[Divã] Domínio da linguagem

Após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, muito se falou e escreveu sobre o aumento da procura por livros que retratam um futuro distópico, com Estados totalitários assumindo poder absoluto sobre cidadãos.

Assim, dispararam as vendas de 1984, o clássico escrito por George Orwell sobre um governo hiperautoritário capaz de monitorar – e controlar – cada passo de seus cidadãos.

Publicado em 1932, Aldous Huxley imaginou, em Admirável Mundo Novo, um planeta dividido em dez grandes regiões administrativas, com definições categóricas das funções de cada um na sociedade. Os menos dotados vão para o trabalho braçal, outros são destinados a comandar. Os avanços da ciência passam a ditar o destino de cada um, sem espaço para surpresas, para o imponderável, o imprevisível.

Mais recentemente, até por causa do seriado que está sendo transmitido nos Estados Unidos com base no livro, quando se pensa em futuro distópico, não se fala em outra obra que não seja O Conto da Aia, de Margaret Atwood. Empolgante na mesma medida em que é absolutamente assustador, a escritora canadense descreve um mundo em que as mulheres perderam qualquer direito ou liberdade.

O Estado patriarcal que assumiu os Estados Unidos divide essas mulheres em esposas, aias ou serviçais: as que não se encaixam nesses perfis são enviadas para as Colônias, no qual se encarregam de limpar rejeitos radioativos. O acesso à informação foi quase totalmente extinto. A leitura foi banida, e a comunicação é estritamente controlada.

Em comum, as três histórias acima compartilham a imagem de um futuro sombrio e também o fato de que boa parte do domínio vem do total controle da linguagem por parte da elite dominante.

Em 1984, Orwell criou até a Novilíngua, o idioma usado pelo regime totalitário. Ao eliminar ou condensar vocábulos, de modo a distorcer e excluir informações reais, o “Grande Irmão” controla até mesmo o raciocínio crítico da população

Sem a capacidade de articulação de novas ideias ou de oposição às políticas em curso, esses pensamentos simplesmente deixam de existir. Ou mesmo que subsistam, há a tentativa de se convencer de que o certo é o errado, por meio do duplipensar.

Aldous Huxley, no prefácio de Admirável Mundo Novo, trouxe para o mundo real a força que tem o domínio da linguagem, por meio da propaganda:

Um Estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que os chefes políticos de um Poder Executivo todo-poderoso e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivessem de ser coagidos porque amariam sua servidão. Fazer com que eles a amem é a tarefa confiada, nos Estados totalitários de hoje, aos ministérios de propaganda, diretores de jornais e professores.

Em O Conto da Aia, o controle ditado pela linguagem toma uma forma diferente. Há um novo arranjo de classificações por categorias, a partir de cores e padrões. As aias, espécie de escravas sexuais com objetivo reprodutivo, só podem vestir vermelho e abdicam de seus nomes. Passam a ser designadas por nomes inventados, que evidenciam sua qualidade de “propriedade” do Comandante a que foram atribuídas. As células de identidade são substituídas por Identipasses, porque o que importa não é mais o indivíduo, e sim os limites impostos pelo Estado a seu deslocamento. A liberdade é cerceada de diversas maneiras.  

A linguagem é um mecanismo antigo de coerção e de poder. Não à toa, uma das primeiras medidas dos colonizadores era impor sua língua ao povo a ser conquistado, facilitando o processo de assimilação cultural. Preconceitos também se perpetuam na língua. Muitas vezes, até mesmo inconscientemente, reproduzimos expressões e frases carregados de preconceito, mas cujo significado foi desgastado pelo uso comum e, por vezes, até esquecido.

Em Para Educar Crianças Feministas, Chimamanda Ngozi Adichie escreveu, em uma carta para uma amiga, pontos que ela julgava importantes para se educar uma criança com valores feministas. A sexta sugestão é a seguinte:

Ensine Chizalum a questionar a linguagem. A linguagem é o repositório de nossos preconceitos, de nossas crenças, de nossos pressupostos. Mas, para lhe ensinar isso, você terá de questionar sua própria linguagem.

No âmbito político, a tentativa de controle da realidade por meio da linguagem ganhou evidência quando a conselheira da Casa Branca, Kellyanne Conway, usou um termo digno do duplipensar orwelliano: fatos alternativos.

A literatura, como sempre, nos faz imaginar como seria um mundo em que nem mesmo a língua é uma propriedade coletiva. A partir do momento em que “fatos alternativos” são aceitos, abrimos espaço para que uma outra linguagem, dissociada da realidade, passe a vigorar e chancelar políticas até então inimagináveis. É papel de todos impedir esses movimentos.

Tainara Machado

Tainara Machado

Acredita que a paz interior só pode ser alcançada depois do café da manhã, é refém de livros de capa bonita e não pode ter nas mãos cardápios traduzidos. Formou-se em jornalismo na ECA-USP e é repórter de economia.
Tainara Machado

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2 Comentários

  1. Excelente post Tainara. Esse tema onde está presente possíveis manipulações pela linguagem ou pela geração de fatos alternativos é realmente preocupante. Quando vemos o Presidente da maior potencial inventando suas verdades e mentindo intencionalmente para manipular opiniões é preocupante pensar no impacto que isso pode ter no futuro. Diferente dos livros, o futuro pode ser menos distópico do que gostaríamos de imaginar.
    Para finalizar acho válido a menção do livro Fahrenheit 451, também uma excelente reflexão sobre o tema.

    • Tainara Machado

      29 de maio de 2017 at 03:13

      Oi Anderson! Obrigada pelo comentário. Sim, a realidade ultimamente anda bem mais preocupante do que a ficção. Muito do que imaginávamos que havia ficado para trás, na “era dos extremos”, acabou voltando com força nos últimos anos, especialmente certas posições políticas mais totalitárias. A lembrança de Fahrenheit 451 é ótima, embora não o tenha lido. Mais uma dica para a lista de leituras! Obrigada!

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