[Resenha] O Conto da Aia

Imagine um mundo no qual as mulheres são divididas em categorias, não podem mais ler nem escrever sob pena de ter a mão cortada, e no qual o amor e a paixão são crimes contra o objetivo primordial do Estado: a reprodução. Foi esse futuro distópico que a canadense Margaret Atwood descreveu em O Conto da Aia, o clássico lançado em 1985 que acumula milhões de exemplares vendidos nos últimos 30 anos, além de ter sido traduzido para mais de 40 idiomas. Em junho, O Conto da Aia ganha nova edição no Brasil, pela Rocco.

Poucas vezes se falou tanto de um livro lançado há mais de três décadas. O influente clube do livro de Emma Watson, com fóruns de discussão no Goodreads e em perfis do Instagram,  por exemplo, escolheu O Conto da Aia como leitura para o mês de maio, o que só fez aumentar o debate em torno do título.

É claro que a série televisiva, uma produção americana resultado da parceria entre as emissoras MGM e Hulu, contribuiu para o fenômeno, mas o que parece ter levado as atenções a se voltar para esse romance é mesmo a ascensão da extrema-direita nos Estados Unidos, cujo símbolo maior foi a eleição de Donald Trump para a presidência no fim do ano passado.

Difícil não enxergar ecos da situação corrente do mundo no livro de Atwood. Ele não só continua extremamente atual, como parece, na verdade, ter antevisto muitas das preocupações mais marcantes da humanidade no início deste século XXI. Os efeitos desastrosos da contaminação do meio ambiente, por exemplo, impossibilitam a pesca e submetem a população a um estado de racionamento permanente. Acidentes nucleares levaram à criação das Colônias, uma combinação de lixões radioativos com campos de trabalho forçado para os quais os renegados pelo regime são enviados, numa viagem sem volta. O ambiente tóxico também reduziu drasticamente a taxa de fertilidade da população.

O que é mais sombrio no livro de Atwood, contudo, é o modelo de sociedade que emerge de uma civilização afundada em um mal estar coletivo e generalizado. A partir de um golpe de Estado extremamente bem arquitetado – com a ajuda da tecnologia e da crescente automação  de sistemas e meios de produção – os homens tomaram o controle e instituíram uma espécie de ditadura religiosa e patriarcal que se sustenta com base na necessidade de aumentar a taxa de fertilidade na República de Gilead, os Estados Unidos “na época de antes”, como relembra a narradora.

Em Gilead, os códigos de controle são muitos. A linguagem é um instrumento de poder claro, como fica evidente pela proibição da leitura e escrita pelas mulheres e interdições no vocabulário, com o abandono das fórmulas mais flexíveis e íntimas de relacionamento.

O controle, contudo, vai bem mais longe e alcança dos códigos de conduta às vestimentas: tudo, em Gilead, é  um símbolo.  As mulheres oficias dos Comandantes se vestem apenas de azul; as Aias, “ventres ambulantes”, portam apenas roupas vermelhas e pesadas, largas, com grandes chapéus brancos que mal lhes permitem enxergar o mundo exterior; e as governantas, que cuidam dos afazeres domésticos, se vestem apenas de verde. Nas famílias mais pobres, as mulheres usam roupas listradas nessas três cores, já que representam as três tarefas ao mesmo tempo.

A narradora é uma Aia e vive à beira do desespero, entre as lembranças do mundo anterior, no qual tinha um  marido e uma filha, e as memórias da Casa Vermelha, o centro de “aprendizado” no qual as mulheres passam por uma lavagem cerebral para assumir seu novo papel. Não sabemos seu nome verdadeiro, a conhecemos apenas como Offred, um patronímico que por si só já estabelece a relação de poder em Gilead: ela é uma propriedade de seu Comandante (do inglês, of Fred, de Fred).

Difícil ficar imune à leitura e à visão de um mundo no qual o papel das mulheres é puramente biológico. Há certo debate, do meu ponto de vista inócuo, se esse seria ou não um livro feminista. A própria Margaret Atwood coloca a questão nesses termos:

O Conto da Aia é um romance feminista? Se isso significa um campo ideológico em que todas as mulheres são anjos e/ou tão vitimizadas que são incapazes de escolhas morais, então não. Se isso significa um romance no qual as mulheres são seres humanos – com toda a variedade de caráter e comportamento que isso implica – e também são interessantes, e importantes, e o que acontece com elas é crucial para o tema, a estrutura e a trama do livro, então sim. Neste sentido, muitos livros são feministas.

Ao colocar o direito das mulheres como a principal liberdade cerceada em Gilead, O Conto da Aia não parece gastar muito tempo com essa dúvida. O tempo todo, o que presenciamos nessa leitura, com um sentimento de apreensão que só se avoluma, é um modelo de sociedade patriarcal tão retrógrado quanto inaceitável. O primeiro passo, nesse golpe, foi o fim das casas de prostituição. Mas, como no poema de Maiákovski, num primeiro momento ninguém se importou, lembra a narradora:

Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortos a cacetadas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens.

Depois, em um dia qualquer, os estabelecimentos deixaram de aceitar o dinheiro das mulheres. Aquelas que tinham um marido tiveram seu dinheiro transferido para o cônjuge. Já Moira, a melhor amiga da narradora, uma figura em que o espírito de contestação permanece imune apesar das diversas provações, perde o acesso a seu salário, já que era lésbica e não tinha uma figura masculina em sua vida.

Mesmo nesse momento, resgata a narradora, Luke, seu marido, teve uma atitude consternadora, de certa indiferença, que a levou a pensar:

Ele não se importa com isso, pensei. Não se importa nem um pouco. Talvez até goste disso. Não somos mais um do outro, não mais. Em vez disso, eu sou dele.

Ignóbil, injusto, insincero. Mas foi isso o que aconteceu.

A cegueira de parte da sociedade aos mandos e desmandos de uma classe autoritária, que vai acumulando poder, parece ser parte essencial de golpes bem sucedidos. Ao dominar o vácuo de poder deixado pela falta de resistência dos elos mais fracos da sociedade, essa elite dominante consegue abocanhar uma parcela cada vez maior de poder sobre as liberdades individuais. Quando todos se dão conta do buraco em que se encontram, não há mais saída.

Ainda que seja um mundo distópico e, a princípio, ainda muito distante do mundo contemporâneo, O Conto da Aia é um livro fantástico justamente por nos fazer lembrar qual é o perigo de fechar os olhos para uma situação de injustiça, apenas porque ela não nos diz respeito diretamente. Direitos são fundamentais para todos, e cercear liberdades de alguns significa criar espaços para que, no futuro, a liberdade de todos esteja ameaçada.

O que nos reserva uma ponta de esperança é a capacidade de resistência da humanidade, que parece vicejar mesmo sob as condições mais adversas. Não poderia ser diferente em O Conto da Aia.

Tainara Machado

Tainara Machado

Acredita que a paz interior só pode ser alcançada depois do café da manhã, é refém de livros de capa bonita e não pode ter nas mãos cardápios traduzidos. Formou-se em jornalismo na ECA-USP.
Tainara Machado

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2 Comentários

  1. Amei, Tatá! Fiquei com vontade de ler!

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