveis e hediondas;

Os contos dessa coletânea são habitados por fantasmas, viúvas e órfãos, uma crítica contundente aos horrores de uma nação que está sempre em combate. Mesmo depois da morte, vítimas e familiares não conseguem encontrar a paz. Em Um Caso em Sokólniki, por exemplo, um soldado morto reaparece para sua esposa para pedir um enterro digno, pois seus restos espalhadas e esquecidos não o permitem descansar.

A ausência é outro tema que perpassa a obra de Petruchévskaia. Se a morte ronda os soldados, a solidão assombra os que ficam à sua espera. Por meio de histórias fantasiosas, a escritora levanta um problema bastante real: o que será dessa geração de órfãos e viúvas?

Agora é uma mulher adulta, alta, casada, mas não passava de uma orfãzinha que morava com a vovó. A avó a trouxera para a casa quando a mãe desaparecera, essas coisas acontecem: a pessoa desaparece. O pai havia desaparecido antes, quando a menina tinha cinco anos. Não a levaram para o enterro, então ela pensava: ele sumiu, e tinha medo de que acontecesse o mesmo com a mãe.

A escrita de Petruchévskaia é muito próxima à tradição oral. Vocabulário simples, frases curtas, ações bem encadeadas – parece mesmo que estamos sentados em torno de uma fogueira ouvindo uma boa contadora de histórias.

Apesar de essa fórmula ser antiga e bastante universal, é interessante como Petruchévskaia consegue dar cores locais à sua narrativa. Embora quase não haja localizações geográficas ou mesmo menções a contextos políticos e econômicos, é possível vislumbrar o povo soviético em cada narrativa.

Não faz muito tempo que terminei a leitura de O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksiévitch, e não pude evitar um paralelo entre o retrato que a Nobel de Literatura fez do seu povo e os personagens de Petruchévskaia, que, em sua maioria, são cercados pela tragédia. Todos me lembraram este trecho do livro de Aleksiévitch:

“Nós falamos o tempo todo sobre o sofrimento… Esse é o nosso caminho do conhecimento. Achamos os ocidentais ingênuos porque eles não sofrem como nós, para qualquer brotoeja eles têm um remédio. Em compensação, nós passamos pelos campos de trabalhos forçados, enchemos a terra de cadáveres durante a guerra, recolhemos com as mãos nuas o combustível nuclear de Tchernóbil… E agora estamos sobre os escombros do socialismo. Como depois da guerra. Somos tão calejados, tão surrados. Temos a nossa própria língua… A língua do sofrimento…”

Para quem, como eu, está acostumado a obras russas que exacerbam realismo, ter contato com a obra de Petruchévskaia é conhecer outra faceta, igualmente sofisticada, da literatura russa. Enquanto vários de seus compatriotas famosos, como Dostoiévski, Tolstói e a própria Aleksiévitch, se consagraram por retratar o sofrimento de um povo mergulhando em sua realidade nua e crua, Petruchévskaia lança mão da fantasia. Nem por isso sua obra é menos pungente. Assim como Aleksiévitch, ela é capaz de nos assustar e comover, sem, no entanto, nos negar a esperança de uma existência em que ainda predomina o amor.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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