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[Resenha] A Caixa-Preta

A troca de cartas é uma intimidade que se perdeu com o tempo. Em A Caixa-preta, o israelense Amós Oz resgata esse hábito para dar forma à história de uma separação que deixou cicatrizes e vítimas.

O livro começa com o pedido de socorro de Ilana à Alex Guideon, um professor famoso e rico, do qual se separou há sete anos e com o qual trocou apenas silêncio nesse período. Ilana pede que ele a ajude a encontrar Boaz, o filho do casal que está sumido, sem manter contato nem com ela, nem com seu atual marido, Michel Sommo.

É a correspondência entre esses quatro personagens e também Zakheim, o advogado de Alex, que dará forma à narrativa. A Caixa-preta é um livro impressionante não só porque Oz é capaz de imprimir um ritmo intenso à narrativa, com pequenas revelações a cada carta, mas também porque cada voz tem seu próprio estilo de escrita e suas idiossincrasias, com a construção de personagens complexos a partir de múltilplos pontos de vista, como um prisma.  

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[Lista] 5 epígrafes marcantes

Quase ninguém presta atenção nelas, mas são uma das minhas partes favoritas de um livro. Posicionadas logo antes do sumário ou de um capítulo, as epígrafes podem ser uma frase, um parágrafo, um poema ou até mesmo um versículo. São utilizadas para introduzir, de maneira lírica, o mote da obra. Gosto de lê-las antes de começar o livro e, novamente ao final, para confirmar o quão acertada foi a escolha do escritor. Muitas vezes, me servem como critério decisivo de compra – um livro com uma epígrafe instigante sempre ganha meu coração! Abaixo, listei cinco das minhas preferidas.

1. Amada, de Toni Morrison

Chamarei meu povo
ao que não era meu povo;
E amada
à que não era amada.

ROMANOS 9, 25

Esse versículo bíblico do livro de Romanos, no Novo Testamento, foi a escolha de Morrison para abrir Amada, sua obra-prima. Vencedor do Pulitzer e eleito em 2006 o livro de ficção mais importante dos últimos 25 anos nos Estados Unidos, o romance é centrado em Sethe, uma ex-escrava, que após fugir da fazenda onde havia sido cativa desde o nascimento, se instala, com sua caçula Denver, na casa da sogra. Obrigada a lidar com perdas durante sua vida toda, Sethe irá enfrentar os fantasmas de uma consciência atormentada pela morte da outra filha, há quase 20 anos.

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“O ofício sagrado. (…) era assim que ele encarava o esporte, que jamais devia ser visto como tortura, mas como uma missão, uma relação de amor. E que eu só me tornaria um grande jogador quando encontrasse no tênis o meu ofício sagrado.”

 

Gustavo Kuerten em Guga – Um Brasileiro

[A Besta Humana] Semana #7

Estamos na reta final de A Besta Humana! Para a próxima semana, chegamos ao fim do livro! Gostaram desse clássico francês?

Por Mariane Domingos e Tainara Machado

Despertados por paixões e cobiças, cada um de nós é capaz de realizar crueldades sem medir consequências, nos mostra Émile Zola em A Besta Humana. Os personagens desse clássico francês são dominados por instintos primitivos, sem muita capacidade de reflexão sobre suas atitudes. A sociedade tende a fechar os olhos para os crimes cometidos e enquanto, na superfície, a história é de uma pacata normalidade, quase todos lutam para matar ou morrer.

Logo no início do décimo capítulo, temos a confirmação da suspeita de tia Phaisie, que morreu envenenada pelo marido, Misard. Cidadão pacato, “fleumático”, como o qualifica Zola, Misard foi capaz de seguir seu plano assassino até o fim, mesmo depois que Phaisie desconfiou que ele colocava o veneno no sal. Passou então a envená-la “por baixo”, ao contaminar a água para lavagem higiênica da esposa. Até mesmo os personagens mais inexpressivos conseguem nos surpreender por sua sagacidade para fazer o mal.

Era parado por acessos de tosse que o faziam se dobrar, quase morto também, tão magro e raquítico com seus olhos turvos e cabelos sem cor que, tudo indicava, não teria muito tempo para cantar vitória. De qualquer maneira, havia acabado com ela, aquele mulherão grande e forte, como o inseto devora o carvalho: deitada de costas, consumida, reduzida a nada, enquanto ela durava ainda.

Tia Phaisie, porém, não pretendia deixar barato. Pouco podendo fazer para se livrar do marido, se resignou a morrer sem lhe entregar os mil francos que havia recebido de herança, o motivo para o crime. Ela, que assistia à passagem dos trens e do movimento do mundo de sua janelinha naquele pedaço de terra esquecido, se recusa a fechar os olhos ao morrer, enquanto os lábios se mantinham crispados, como se reprimissem um “sorriso de zombaria”.

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[Resenha] O Estrangeiro

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.” Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

Esse trecho, um dos mais famosos começos da literatura mundial, é um aperitivo da leitura de O Estrangeiro – romance de Albert Camus que surpreende pela naturalidade com que os acontecimentos mais bizarros e improváveis são conduzidos.

A história se passa na Argélia, quando o território ainda era colônia francesa. O narrador e personagem principal é Mersault, um homem de poucas palavras e cuja objetividade se confunde com seu comportamento frio.

O início é um relato minucioso do enterro de sua mãe, na cidade de Marengo, onde ela estava internada há tempos em um asilo. Ao contrário do que se espera em uma situação de luto, as descrições de Mersault são muito mais resultado de suas experiências sensoriais, sobretudo com o clima cálido da região, do que de seus sentimentos:

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