Autor: Tainara Machado (página 33 de 38)

“Parece que estamos em guerra, Claro que estamos em guerra, e é guerra de sítio, cada um de nós cerca o outro e é cercado por ele, queremos deitar abaixo os muros do outro e continuar com os nossos, o amor será não haver mais barreiras, o amor é o fim do cerco”.

José Saramago em História do cerco de Lisboa

[Resenha] Seda

Diziam que era um embusteiro. Diziam que era um santo. Alguém dizia: paira alguma coisa sobre ele, como uma espécie de infelicidade.

Uma viagem da França até o Japão em busca de ovos do bicho-da-seda é um tema tão amplo que poderíamos imaginar essa saga recontada por vários autores. Uma aventura de Júlio Verne, um drama histórico de Tolstoi, um relato no melhor estilo Robinson Crusoe de Defoe.  Nada disso, porém, chega perto de resumir Seda, do italiano Alessandro Baricco.

Neste livro, a travessia para o outro lado do mundo é a origem a um romance tão delicado quanto o tecido que dá nome à obra. Sutileza é, aliás, o principal traço de Baricco. Seda narra quase toda a vida de um homem, com suas diversas viagens ao Japão, mas não há detalhes supérfluos, diálogos excessivos, descrições detalhadas. A história segue um ritmo suave, se apoia em repetições para marcar a passagem do tempo e parece exigir calma do leitor. Como na vida, a impressão que temos é que qualquer virada de página mais brusca poderia alterar de forma irrevogável essa história.

O personagem principal, Hervé Joncour, era um homem comum. Morava em uma pequena vila no sul da França. Esperava atender aos desígnios do pai e seguir carreira militar. Casado com Hélène, uma jovem de voz bonita, ainda não tinha filhos. Não era um homem ambicioso.

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Amores platônicos

E, de uma hora para outra, só pensamos nele. Não queremos saber de mais nada. Nem do trabalho, nem dos amigos. Cada segundo a mais juntos conta. Dormir fica difícil, se não desnecessário. E quase o tempo todo somos invadidos pelo temor de que uma hora tudo vai chegar ao fim. É, não é fácil quando nos apaixonamos por um livro.

Quase sempre essa paixão resulta em um relacionamento sério com o autor da obra. E aí  vem o drama: o que fazer quando um bom autor só escreveu um ou dois livros? No amor literário, nem sempre temos a sorte de nos apaixonar por Balzac e os 88 títulos da Comédia HumanaÀs vezes, nos vemos profundamente envolvidos com escritores novos, como foi o caso de Daniel Galera e seu Barba Ensopada de Sangue. Nosso primeiro encontro foi fugaz.

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“As igrejas perfiladas à margem do rio pareciam querer provar que as pessoas decentes continuavam acreditando nas coisas. Talvez acreditassem mesmo. Talvez achassem que fazia diferença todos os rituais de casamentos e batizados, crismas e enterros, todos os séculos de invocação em suas diferentes igrejas, cheias do mesmo ar gelado, para que as coisas se mostrassem com um sentido, afinal, para que houvesse alguma prova de que o mundo está em mãos mais capazes que as humanas.”

Ali Smith em garota encontra garoto

[Resenha] O Livro Amarelo do Terminal

Borrar as fronteiras entre o jornalismo e a literatura não é tarefa fácil. Há sempre o risco de se avançar demais em um dos lados e comprometer a outra parte da equação: a informação ou a narrativa. Em O Livro Amarelo do Terminal, no entanto, Vanessa Barbara não faz concessões.

Para escrever esta reportagem, Barbara passou seis meses percorrendo os corredores, passarelas e portões do Tietê, ainda como estudante de jornalismo. Levantou artigos sobre o período de construção do terminal, as idas e vindas da obra, as reformas antes mesmo da inauguração. Falou das estatísticas oficiais que atraem atenção dos portais de notícias nas vésperas de feriado. E encontrou também personagens que parecem saídos da ficção. Minha parte preferida são as boas horas em que ela passou ao lado das moças do balcão de informação, uma área que Barbara também parece ter apreciado muito.

“Onde é que eu posso comprar um teco de pimenta?”, um homem perguntou para Silvana, atendente do local. “Eles pensam que a gente tem resposta para tudo”. Como no dia em que chegou uma velhinha calma, perguntando:
– Moça, onde é que eu faço inscrição para ir pro Iraque?
-… Desculpe?
– Pro Iraque. Eu quero ir pra guerra, buscar o meu filho.
– Ahn… senhora, nós não oferecemos esse tipo de serviço.

Se as moças do balcão de informação não sabem dizer onde se alistar para o Iraque, pode ter certeza que elas poderão te ajudar se o objetivo for saber onde fica o Shopping D, qual ônibus vai para Jaguariúna ou como achar o Pelé na estação.

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