Página 105 de 110

“A correção dos sentimentos é lenta, desesperadoramente gradual. Você se instala neles e fica muito difícil sair, adquire-se o hábito de pensar em alguém com um pensamento determinado e fixo – também se adquire o de desejá-lo – e não se sabe renunciar a isso da noite para a manhã, ou durante meses e anos, tão demorada pode ser sua aderência.”

Javier Marías em Os Enamoramentos

[Hibisco Roxo] Semana #6

Está acabando! 🙁 Para a próxima semana, lemos mais dois capítulos –  até a página 267, se você tem a edição da foto.

Por Mariane Domingos e Tainara Machado

Perdas e descobertas chacoalharam a vida de Kambili. A garota que voltou para casa depois de uma temporada em Nsukka não é mais a mesma.

Em poucos dias, ela ganhou e perdeu alguém na família: seu avô. A breve convivência com ele na casa da tia Ifeoma valeu mais do que os últimos anos de visitas monitoradas e rápidas que Papa autorizava. Sob o incentivo da tia, Kambili se permitiu conhecer melhor aquele “homem pagão” e entender seus costumes.

O estranhamento é claro no começo. Kambili, doutrinada por Papa durante tantos anos, questiona a tia sobre como Nossa Senhora pode interceder por um pagão. O que temos a seguir é uma aula sobre respeito às tradições. Às vezes, nos lembra tia Ifeoma, o que é diferente é tão bom quanto o que é familiar. Estamos – ou ao menos deveríamos estar – todos rezando pelas mesmas coisas.

Em uma das cenas mais bonitas desses últimos capítulos, a garota, convidada pela tia, assiste, com um misto de curiosidade e admiração, à oração matutina do avô. Após acompanhar a cena toda, Kambili nos surpreende com uma conclusão bastante crítica do que viu, comparando os ritos do avô com sua própria religião:

Ele ainda sorria quando me virei silenciosamente e voltei para o quarto. Eu nunca sorria depois de rezar o rosário em casa. Nenhum de nós sorria.

Leia mais

[Resenha] No Mar

O mar já foi palco de grandes aventuras literárias. Em Robinson Crusoe (Daniel Dafoe), em Moby Dick (Herman Melville), em Relatos de um Náufrago (Gabriel García Márquez) e, em muitos outros, lá está ele, com maior ou menor participação. Toine Heijmans apostou nessa fórmula e não poderia ter escolhido melhor cenário (ou seria personagem principal?) para seu romance de estreia, No Mar.

Pai e filha, uma criança de sete anos, embarcam em uma viagem de 48 horas pelo Mar do Norte, de Thyborøn (Dinamarca) para Harligen (Holanda). Entre momentos de mar calmo e de mar agitado, vamos conhecendo a turbulência que há dentro de Donald, nosso narrador-pai-capitão:

Fiquei fora de vista por quarenta e quatro horas e agora o mundo volta a me puxar para dentro. Com tudo de que dispõe. Com faróis, radares, binóculos de visão noturna. Com os olhos de águia dos faroleiros. Por fios sem fio, eles me puxam para terra. Queira eu ou não. (…) Se não fizer como combinado, eles arrastam meu barco para dentro. De volta às pessoas e suas coisas. Um barco pode zarpar mas no fim tem que retornar a um porto. O mundo é assim. Os únicos barcos que permanecem no mar são os que naufragaram.

Repleto de metáforas bem construídas como essa, que comparam os desafios em terra firme aos desafios da vida ao mar, o livro nos guia por uma história que tem ação, reflexão e, como cereja do bolo, um suspense psicológico.

Leia mais

[Lista] 5 itens “essenciais” para sua biblioteca

Todos nós, aficionados por ocupar nossas estantes, sabemos que nem sempre uma biblioteca depende apenas de livros. Há sempre alguns acessórios que vão se tornando “essenciais” para usufruir da leitura e, de quebra, ainda dão todo um charme às prateleiras. Aqui vão cinco itens “essenciais” que não vivo mais sem:

1. Carimbo pessoal: Está certo, eu concedo, dá plenamente para ter uma biblioteca sem um carimbo. A minha não tinha até dezembro. Aposto, porém, que depois que ler essa lista, você também vai passar a se perguntar como viveu até agora sem ter um desses. Acho que foi, nos últimos tempos, o melhor presente que ganhei. Passei um bom tempo nessa atividade de carimbar, até ter perícia suficiente para não deixar escapar nenhuma linha da moldura. Se você precisa de uma desculpa para investir no seu carimbo, pode se convencer de que esse é um ótimo artifício contra aqueles amigos que “esquecem” de quem pegaram os livros emprestados. Com uma marca dessas, não dá para disfarçar, não é?

Ah, para quem acha a tinta muito agressiva, a mesma loja vende marcadores em alto relevo, mas o investimento é um tanto maior.

2. Caderninho: Qualquer caderno de anotações poderia fazer essa função, é claro, mas a compulsão humana, infelizmente, não tem limites. Por isso, passei anos namorando os “journals” da Moleskine. Ficava sempre entre o anjo e o diabo: pensava que ter um caderno com espaços demarcados para o título, frases, observações, data de leitura etc. me fariam uma leitora mais atenta e menos esquecida (consigo apagar da memória boa parte da trama dos livros que li, uma tristeza só). Ao mesmo tempo, qualquer caderno de cinco reais poderia fazer essa função. No geral, o bom senso me guiava e me convencia de que não valia o investimento. Até uma viagem em que o encontrei por uma “pechincha” (saudades, dólar a R$ 1,50). Diria que o diabo tinha razão, porque não criei o hábito de anotar tudo que leio, mas que o caderninho é lindo, isso é!

Leia mais

“Nós dizemos de certas coisas que elas não podem ser perdoadas, ou que nunca vamos nos perdoar. Mas perdoamos – perdoamos o tempo todo.”

 

Alice Munro em Vida Querida

< Posts mais antigos Posts mais recentes >

© 2026 Achados & Lidos

Desenvolvido por Stephany TiveronInício ↑