A história que poderia ser apenas mais uma curta novela policial ou um conto de suspense transforma-se, nas mãos do francês Honoré de Balzac, em uma pequena joia da literatura. L’Auberge Rouge (A Estalagem Vermelha) foi lançado em 1831 na Revue de Paris e integra A Comédia Humana, título que Balzac deu ao conjunto de sua obra e que se organiza em três frentes: Estudos de Costumes, Estudos Filosóficos (seção da qual este título faz parte) e Estudos Analíticos.

A narrativa começa com uma cena tipicamente burguesa: um jantar organizado em homenagem ao banqueiro alemão Hermann, que está de passagem por Paris. Após o banquete, uma das convidadas pede que o homenageado conte uma anedota alemã para elevar os ânimos dos convivas.

Hermann relembra, então, uma estranha história que ouviu durante o período em que esteve preso em Andernach, na época das guerras napoleônicas, depois de ter sido capturado pelas tropas francesas.

Tudo se passa na estalagem mencionada no título, cujo destaque era a fachada vermelha. É lá que dois cirurgiões militares se hospedam em sua última noite de liberdade antes do alistamento. Como o albergue já estava lotado, os dois amigos têm que dividir o quarto com um industrial que, durante o jantar regado a bebida, acaba confessando que carrega com ele uma soma considerável em ouro e diamantes.

Um dos soldados, Prosper Magnan, fica bastante impressionado pela revelação. Ele imagina quão fácil seria assassinar o industrial, roubar essa fortuna e fugir. Magnan desenha toda a cena em sua cabeça e quase chega a concretizar o plano.

Depois de uma luta ferrenha com sua consciência, no último minuto, ele desiste do crime. Atordoado, o jovem sai para um passeio, tentando expiar seus fantasmas. Quando volta, já de madrugada, consegue pegar no sono.

O que ele não esperava, no entanto, era que, no dia seguinte, o industrial apareceria morto, com um ferimento causado por um instrumento cirúrgico. A fortuna havia desaparecido, assim como seu amigo. Com todas as pistas apontando para Magnan, ele é preso, julgado culpado e condenado à morte. Enquanto espera pelo fuzilamento, ele conhece Hermann, que, anos mais tarde, relembra a anedota no jantar em Paris.

Embora Magnan se recuse a acreditar que o amigo tenha cometido o crime e fugido, fica claro para o leitor que foi isso que aconteceu. É interessante notar como Balzac constrói essa certeza a partir de uma trama intrincada de percepções. A narrativa é conduzida por um dos convidados do jantar, que ouve atentamente a Hermann e reproduz seu relato ao leitor, intercalando a história com observações perspicazes sobre as reações do senhor que está sentado diante dele, Jean-Frédéric Taillefer, um homem muito rico e um tanto misterioso.

Pela apreensão crescente desse convidado, o narrador desconfia que ele tenha uma ligação mais profunda com o relato de Hermann. O assassino, por fim, pode estar mais perto do que se imagina.

Entre outros aspectos, a obra de Balzac se caracteriza por uma crítica feroz à moral quase sempre duvidosa da alta sociedade. Uma das ideias defendidas pelo francês é de que na origem de toda grande fortuna existe um crime ou alguma atividade escusa. Não passa despercebido, por exemplo, quando logo no início da narrativa ele descreve de maneira irônica o grupo reunido:

Certamente, se vocês pudessem ter visto, como eu tive o prazer de ver, essa alegre reunião de pessoas que recolheram suas garras comerciais para especular sobre os prazeres da vida, teria sido difícil para vocês odiar os descontos usurários ou maldizer as falências. O homem não pode sempre fazer o mal. Mesmo na sociedade de piratas, é possível encontrar quaisquer horas doces durante as quais você acredita estar, dentro da sua sinistra embarcação, como sobre um balanço.

Além da análise social, essa pequena novela de Balzac alcança ainda propor um estudo filosófico ao desenhar com maestria os embates de consciência de Prosper Magnan e do próprio narrador, que se vê em uma encruzilhada quando descobre que a garota por quem está apaixonado é filha do principal suspeito desse crime. Seria certo fingir que ele não sabe de nada, investir nessa relação e usufruir de um dinheiro cuja origem ilícita ele conhece?

Acontece todos os dias sob nossos olhos um fenômeno moral de profundidade surpreendente e, no entanto, simples demais para ser notado.

Em mil páginas ou oitenta, Balzac é grande. A partir de cada uma das obras que compõem A Comédia Humana, ele mostra que a sociedade é o palco das melhores histórias que a literatura pode ter.

ps.: Infelizmente, não encontrei nenhuma edição isolada de L’Auberge Rouge em português. No entanto, já tivemos no Brasil algumas edições de A Comédia Humana. A mais recente é a que vem sendo relançada pela Ed. Globo, mas, pelo que pesquisei, ainda não chegaram ao volume que contém essa história. Se alguém souber de alguma edição brasileira, deixe aqui nos comentários! 😉

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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