Viajar é outra paixão do Achados & Lidos. Para além das viagens que nossas leituras nos proporcionam, sempre que possível partimos para conhecer lugares, pessoas e culturas diferentes.

Quem nos acompanha no instagram, está acostumado aos posts com a hashtag #turismoliterário. Nossos roteiros incluem, invariavelmente, passeios relacionados ao universo dos livros.

Minha última aventura foi em Havana, capital de Cuba. Foram muitas as livrarias charmosas que encontrei por lá, mas também me surpreendi com as referências às estadias de escritores famosos na ilha.

Em Habana Vieja, centro histórico e mais turístico da cidade, encontramos o Café La Columnata Egipciana, frequentado por ninguém menos que Eça de Queirós em seu período como Cônsul de Portugal de Havana (1872-1874).

Nesse mesmo bairro, vários pontos lembram outro habitué da cidade: Ernest Hemignway. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1954, o escritor americano era apaixonado pela ilha, onde morou entre 1939 e 1960. Os bares La Bodeguita del Medio e El Floridita, ambos em Havana, trazem na fachada e no seu interior a figura do célebre cliente.

Esses passeios me levaram a pensar sobre o quanto grandes escritores foram (ou são) grandes viajantes. Gabriel García Márquez, por exemplo, embora tivesse uma ligação especial com Cartagena, cidade litorânea de sua terra natal, era um verdadeiro cidadão do mundo. Um dos meus livros favoritos de Gabo é uma coletânea de contos que ele escreveu durante sua temporada na Europa – Doze Contos Peregrinos. São 12 histórias curtas que têm um traço em comum: concentram-se em latino-americanos que perambulam pelo Velho Continente.

Em 2016, outro ótimo livro foi lançado, reforçando essa ideia de que o interesse por novas culturas e paisagens é fonte de inspiração para escrita. Trata-se da coletânea A Literatura como Turismo, organizada por Inez Cabral, filha do poeta João Cabral de Melo Neto, a partir de poemas do pai sobre os locais em que ele viveu e viajou. Ao longo de seus quase 50 anos de carreira diplomática, Melo Neto morou em países como Espanha, Inglaterra, Senegal, Equador e Honduras – experiências que marcaram sua poesia de forma expressiva.

Se pensarmos na velha máxima de que ler é viajar, nada mais lógico do que termos escritores que valorizam essa troca cultural. Viajando, eles são capazes de desenvolver uma escrita que, como bem definiu Melo Neto, é “o espaço onde se pode habitar muitas horas boas”:

Certos autores são capazes
de criar o espaço onde se pode
habitar muitas horas boas:
um espaço-tempo, como o bosque.

Onde se ir nos fins de semana,
de férias, até de aposentar-se:
de tudo há nas casas de campo
de Camilo, Zé Lins, Proust, Hardy.

A linha entre ler conviver
se dissolve como em milagre;
não nos dão seus municípios,
mas outra nacionalidade,

até o ponto em que ler ser lido
é já impossível de mapear-se:
se lê ou se habita Alberti?
se habita ou soletra Cádis? 

Na era das redes sociais, em que podemos acompanhar de perto nossos escritores favoritos, suas andanças pelo mundo são notáveis. Eu amo acompanhar as belas fotos de viagens dos portugueses Valter Hugo Mãe e José Luis Peixoto. Sempre fico na expectativa pelo livro que surgirá de cada aventura, ansiosa por poder viajar a partir dos seus olhares e escritas. Os romances A Desumanização e Homens Imprudentemente Poéticos, de Hugo Mãe, são exemplos de obras que surgiram da imersão do escritor em outras culturas.

Recentemente, foi lançado no Brasil o livro Lugares Distantes – Como Viajar Pode Mudar o Mundo, em que o escritor Andrew Solomon traz ensaios sobre o importante papel da viagem no combate à intolerância. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Solomon disse:

“Creio que devemos nos abrir para o mundo, olhar o estrangeiro, receber quem vem de fora e ir ver como funcionam as outras sociedades. Se você não viaja, vira um ser provinciano (…).”

Concordo totalmente. E acredito que a maioria dos grandes escritores também pense dessa forma. Enquanto tivermos a literatura fazendo essa ponte entre culturas, os livros continuarão sendo, eles também, um abrir-se para o mundo.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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