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A Canção de Solomon (1977) foi publicado dez anos antes da obra-prima de Toni Morrison, Beloved (1987). Em dez anos, a autora ganhadora do prêmio Nobel não apenas aperfeiçoa sua linguagem poética, que se alimenta, principalmente, dos ritmos da fala e da canção afro-americana, mas também reforça a escrita vanguardista e poderosa que a estabeleceu como a principal voz da identidade negra na América no século XX.

O romance conta a história de Macon “Milkman” Dead III, filho de um bem-sucedido empresário negro da região Norte dos Estados Unidos. Milkman nasceu exatamente no mesmo dia em que um vizinho excêntrico se atirou do telhado em uma tentativa fracassada de voar. Além desse fato peculiar em sua data de nascimento, Macon também carrega um apelido esquisito, Milkman, que surgiu do fato de ele ter sido amamentado por sua mãe até uma idade bastante avançada.

Embora esse rápido resumo não cubra todos os meandros da narrativa de Morrison, ele evidencia dois elementos fundamentais que se entrelaçam no romance: o ato de voar como um símbolo da liberdade e o nome de uma pessoa como um ponto de partida para a busca da identidade.

O primeiro elemento, o fascínio pelo voo, surge logo no início da história, quando é apresentada a letra da música que dá título ao romance:

Solomon voou, Solomon se foi
Solomon cruzou o céu, Solomon foi para casa.

Por meio de três episódios diferentes, em que voos poéticos pelo céu acabam por decidir destinos de personagens, Morrison prepara o terreno para uma mensagem fundamental de sua literatura: a liberdade é um dos vários direitos humanos que foram negados aos negros ao longo da História. Esse pensamento ressoa claramente no diálogo abaixo:

“Então, como os negros vão até onde eles querem ir?”
“Não se espera que eles cheguem a lugar nenhum,”

Outro ponto da narrativa que vale ressaltar é o tema da busca incessante de uma pessoa pela sua própria identidade. O amadurecimento de Milkman, como um afro-americano em busca de uma melhor compreensão de sua ancestralidade, é central na história contada por Morrison. De perguntas simples sobre a origem de seu nome até uma grande aventura em direção ao sul, em um movimento contrário ao tradicional caminho de migração dos negros para o norte, Milkman traça o próprio caminho para descobrir suas raízes.

Quando você sabe seu nome, deve se agarrar a ele, pois, a menos que seja anotado e lembrado, ele morrerá quando você morrer.

Como Morrison disse certa vez, “não somos um bloco indistinguível de pessoas que sempre se comportam da mesma maneira”. De alguma forma, voar e buscar sua própria identidade são inerentes ao processo criativo de Morrison. Nesse romance, por exemplo, ela precisou deixar sua zona de conforto para lidar com essa diversidade que tanto valoriza. No prefácio da edição da Vintage, Morrison revela:

“O desafio de Song of Solomon foi administrar o que, para mim, foi uma mudança radical na imaginação de um foco feminino para um masculino. Para sair de casa, para ‘desdomesticar’ a paisagem que até então tinha sido o meu local de trabalho. Viajar. Voar.”

Não por acaso, essa é exatamente a experiência que Morrison sempre oferece a seus leitores: viajar e voar.


Song of Solomon (1977) was published ten years earlier than Toni Morrison’s masterpiece Beloved (1987). In ten years, the Nobel-prize winning author not only perfects her poetic language, which is nourished mainly by the rhythms of African American speech and song, but she also bolsters the avant-garde and powerful writing that established her as the ultimate voice of the black identity in America in the 20th century.

The novel runs through the story of Macon “Milkman” Dead III, son of an upper-class Northern black businessman. Milkman was born at the exact same day a neighborhood eccentric man had hurled himself off a rooftop in a failed attempt to fly. Besides this peculiar happening on his birthdate, Macon has a weird nickname, Milkman, which comes from the fact that he was nursed by his mother well past the proper age.

Although that quick summary doesn’t cover all the narrative arc, it brings up two key elements that the novel weaves together: the act of flying as a symbol of freedom and the name of a person as a starting point of one’s self-identity quest.

The first element, the fascination of flight, pops up early in the story as it is part of the song lyrics which titles the novel:

Solomon done fly, Solomon done gone
Solomon went across the sky, Solomon gone home.

Through three different episodes in which poetics flights across the sky are pivotal for characters’ fate, Morrison sets the stage for an important message: freedom is one of the many human rights that have been denied to black people throughout History. That thought resonates loud and clear in the dialogue below:

“Well, how do colored people get where they want to go?”
“Ain’t supposed to go nowhere,”

Another Morrison’s narrative point worthy to be mentioned is the relentlessly search for identity. The novel traces Milkman’s coming of age as an African American in search of a better understanding of his heritage. From simple questions about his name origin to a southbound adventure in a telling reversal of traditional black migration south to north, Milkman makes his way to figure out his origins.

When you know your name, you should hang on to it, for unless it is noted down and remembered, it will die when you do.

As Morrison said once, “we are not one indistinguishable block of people who always behave the same way”. Somehow, to fly and to search for identity were infused in Morrison’s creative process. She had to leave her comfort zone to tackle the diversity she is so concerned about. In the foreword to Vintage edition, Morrison reveals:

“The challenge of Song of Solomon was to manage what was for me a radical shift in imagination from a female locus to a male one. To get out of the house, to de-domesticate the landscape that had so far been the site of my work. To travel. To fly.”

Finally, it’s exactly the experience Morrison always provides her readers with: to travel and to fly.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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