Indicação da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie para o kit da Tag Livros de outubro do ano passado, As Alegrias da Maternidade (Tag Livros, 320 páginas), de sua compatriota Buchi Emecheta, é um romance que faz o leitor perder o fôlego a cada página. Sua narrativa é envolvente não só capítulo a capítulo mas também no todo, já que a escritora costura, com habilidade, episódios cotidianos de personagens fortes a temas áridos como gênero e raça.

Nnu Ego, proganista da história, é filha da paixão entre Agbadi, grande caçador e chefe de um tribo igbo na região de Ibuza, e sua amante Ona, jovem cujo caráter voluntarioso não se adequava aos padrões esperados de uma mulher naquele contexto.

Diferente da mãe, que não queria constituir família, apenas encontrar um homem que a engravidasse de um filho homem para que ela entregasse ao pai e garantisse a continuidade de sua linhagem, Nnu Ego esperava encontrar no casamento e na maternidade sua plenitude. Para ela, não havia outro caminho para uma vida bem-sucedida.

Em seu primeiro matrimônio, já começam as desilusões. Ela se casa com um jovem que era quase um espelho de seu pai – viril, belo, corajoso e líder. A demora para engravidar leva o marido a procurar uma segunda esposa e, quando esta logo lhe dá o que ele tanto procurava, Nnu Ego é marginalizada sob a insígnia de mulher estéril e incapaz de cumprir suas obrigações.

Esse destino é atribuído à maldição de sua chi – uma espécie de espírito que, segundo a crença igbo, guia um indivíduo até a sua morte. A chi de Nnu Ego era uma escrava que, seguindo as tradições de acompanhar sua ama até a eternidade, como uma posse a mais no túmulo, fora assassinada assim que sua senhora, a primeira esposa de Agbadi, morrera. Nesse dia, ela jurara retornar à casa do grande chefe e o fez por meio de Nnu Ego.

Sem condições de continuar no seio da família do marido, que a desprezava, Nnu Ego parte para um segundo casamento. Com tudo arranjado por seu pai, ela se muda para Lagos, para desposar o irmão mais novo de um chefe de Ibuza. Não tarda muito para que seu grande desejo se torne realidade.

Mesmo sem suportar o marido Nnaife, já bastante aculturado aos modos britânicos e em nada semelhante aos homens que ela tinha como referência em Ibuza, Nnu Ego se torna mãe de um menino. Ela não poderia imaginar que as turbulências de sua vida estavam apenas começando.

Na obra de Emecheta, além de um enredo envolvente com personagens fortes, cabe ainda um retrato bastante crítico da sociedade colonial da Nigéria, com destaque para os choques entre um interior rural extremamente apegado às suas tradições e um centro mais urbano, como Lagos, em que o sentimento de ser propriedade dos britânicos era tão preponderante que fazia com que mesmo pessoas como Nnaife e Nnu Ego, educadas segundo regras e crenças locais, se curvassem diante de uma nova cultura, revelando um dos efeito mais nocivos da colonização – a perda de identidade de um povo:

Se alguém tivesse lhe dito que ele tampouco pronunciava direito o nome Meers, que aos ouvidos dos seus empregadores tinha um som parecido a “Miiaass”, ele teria dito: “Mas eu não passo de um negro e não tenho a pretensão de saber tudo”. Era um dos africanos que, naquela época, haviam ficado tão habituados a ouvir que eram burros que começaram a acreditar nas próprias imperfeições.

A essência do romance de Emecheta, no entanto, não está nessa visão crítica sobre o colonialismo, mas sim na eloquência com que ela expõe, a partir de Nnu Ego e de outras personagens femininas da história, a condição vulnerável da mulher na sociedade nigeriana, seja ela na Ibuza rural ou na Lagos colonial.

Em qualquer parte, a mulher era diminuída. Sua existência estava sempre a serviço de alguém. Não havia a possibilidade de alcançar a plenitude sem um homem, fosse ele um marido ou um filho.

Os homens… a única coisa em que estavam interessados era em bebês homens para dar continuidade a seu nome. Mas por acaso uma mulher não precisava trazer ao mundo a mulher-bebê que mais tarde geraria os filhos? “Deus, quando você irá criar uma mulher que se sinta satisfeita com sua própria pessoa, um ser humano pleno, não o apêndice de alguém?”, orava ela em desespero.

A despeito dessa suposta dependência, o fato é que Nnu Ego demonstra, nas várias ocasiões em que se vê abandonada à própria sorte, uma força descomunal para tomar as rédeas de sua vida e assumir sozinha, ou apoiada por uma rede de mulheres, a educação e o sustento dos filhos, que só interessavam ao pai nos bons momentos. Quando algo saía errado, a prole era apenas de Nnu Ego:

Estava ficando farta daquele comportamento de dois pesos, duas medidas. Quando as crianças se comportavam, pertenciam ao pai; quando não, eram da mãe. 

A heroína descobre, da pior maneira, na prática, a frustração de uma vida cujo sentido está em outrem. O título da obra, As Alegrias da Maternidade, impõe-se, à medida que a narrativa avança, como uma ironia que atinge seu clímax em um desfecho inteligente e carregado de significados.

Este romance tem muito da experiência da autora, que nasceu na década de 40 na Nigéria e teve uma vida marcada pela inferiorização da mulher. Embora desejasse estudar, casou-se cedo, mudou-se para Londres e, em pouco tempo, se viu abandonada pelo marido abusivo em uma terra estranha com cinco filhos sob sua responsabilidade. Contrariou todas as expectativas, concluiu uma universidade, foi viver nos Estados Unidos e produziu mais de vinte livros. Entre eles, As Alegrias da Maternidade, escrito na mesma época em que uma de suas filhas decide abandoná-la para morar com o pai. Emecheta morreu no começo deste ano deixando um legado para a literatura feminina.

A história de Nnu Ego se passa na Nigéria nos anos 30, mas poderia se passar em tantos outros lugares e épocas. Daí a importância de manter vivas leituras como essa que chocam na mesma medida em que despertam identificação, pois, embora lembrem o quanto já evoluímos, também ressaltam o quanto ainda há por conquistar na questão de gênero. Afinal, nem todos os desafios que Nnu Ego enfrentou estão tão longes assim de nossa realidade.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
Mariane Domingos

Últimos posts por Mariane Domingos (exibir todos)