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[Resenha] Você Já Teve uma Família?

Para seu romance de estreia, o escritor Bill Clegg escolheu temas bastante comuns na literatura, embora traiçoeiros. Perda, luto e perdão formam uma combinação que tem tudo para render um bom livro, desde que se caminhe a passos firmes na corda bamba que despenca no piegas e na autoajuda. Comecei a leitura de Você Já Teve uma Família? um pouco desconfiada, mas, depois de virar a última página (especialmente esta!), posso dizer que Clegg passou com louvor por esse desafio.

O livro começa com uma perda. June Reid vê seu mundo ruir quando toda a sua família – a filha Lolly, o genro Will, o namorado Luke e o ex-marido Adam – morre em uma explosão causada por um vazamento de gás de cozinha, um dia antes do casamento de sua filha. Ela é a única sobrevivente, porque não estava em casa na hora do incêndio. Neste trecho, Clegg descreve o cenário da tragédia que abateu June:

Lembra que saiu andando da igreja na direção de sua amiga Liz, que estava à espera em seu carro. Lembra como a conversa parou e as pessoas se misturavam e recuavam meio passo para lhe abrir caminho. Ouviu chamarem seu nome – de modo tímido, hesitante –, mas não parou nem se virou para responder. Era uma intocável, sentiu isso profundamente quando chegou ao outro lado do estacionamento. Não por escárnio ou por medo, mas por causa da obscenidade da perda. Era inconsolável, e o caráter total e assombroso daquilo – todos se foram – silenciava até mesmo aqueles mais habituados com as calamidades.

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Confissões

O Achados e Lidos é um blog sobre literatura e, portanto, nada mais natural do que passarmos quase o tempo todo dividindo com nossos leitores a paixão por autores, livros, temas e outras notícias relacionada ao assunto. Mas como hoje é dia de Divã, achei que era hora de confessar alguns dos meus traumas. A verdade nua e crua é a seguinte: há autores que todo mundo gosta e que eu não suporto. O santo não bate. A escrita não me arrebata. E não é por falta de esforço.

Essa é uma agonia recorrente quando, navegando por listas abundantes na internet, encontro seleções de clássicos que todo mundo deveria ler um dia na vida. E lá estão, sempre eles. Aqueles autores que eu deveria ter em boa conta, mas que, com certa vergonha, preciso confessar que não gosto.

O que me traz mais embaraço é, sem dúvida, Franz Kafka. Quantas vezes em conversas animadas sobre livros tive que admitir, em voz bem baixa, quase inaudível, que não admiro muito seus livros. E não é um caso clássico de “não li e não gostei”. Encarei A Metamorfose ainda nos tempos de colégio e a história de Gregório Samsa, o homem que despertou de sonhos inquietantes como um gigantesco inseto, me deixou um pouco traumatizada. Atribuí a falta de amor ao livro, porém, à parca capacidade de compreensão de metáforas de uma jovem de menos de 15 anos. Com certeza era mais um caso de autor certo na hora errada.

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“Abrace-a com força se você a tem; abrace-a muito, pensei, é meu conselho para todos que estão vivos. Respire o perfume dela, encoste o nariz em seu cabelo, respire profundamente o perfume dela. Diga o nome dela. Será sempre o nome dela. Nem a morte pode roubá-la. O mesmo nome, viva ou morta, sempre. Aura Estrada.”

Francisco Goldman em Diga o Nome Dela

[A Besta Humana] Semana #2

Para a próxima semana, avançamos mais dois capítulos até a página 134 (se você tem a edição da foto).

Por Mariane Domingos e Tainara Machado

Parece que estamos assistindo a um filme. O início de A Besta Humana já é cheio de fortes emoções e muitas cenas de ação. Se alguém poderia pensar que o livro escrito em 1890 seria arrastado, engana-se logo de cara.

No primeiro capítulo, já temos uma revelação surpreendente e um plano mirabolante de assassinato. Somos apresentados a Roubaud, subchefe da estação de Le Havre, casado com Séverine, uma jovem de beleza mediana, protegida de Grandmorin, um burguês de carreira bem-sucedida que chegou à presidência do tribunal de Rouen. Embora Roubaud sempre tenha sido um ótimo funcionário, não há dúvidas de que foi o empurrãozinho do velho Grandmorin que o levou à subchefia. Séverine é filha de uma das empregadas do presidente aposentado. Quando sua mãe morreu, Grandmorin tomou a responsabilidade da criação da menina.

Roubaud sentia-se muito sortudo por ter se casado com Séverine e, por vezes, não se achava merecedor dela e de todos os benefícios que o casamento lhe trouxe. Essa crença, no entanto, cai por terra no início no livro, quando ele entende melhor porque foi o escolhido para esse casamento. Tudo começa com uma viagem à Paris, por causa de um problema de trabalho de Roubaud. Séverine decide acompanhá-lo para fazer compras.

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[Resenha] A Amiga Genial

As primeiras páginas de A Amiga Genial, primeiro livro da “série napolitana” da italiana Elena Ferrante, é daquelas que a gente lê e deseja ter escrito. Tudo começa quando Elena Greco, a narradora, recebe uma ligação do filho de sua melhor amiga, Rafaella Cerullo, que informa o desaparecimento de sua mãe.

Faz pelo menos trinta anos que ela me diz que quer sumir sem deixar rastro, e só eu sei o que isso quer dizer. Nunca teve em mente uma fuga, uma mudança de identidade, o sonho de refazer a vida noutro lugar. E jamais pensou em suícidio, incomodada com a ideia de que Rino tivesse de lidar com seu corpo, cuidar dele. Seu objetivo sempre foi outro: queria volatilizar-se, queria dissipar-se em cada célula, e que ninguém encontrasse o menor vestígio seu. E, como a conheço bem – ou pelo menos acho que conheço -, tenho certeza de que encontrou o meio de não deixar sequer um fio de cabelo neste mundo, em lugar nenhum.

Elena, de fato, a conhecia. Lila, como só ela chama a amiga, evaporou. As roupas no armário sumiram, os sapatos desaparecem, ela recortou até as fotos em que aparecia ao lado do filho, ainda menino. O sumiço misterioso reacende na narradora a vontade, muito debatida pelas duas quando meninas, de escrever um livro.

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