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“Parece que estamos em guerra, Claro que estamos em guerra, e é guerra de sítio, cada um de nós cerca o outro e é cercado por ele, queremos deitar abaixo os muros do outro e continuar com os nossos, o amor será não haver mais barreiras, o amor é o fim do cerco”.

José Saramago em História do cerco de Lisboa

[Vozes de Tchernóbil] Semana #9

Este é o último post sobre Vozes de Tchernóbil. Gostamos muito da leitura e estamos ansiosos para os próximos lançamentos da Svetlana Aleksiévitch no Brasil. Como já fizemos anteriormente, abrimos espaço para que os leitores que nos acompanharam ao longo dessa leitura pudessem compartilhar o que acharam do livro. Ficamos muito felizes com a participação de vocês!

Caroline Arice

O que dimensiona o tamanho de uma catástrofe? Geralmente, são os números. O número de mortos, o número de desabrigados, o número de órfãos, o número de afetados física e psicologicamente. Já Svetlana Aleksiévitch dá um rosto – ou vários – a um dos maiores desastres da história da humanidade. O horror que nós conhecíamos por números fica ainda mais chocante quando “ouvimos” as vozes de quem viveu e ainda vive a história de Tchernóbil. E a verdade é que um bom depoimento vale mais do que qualquer relatório de dados.

O povo bielorusso estava, sim, preparado para o pior – afinal, o que pode ser pior do que uma guerra que dizimou quase um terço da população? Eles estavam à espera de um inimigo definido, manifesto e incontestável, como havia sido durante a guerra. Então, como lidar com uma ameaça invisível que não tem som e nem cor? No livro, os relatos intercalam-se com lembranças da guerra e com a decomposição da União Soviética. Com fatos, para eles, muito mais fáceis de digerir e entender do que um desastre nuclear sobre a qual nunca tinham ouvido falar. Por isso, a imagem da tragédia de Tchernóbil parece uma história mal enterrada.

Vozes de Tchernóbil, para mim, foi um soco no estômago como tinha sido a leitura de Diário de Anne Frank e É isto um homem?, do Primo Levi. O sentimento que me trouxe foi exatamente o mesmo: o que ainda está por vir? Estaremos nós, humanidade, preparados mesmo para o lado ruim do que nós mesmos criamos? Eu não sei vocês, mas, às vezes, me dá um frio na barriga só de imaginar o que nos aguarda.

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[Resenha] Seda

Diziam que era um embusteiro. Diziam que era um santo. Alguém dizia: paira alguma coisa sobre ele, como uma espécie de infelicidade.

Uma viagem da França até o Japão em busca de ovos do bicho-da-seda é um tema tão amplo que poderíamos imaginar essa saga recontada por vários autores. Uma aventura de Júlio Verne, um drama histórico de Tolstoi, um relato no melhor estilo Robinson Crusoe de Defoe.  Nada disso, porém, chega perto de resumir Seda, do italiano Alessandro Baricco.

Neste livro, a travessia para o outro lado do mundo é a origem a um romance tão delicado quanto o tecido que dá nome à obra. Sutileza é, aliás, o principal traço de Baricco. Seda narra quase toda a vida de um homem, com suas diversas viagens ao Japão, mas não há detalhes supérfluos, diálogos excessivos, descrições detalhadas. A história segue um ritmo suave, se apoia em repetições para marcar a passagem do tempo e parece exigir calma do leitor. Como na vida, a impressão que temos é que qualquer virada de página mais brusca poderia alterar de forma irrevogável essa história.

O personagem principal, Hervé Joncour, era um homem comum. Morava em uma pequena vila no sul da França. Esperava atender aos desígnios do pai e seguir carreira militar. Casado com Hélène, uma jovem de voz bonita, ainda não tinha filhos. Não era um homem ambicioso.

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[Lista] 5 destinos que conheci pelos livros

Julho está chegando e é mês de férias para muita gente (inclusive para mim \o/), por isso resolvi falar de duas das coisas que mais gosto na vida: leitura e viagem. Pode até ser clichê, mas é a mais pura verdade que ler é viajar sem sair do lugar. Preparei, então, uma lista com cinco destinos que a literatura me apresentou.

1. Islândia: o romance A Desumanização, do escritor Valter Hugo Mãe, se passa na Islândia – uma terra de beleza exótica e de uma espiritualidade intrínseca à natureza. A história é narrada por Halla, uma menina que enfrenta, ainda na infância, o significado da morte. Ela perde sua irmã gêmea, Sigridur, e se vê obrigada a encarar o inevitável – o amadurecimento. O livro traz, por meio da escrita delicada de Mãe, um retrato poético da região e de sua cultura:

O meu pai também dizia que a Islândia era deus e era a beleza de deus. E achava que, um dia, deus ia ficar feio. Quando deus ficar feio, disse ele, as coisas mudarão de lugar. As de cima para baixo, as de baixo para cima e as do meio para dentro. Até, talvez, vir para fora aquilo que está agora escondido. As coisas boas e as más.

O escritor sempre teve um fascínio pela Islândia. No posfácio, ele até agradece artistas como Björk, pela influência que tiveram no seu imaginário encantado sobre aquelas terras: “Sei que este livro é uma declaração de amor esquisita, mas é a mais sincera declaração de amor aos fiordes do oeste islandês”. Mãe passou uma temporada na Islândia para escrever esse romance e quem o acompanha nas redes sociais sabe que ele já se tornou um habitué da região!

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“ENTREVISTADORA: Algumas pessoas dizem que não conseguem entender o que o senhor escreve, nem mesmo depois de ler duas ou três vezes. O que o senhor poderia lhes sugerir?

FAULKNER: Que leiam quatro vezes.”

 

Entrevista com William Faulkner,
em As Entrevistas da Paris Review – vol. 1

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