A leitura de Quarenta Dias é como um abraço amigo. A ternura do texto de Maria Valéria Rezende incorpora aquilo que tanto procuramos na literatura: identificação.

Alice, personagem central do romance, é uma professora aposentada, que sai da Paraíba e se muda para o Rio Grande do Sul por pressão da filha. Aparentemente, nenhuma similaridade entre mim e Alice. No entanto, poucos personagens me inspiraram tamanha empatia.

O tom confessional da narrativa é propício para esse sentimento. Em um caderno velho, com a Barbie na capa, Alice despeja suas memórias, especialmente as mais recentes, desde sua mudança a contragosto para o sul.

Alice criou a filha sozinha depois que o marido desapareceu – ao que tudo indica, vítima da violência da ditadura. Não foram poucos os sacrifícios de mãe, mas o maior deles ainda estava por vir. Norinha casou-se com um gaúcho e se fixou em Porto Alegre. Quando decide engravidar, não o faz sem antes comunicar Alice e propor, em tom mais de exigência que de pedido, que a mãe se mude para o sul para ajudá-la com a criação do neto.

A princípio, a professora nega veementemente a proposta. Mesmo que a filha não enxergasse nenhum valor na rotina da mãe e se achasse no direito de dar novos sentidos à sua existência, Alice sabia que seu lugar era na Paraíba e que sua vida não havia acabado simplesmente porque ela estava aposentada e vivendo sozinha.

Depois de muita chantagem emocional e joguinhos psicológicos, a mãe aceita abdicar de sua independência e se submeter aos caprichos da filha. As metáforas a partir do descaso com os pertences de Alice durante a mudança expressam perfeitamente a perda gradual de identidade da personagem:

A almofada também foi. Fiquei eu, de pé, no meio da sala do apartamento vazio, sentindo-me também oca como se o aspirador de pó, que Elizete brandia pela casa agora vaga, tivesse chupado meu recheio para fora e a querida prima fosse vender minhas tripas na garagem dela, junto com o resto das bugigangas.

Na nova casa, o estranhamento só aumenta. Como era de se esperar, o repentino cuidado exagerado da filha dura pouco e não demora muito para que Alice passe dias sem receber uma visita. Norinha tinha seus assuntos e uma vida para gerenciar, ao contrário da mãe cuja única perspectiva, ela supunha, era a espera tranquila pelo fim.

Alice soma, aos desgostos diários do exílio, o arrependimento por ter se colocado naquela situação, e explode quando a filha toma mais uma decisão egoísta e incoerente. Começa, então, a saga dos quarenta dias que dá título ao livro e que é o tema predominante no diário improvisado da personagem.

Para preencher o vazio que a invadiu, Alice arruma uma missão: encontrar o filho de uma conhecida da Paraíba que está angustiada pela falta de notícias há mais de um ano. Sob esse pretexto, a professora abandona o apartamento que nunca ousou chamar de lar e se arrisca em uma busca frenética e sem rumo por uma terra desconhecida:

Eu nem percebi, naquele dia, quando saí de casa atrás de um quase imaginário, um vago Cícero Araújo, que estava, na verdade, correndo atrás de um coelho branco de olhos vermelhos, colete e relógio, que ia me levar pra um buraco, outro mundo. Também, que importância tinha? Acho que eu teria ido de qualquer jeito, só pra cair em algum mundo, sair daquele estado de suspensão da minha vida num entremundo, sem nem por um momento me perguntar como nem pra onde havia de voltar.

Rezende faz vários paralelos interessantes, como o desse trecho, com a emblemática personagem de Lewis Carroll, que também se aventurou em um “país das maravilhas” (era assim que os amigos paraibanos da professora imaginavam o sul do país) para descobrir que não é só de perfeição que esse reino é feito.

Nas andanças de Alice, Rezende desenha um retrato familiar a nós brasileiros, mas que frequentemente camuflamos, para convivermos em paz com nosso conforto. A professora torna-se uma verdadeira andarilha e sente na pele a linha que divide o país em centro e periferia. Antes disso, aliás, Alice já havia notado essa divisão na hostilidade dos gaúchos em relação ao sotaque que denunciava sua origem. Paraíba (e o nordeste em geral), descobriu ela, era a periferia de um país que tinha o sul e o sudeste como centro. Em Porto Alegre, chamavam-na de “brasileirinha”, assim mesmo no diminutivo e designando alguém de uma nação distante, como se os gaúchos não fossem também brasileiros.

Em suas incursões pelas vilas (favelas), Alice encontra seus conterrâneos – todos escondidos em buracos distantes da Porto Alegre desenvolvida e central que enchia os olhos dos seus amigos nordestinos. Ali, o sotaque, a comida, o palavreado e as histórias eram familiares. Pela primeira vez, mesmo sem ter um teto, a professora se sentia em casa naquela cidade.

Alice faz todo esse relato à sua fiel companheira, a Barbie. Ela cria uma espécie de amizade com a boneca da capa do caderno e ganha a intimidade necessária para facilitar suas confissões. O fato é que a professora escreve para ela mesma, para colocar em ordem lembranças que lhe parecem incompreensíveis. Afinal, o que foram aqueles quarenta dias?

Com sua história particular e suas individualidades, Alice é um pouco de todos nós. Literalmente, ela faz o que tantas vezes fazemos metaforicamente: vagamos sem rumo, sob o pretexto de encontrar algo ou alguém, quando o que buscamos, em realidade, é nossa própria identidade.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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