“(…) era provável que de fato não estivesse mirando nada específico. Ela era assim, rompia equilíbrios somente para ver de que outro modo poderia recompô-los.”
Elena Ferrante em A Amiga Genial
“(…) era provável que de fato não estivesse mirando nada específico. Ela era assim, rompia equilíbrios somente para ver de que outro modo poderia recompô-los.”
Elena Ferrante em A Amiga Genial
Como será o romance no futuro? É fácil pensar em descrever o passado, com seus acontecimentos mais lentos, mas às vezes me pego refletindo sobre como os escritores vão retratar tempos hiperconectados, de uso massivo das redes sociais, em que as pessoas substituíram uma parte expressiva da comunicação escrita por mensagens diretas e monossilábicas no celular.
Essa mudança de parâmetro, tal qual tantos outros avanços tecnológicos, começa a se refletir sobre a produção literária atual – já temos vestígios do Facebook em Barba Ensopada de Sangue, embora o narrador prefira justamente ficar fora da rede social – e por certo teremos bons romances ambientados em algum momento dos últimos anos, em que aplicativos substituíram mapas, ligações de telefones públicos deixaram de existir e o desaparecimento de algum personagem é quase impossível. De qualquer forma, é com peso no coração que nos vejo dizer adeus às cartas nos romances.
As missivas foram – e ainda o são, em larga medida – uma ferramenta importante para escritores, como mecanismo para resgate de memórias. Alice Munro usa cartas em diversos contos de Fugitiva, e várias ajudam a resgatar fragmentos do passado, a encaixar um personagem em determinado contexto social ou até mesmo a marcar um vazio, quando os bilhetes não chegam na caixa postal.
Incitado por um editor indiano a escrever “sobre as grandes transformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas”, o autor chinês Mo Yan descartou o tema, em um primeiro momento, por ser abrangente demais. A insistência do editor, que chegou em um momento a lhe dizer que ele poderia então escrever o que quisesse, fez com que Mo não conseguisse mais abandonar a ideia.
De fato, a transição da China de um país essencialmente rural para uma economia de mercado, com as profundas transformações sociais que marcaram o país nas últimas décadas, é assunto que domina prateleiras e mais prateleiras das livrarias.
Mesmo assim, em apenas 125 páginas, Mo Yan deu conta do recado. Mudança é pequeno livro sobre grandes temas, abordados sutilmente. Por meio de episódios aparentemente banais de sua infância e adolescência, Mo fala da vida no campo, da transição das aldeias para as cidades, da influência cotidiana do Partido Comunista na vida social e de um país em ebulição.
“Em seguida se ergueu e chorou, deixando correr sobre as faces lágrmas (…); esse líquido claro , que jorra neste mundo a toda hora e em toda parte, com tanta abundância e tanta amargura que os poetas deram seu nome ao “vale” terreno; esse produto salgado e alcalino das glândulas que o abalo dos nervos, causado por uma dor penetrante, arranca ao nosso corpo e que, como Hans Castorp sabia, continha além disso traços de mucina e albumina.”
Thomas Mann em A Montanha Mágica
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