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[Vozes de Tchernóbil] Semana #3

Para a próxima semana, vamos até a página 181, logo antes de começar o “Monólogo sobre a filosofia cartesiana e sobre como você come um sanduíche contaminado com outra pessoa para não passar vergonha”.

Por Tainara Machado e Mariane Domingos

Depois dos capítulos de ambientação, Aleksiévitch relata na primeira parte de Vozes de Tchernóbil a situação de “terra arrasada” que passou a caracterizar aquelas aldeias e vilarejos perto de Prípiat e do reator. É a Terra dos Mortos, define a autora.

Quem se recusou a evacuar a região, ou aqueles mais insistentes que retornaram para suas casas depois de alguns anos, vivem, de certa forma, como fantasmas na “zona proibida”. As aldeias estão vazias, a maioria das casas foi abandonada e saqueada. Não sobraram vizinhos, poucos animais sobreviveram e quem tomou a decisão de ficar vive uma dieta de subsistência, a partir da colheita do que ainda é possível plantar na região. Sentem-se solitários, mas preferem esse destino a abandonar sua terra:

Vou ao cemitério. (…) Eu me sento perto de todos eles. Suspiro. E até posso falar com eles, tanto com os vivos quanto com os mortos. Para mim não há diferença. Ouço tanto uns quanto os outros. Quando você está só… E quando está triste. Muito triste…

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[Resenha] O Sol É Para Todos

Atire em todos os que você quiser, se puder acertá-los, mas lembre-se que é um pecado matar uma cotovia.

To Kill a Mockingbird, o título original do livro da americana Harper Lee, foi traduzido em português para o insosso O Sol É Para Todos. Perdeu-se muito do simbolismo original, já que a cotovia é um das metáforas do livro para a inocência, ou a perda dela, o tema central de um dos livros mais populares dos últimos 50 anos.

Quando recebe a recomendação acima de seu pai, Scout, a narradora do livro, uma menina alegre, esperta e indagadora de seis anos,  se dá conta de que esta é a primeira vez que o ouviu falar em pecado. Atticus Finch, seu pai, não é um cidadão comum de Maycomb, a pequena cidade do Alabama onde se passa a história. Ao contrário da maioria dos habitantes do vilarejo, Atticus Finch é um homem pouco dado a convicções religiosas, mas tem fortes regras morais. E uma delas é que prejudicar, de qualquer forma, alguém mais fraco ou com menos poder de defesa é um pecado sem expiação.

Atticus é diferente dos demais por muitos outros fatores. Em uma das passagens mais engraçadas (fofas mesmo, eu diria, e o livro é ótimo por ser recheado delas) de O Sol é para Todos, Scout e Jem, seu irmão mais velho, se questionam sobre as habilidades do pai. Ele não é um herói comum. Aos cinquenta anos, é muito mais velho do que a média dos pais de seus colegas na escola. “Nosso pai não fazia coisa alguma”, reclama Scout. Ele não joga bola, já é um pouco cego e usa óculos, não gosta de caçar, de beber ou de fumar.  Sua atividade principal? “Ele se sentava na sala de estar e lia”. Não tem como não simpatizar, não é?

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[Escritores] Mario Vargas Llosa

Cheguei atrasada. As luzes já estavam apagadas e não conseguia enxergar se havia lugares mais à frente. Senti um desânimo. Não era hoje que eu veria tão de perto um Nobel de Literatura.

Mas tudo bem, na minha lista “Indicadores de Sucesso na Vida”, eu havia sido modesta na meta. Tinha estipulado apenas “conhecer um prêmio Nobel de Literatura”. Não havia nenhuma cláusula sobre proximidade ou interação. Podia dar um check.

O mediador fez uma breve apresentação do evento e do escritor. Chuva de aplausos, iluminação no púlpito, uma voz serena e firme (até demais para seus 80 anos) retomou o silêncio. Mario Vargas Llosa estava ali, a alguns metros de distância, falando um espanhol tranquilo e muito agradável.

No início, confesso que me distraí e perdi alguns momentos. Primeiro, porque as luzes se acenderam e eu consegui um lugar mais para frente. Encolhe pernas, pede licença, esbarra nas pessoas. Odeio fazer isso, mas foi por uma boa causa. Agora, já podia dar um check na minha lista com mais convicção. O segundo motivo da minha distração foi alguém, ao meu lado, que escutava no volume mais alto a tradução simultânea (e desnecessária) da palestra.

Passada essa confusão inicial, embarquei na narrativa de Llosa. O tema deste ano do Fronteiras do Pensamento, evento que trouxe o escritor peruano, é “A Grande Virada”. A abordagem escolhida por Llosa foi a virada que marcou sua formação política. Ele narrou por mais de uma hora sua trajetória nesse campo, que começou aos 14 anos, época em que o Peru atravessava a ditadura do general Odría.

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“Não usamos palavras (e as palavras não se gastam) quando somos crianças. Eu nasci naquele tempo distante, muito longe dos adjetivos, dos substantivos. Eu não posso dizer, nem sequer pensar: admirável, imenso, poderio. Mas sou capaz de o sentir.”

J. M. G. Le Clézio em O Africano

[Vozes de Tchernóbil] Semana #2

Depois de um início emocionante, no qual gastamos uns tantos lencinhos de papel, foi bastante difícil parar a leitura de Vozes de Tchernóbil. Mas somos obedientes e só agora vamos avançar a primeira parte, até a página 121. 

Por Mariane Domingos e Tainara Machado

As 50 primeiras páginas de Vozes de Tchernóbil são arrebatadoras.

O capítulo de abertura, “Nota histórica”, traz uma coletânea de publicações bielorrussas na internet entre 2002 e 2005. Para os leitores que não estão tão familiarizados com a catástrofe, a introdução é bem-vinda. Números, datas, nomes, localidades começam a desenhar o cenário que encontraremos na sequência. Tudo assusta – quantidade de mortos, alcance da radiação, incidência atual de doenças oncológicas na região.

Um desses excertos fala do sarcófago construído às pressas para conter o quarto reator, que “continua guardando nas suas entranhas de chumbo e concreto armado cerca de duzentas toneladas de material nuclear”. Esse trecho resume bem o sentimento que temos ao terminar a leitura desse primeiro capítulo. É a sensação de pavor. Pavor diante do mal à espreita:

O sarcófago é um defunto que respira. Respira morte. Quanto tempo ainda se sustentará? A isso ninguém responde.

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