Para quem gosta de literatura, escritores são rockstars, com direito a nome de rua ou estátua na praça. Pegamos autógrafos, enfrentamos filas, temos curiosidade para saber de onde vêm as ideias para os livros, quantas horas por dia trabalham, suas opiniões políticas, seus ídolos e por aí vai.

Na última semana, enquanto escrevia a resenha sobre o livro de contos O Sucesso, procurei um pouco mais sobre a autora Adriana Lisboa e me deparei com uma entrevista em que ela afirma que a profissão do escritor é muito mitificada e que ela busca quebrar essa visão, porque, em sua opinião, a escrita é um trabalho importante no mundo como outro trabalho importante qualquer. Ela diz:

Poderia estar aí sendo mergulhadora, astronauta, musicista ou seja lá o que fosse. São trabalhos viáveis, possíveis, eu sei disso. E que essa coisa, essa aura em torno da atividade do escritor ou do artista, de um modo geral, é algo que a gente precisa colaborar para diminuir um pouco, porque isso gera egos inflados demais. (…) Para mim é uma coisa simples, ser escritora, porque eu gosto em primeiro lugar. É um cotidiano muito simples.

Fiquei intrigada com essa declaração. Eu sou do tipo de leitora que ama ler perfis, assistir a palestras e ver debates que envolvem escritores, justamente porque acho que eles têm algo a dizer que eu não enxergo, ou não vivo, em meu cotidiano, diferente de outras ocupações que me parecem mais próximas.

Com isso, não quero dizer que a escrita é um processo mágico. Sei que ela envolve muito trabalho e disciplina. Certa vez, em entrevista à revista Paris Review, Willliam Faulkner afirmou que um escritor precisa de três coisas: “experiência, observação e imaginação”. Quando questionado por que não incluiu inspiração na lista, ele foi direto:

Não sei nada a respeito da inspiração, porque não sei o que é a inspiração – ouvi falar, mas nunca a vi.

Faulkner também defendia que não existe um “jeito mecânico de realizar a escrita”. Segundo ele, como todo artista, o escritor não acredita que haja bons conselhos que devam ser seguidos. Até mesmo o maior ídolo está ali para ser superado.

A busca eterna pela perfeição estética é algo que acompanha qualquer atividade artística e, como tudo em excesso, pode levar a caminhos perigosos. Na escrita, não é diferente.

Em seu ensaio Mais Distante, Jonathan Franzen relata a viagem que empreendeu a uma ilha isolada no Pacífico Sul para se desfazer das cinzas de um amigo. Esse amigo é o também escritor David Foster Wallace, que se suicidou depois de um longo histórico de luta contra depressão, causando uma comoção no meio literário. A obra de Wallace caracteriza-se pelo experimentalismo de forma e conteúdo. A cada livro, ele parecia querer levar a literatura a outro nível. Ao se lembrar do amigo, Franzen conta:

Quando sua esperança na ficção morreu, depois de anos enfrentando seu novo romance, não havia outra saída a não ser a morte. (…) É a lógica do “tudo e mais um pouco”, para ecoar outro título de David, e tudo e mais um pouco era o que ele queria de e para sua ficção. Isso tinha funcionado antes, em Graça Infinita. Mas tentar acrescentar mais um pouco ao que já é tudo é arriscar-se a ficar com nada: a se tornar entediado com você mesmo.

Como bem disse o crítico e escritor Benjamin Moser, em sua participação na Flip 2016, “a arte pode mesmo mexer com a vida diária, isso não é brincadeira”. É claro que nem todos os escritores chegam a esse grau de intensidade, e a força da literatura nem sempre precisa ter um desfecho trágico, mas esses exemplos servem para mostrar que a profissão de escritor, ou de outros artistas, por mais que não tenha a aura que por vezes lhe é reivindicada, também não é das atividades mais banais.

Os avanços nos meios de comunicação, em especial as redes sociais, nos aproximaram dos escritores. Os livros não são mais o único ponto de contato com esses profissionais. Como quase todos os temas relacionados à exposição midiática, esse também é polêmico.

Elena Ferrante, a escritora misteriosa que é a sensação do momento, tem uma posição bem definida quanto à espetacularização da identidade do escritor. O anonimato, para ela, é uma premissa do processo criativo. Em entrevista à Paris Review – uma das poucas que ela concedeu – Ferrante disse:

Eu ainda estou muito interessada em testemunhar contra a autopromoção obsessiva imposta pela mídia. Essa exigência de autopromoção diminui o verdadeiro trabalho da arte, independentemente do que arte possa ser, e isso tem se tornado universal. A mídia não consegue discutir uma obra sem apontar algum escritor-herói. Mesmo não existindo um trabalho de literatura que não seja fruto de tradição, de várias habilidades, de uma espécie de inteligência coletiva. Erroneamente, diminuímos essa inteligência coletiva quando insistimos na existência de um único protagonista por trás de cada trabalho de arte.

Concordo com Ferrante que o excesso de mitificação da figura do escritor pode prejudicar a compreensão de sua obra como um resultado coletivo, mas o anonimato total me parece ter o mesmo efeito. Quando não sabemos nada sobre o autor – sua cultura, suas origens, suas experiências – as especulações preenchem os vazios e a chance de nascer uma figura heroica e uma aura mágica desse mistério é muito maior.

Assim como em outros campos de conhecimento, é aceitável que a literatura também tenha seus mitos. O artista é aquele que expressa a beleza, seja das palavras, dos sons, das cores, das imagens ou dos movimentos. E não há como ficar indiferente a essa capacidade. Aliás, precisamos cada vez mais dessa sensibilidade. Exageros, claro, não são bem-vindos, mas a banalização não é caminho.

A vida real não é lá tão diferente da ficção nesse aspecto. Nossa jornada também precisa de um herói. E eu me orgulho de procurar os meus na literatura.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Eu amo uma boa história. Se estiver em um livro, melhor ainda. / I love a good story. If it has been told in a book, even better.
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