Autor: Mariane Domingos (página 42 de 43)

[Resenha] O Duplo

Comecei este ano lendo um clássico. Em 2015, minha lista de leitura foi quase toda contemporânea, o que é sempre muito bom para lembrar que a literatura está aí firme e forte, mas os clássicos são os clássicos. Sempre achei mágica a ideia de ler algo que foi escrito há mais de um século. E, nesse sentido, Dostoiévski é um dos meus mágicos preferidos.

O duplo, minha escolha para inaugurar 2016, foi lançado pouco depois de Gente pobre (1846), livro de estreia do escritor russo. O herói é o senhor Golyádkin, um pequeno funcionário, pertencente à nona classe da escala burocrática russa (ou seja, sem nenhuma possibilidade de movimentação), que carece de habilidades para o convívio social e, ao mesmo tempo, sonha em transitar pelas altas esferas. Mais do que dinheiro, falta-lhe traquejo. Neste trecho, em conversa com seu médico, ele deixa isso claro:

…gosto da tranquilidade e não do burburinho da alta sociedade. Lá entre eles, digo, na alta sociedade, Crestian Ivánovitch, é preciso saber fazer rapapés (nisso o senhor Golyádkin roçou o chão com um pé), lá se cobra isso, e também se cobram trocadilhos… capacidade de fazer elogios inebriantes… é isso que lá se cobra. Mas isso eu não aprendi, Crestian Ivánovitch, não aprendi esses artifícios; faltou-me tempo. Sou um homem simples, sem rebuscamentos e sem brilho externo.

Depois de uma mal sucedida e humilhante tentativa de figurar nos círculos que desejava, Golyádkin encontra, em uma noite nas ruas de São Petersburgo, seu duplo. Mesmas feições, mesmo nome, mesma profissão, mas uma diferença: a personalidade. Golyádkin segundo tinha a máscara, “o brilho externo” que faltava ao nosso herói.

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“Mais ninguém tinha fome, mas, justamente, isso é que é bom na hora dos doces: só são apreciados em toda a sua sutileza quando não comemos para matar a fome e quando essa orgia de doçura não satisfaz a uma necessidade primária, mas cobre nosso palato com a benevolência do mundo.”

 

Muriel Barbery em A Morte do Gourmet

A prova dos calhamaços

Terminar um livro extenso está entre as maiores vitórias de um leitor. Os que ultrapassam as mil páginas ou têm mais de um volume dão um orgulho extra. Se é um clássico, então, é motivo para você começar toda conversa literária citando sua conquista.

Não sou maratonista, mas acredito que seja uma sensação parecida com a de um atleta ao concluir uma prova longa. Esse tipo de leitura exige concentração, perseverança e disciplina, e quando você vira a última página parece que todo o esforço valeu a pena.

São diversas as táticas para encarar uma leitura longa. Há quem leia metodicamente a mesma quantidade de páginas todos os dias. Há quem prefira seguir o ritmo da história. Eu sou um meio termo. Começo me planejando: “se eu ler x páginas por dia, termino em x dias”. Isso me anima no início, porque o que parece interminável ganha limites tangíveis. Mas a realidade é uma outra história. Os trechos morosos, bem como os mais excitantes, estragam qualquer planejamento.

Outro detalhe que pode atrapalhar bem o cronograma é de ordem prática. Quem consegue carregar Guerra e Paz na bolsa, por exemplo? Embora eu tenha vontade de mostrar a todos que estou lendo aquele calhamaço, a saúde da minha coluna me impede. Fato: não dá pra levar as leituras longas para todos os lados.

É preciso reservar um tempo em casa e preparar os braços, porque, dependendo da posição que você escolhe, a leitura se torna quase um exercício de musculação – levantamento de livro. Embora eu ame edições gigantescas com suas lombadas de letras garrafais que impõem respeito em qualquer estante, tenho que admitir que aquelas divididas em volumes são mais práticas.

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“O destino não tem bipe; o destino sempre fica ali encostadinho de capa de chuva num beco fazendo algum tipo de Psst que normalmente você nem ouve porque está correndo tanto para ou de alguma coisa importante que tentou produzir.”

 

David Foster Wallace em Graça Infinita

[Resenha] É Isto Um Homem?

Os personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade ficou sufocada, ou eles mesmos a sufocaram, sob a ofensa padecida ou infligida a outros.

Esse trecho está em É isto um homem?, um daqueles livros que nos deixam pensativos, porque a última página está longe de ser o fim da história. Nele, o autor Primo Levi conta sua própria experiência como um judeu italiano em Auschwitz. Nenhuma das situações que ele relata é carregada de autopiedade ou sentimentos de ódio e vingança. Desde o título, Levi já dá o tom que pautará o livro: a perplexidade.

Perplexidade diante de até onde a humanidade pode chegar (e chegou), tanto os que infligem o sofrimento quanto os que o padecem. Em alguns momentos, parece até que falta emoção na narrativa de Levi. Mas como exigir emoção quando sua condição humana é colocada em xeque? Não é possível fazer alguém que acorda para viver compreender o que é acordar todos os dias para sobreviver.

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