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[Divã] Quem tem medo de falar de racismo?

Enquanto o mundo assistia embasbacado à atuação do jovem Kylian Mbappé na vitória da França sobre a Argentina, em um jogo que classificou os franceses para as quartas-de-final da Copa do Mundo da Rússia, o youtuber brasileiro Júlio Cocielo proferia uma “piada” absurdamente racista em seu Twitter: para ele, Mbappé “conseguiria fazer uns arrastão top na praia”.

O post gerou furor na internet, mas houve quem defendesse Cocielo: para uma parte de seus fãs, foi apenas uma brincadeira, já que Cocielo tem “bom coração”. Desde então, ele apagou impressionantes 50 mil tweets, não antes que milhares de prints com afirmações homofóbicas e racistas viessem à tona.

Mbappé é um atleta jovem, forte e extremamente talentoso. Comparar a rapidez de suas arrancadas ao potencial de “arrastão” é de um racismo perverso, mas defender o youtuber e afirmar que essa foi apenas uma brincadeira é bastante sintomático do racismo que se esconde nos meandros da sociedade brasileira. É pouco provável que Cocielo dissesse que Cristiano Ronaldo faria arrastões top na praia.

Em seu novo livro, Quem Tem Medo do Feminismo Negro (Companhia das Letras, 145 páginas, R$ 29,90)  Djamila Ribeiro é clara sobre o papel do humor na perpetuação do racismo.

É preciso perceber que o humor não é isento, carregando consigo o discurso do racismo, do machismo, da homofobia, da lesbofobia, da transfobia. Diante de tantos humoristas reprodutores de opressão, legitimadores da ordem, fico com a definição do brilhante Henfil: “O humor que vale para mim é aquele que dá um soco no fígado de quem oprime”.

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[Divã] Philip Roth e as premiações injustas

No último dia 22, o mundo perdeu um de seus maiores escritores em língua inglesa: aos 85 anos, morreu Philip Roth. Com mais de 30 romances publicados e grande reconhecimento da crítica, tendo inclusive levado um Pulitzer por A Pastoral Americana, Roth passou a fazer parte de uma célebre, ainda que infame, lista: a de autores consagrados que não receberam a maior láurea da literatura mundial, o prêmio Nobel.

Nos últimos anos, Roth foi figura frequente entre os mais cotados a levar o prêmio, mas acabou sendo passado à frente por Svetlana Aleksiévitch (até então desconhecida do público em geral), por um cantor (Bob Dylan) e por um autor mais jovem e menos consagrado (Kazuo Ishiguro). Ainda que sejam escritores de talento inegável, é difícil entender como Roth foi preterido.

É claro que ele não é o único injustiçado – já até fizemos uma lista por aqui sobre grandes autores que não figuram no rol dos homenageados, no qual estão nada menos do que Tolstói e Joyce. Mas a reticência da Academia Sueca, nos últimos anos, em homenagear autores já amplamente reconhecidos é intrigante, quando não amplamente polêmica, como foi com Bob Dylan. Em 2018, vale lembrar, não teremos combustível para animar essa discussão: por causa de escândalos envolvendo acusações de abuso sexual por parte do marido de uma autora membro da academia, o prêmio não será entregue neste ano – havia algo de pobre no reino da Noruega, como brincou o tradutor Jorio Dauster.

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[Divã] Esta é uma obra de ficção

Há alguns dias, ganhei um Kindle da minha irmã. Uma das primeiras etapas da configuração do aparelho é uma pergunta sobre preferências, para que eu receba recomendações alinhadas aos meus gostos. Eu, sempre tão indecisa nas definições de preferidos, sobretudo quando o assunto é livro, não hesitei nem um segundo em marcar o gênero “Literatura ficção”.

Leio biografias, livros-reportagem, ensaios, mas nenhuma categoria me atrai tanto quanto a ficção. Não sei bem as razões dessa inclinação. Às vezes, penso que é vontade de fugir do mundo. Outras vezes, acho justamente o contrário: busco na ficção a compreensão da realidade. Mas será que esses dois universos são assim tão separados?

O blog tornou-me uma leitora mais curiosa. As páginas de um romance já não me bastam para entender a obra. Mergulho em prefácios, epílogos, orelhas, pesquisas na internet ou em outros livros – tudo para conhecer mais detalhes da vida do escritor e, quem sabe, encontrar pistas que me ajudem a compreender melhor o que acabei de ler.

A literatura, enquanto forma de expressão, carrega a história de cada indivíduo. Por mais distante ou surreal que pareça um enredo, há sempre algum aspecto que veio da experiência de vida do escritor. Pode ser um lugar, um personagem ou uma cena: a ficção está constantemente flertando com a realidade.

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[Divã] Não fui eu e a crise da democracia brasileira

A democracia brasileira está em crise. A cinco meses das eleições presidenciais de 2018, a lista de candidatos é tão longa quanto assustadora, e nenhum dos nomes parece realmente viável. É possível que 2019 seja tão caótico quanto foi 2015, com perdedores contestando o resultado e um Congresso acuado pelas denúncias da Lava-Jato. Ao mesmo tempo, apesar da crise econômica que fez mais de 12 milhões de desempregados e colocou milhões em situação de pobreza extrema, a sociedade parece viver um grande período de apatia.

Essa falta de posicionamento para além das redes sociais, onde se concentra a indignação do brasileiro, é assustadora, mas talvez não seja uma “jabuticaba”, como gostamos de chamar os problemas exclusivamente brasileiros. Na edição de abril, a revista piauí trouxe um especial sobre o momento político mundial, em que a estima da democracia no mundo está em declínio, sem que ninguém saiba exatamente qual será o sistema político que pode vir a suprir esse vácuo.

O sociólogo Celso Rocha de Barros, em seu excelente ensaio sobre O Brasil e a Recessão Democrática, mostra que a crise brasileira até pode ser coisa nossa, com um desarranjo econômica avassalador produzida internamente e um quadro político que soma um ex-presidente preso, uma presidente alvo de impeachment, três  ex-governadores do Rio de Janeiro atrás das grades e conversas inescrupulosas entre o atual mandatário do país e um dos mais conhecidos empresários brasileiros – hoje também em uma cadeia.

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[Divã] Fenômenos literários

Como vocês sabem, estamos super animadas com o livro escolhido para o 11º Clube do Livro do Achados e Lidos. O título selecionado foi Canção de Ninar, da franco-marroquinha Leïla Slimani (quer saber mais sobre a autora e a obra? Clique aqui!). Um daqueles fenômenos literários raros – sucesso de público e crítica – o livro já vendeu mais de 600 mil exemplares e, ao mesmo tempo, levou o Prix Goncourt, mais prestigioso prêmio literário francês.

Reunir esses dois atributos é, sem dúvida, um grande feito. No mercado, não faltam best-sellers, como a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, ou praticamente todo livro lançado por Jojo Moyes, que atraem milhares de  leitores, mas são solenemente esnobados pela crítica especializada. O que será necessário, então, para fazer nascer um fenômeno como Slimani?

A autora parece reunir, em sua obra, várias qualidades que a aproximam do público, como uma linguagem fácil e acessível e um romance que se inicia em clima de suspense, com atributos literários consideráveis, como sua capacidade de fazer o leitor enxergar outras realidades e nuances do cotidiano por meio de personagens bem construídos. Os temas que ela levanta também são socialmente relevantes. De origem marroquina, Slimani viveu a maior parte da vida na França, o que faz dela uma ótima porta-voz sobre imigração, capaz de escrever com autoridade sobre as sutilezas do preconceito com que estrangeiros são tratados em um país pouco tolerante com quem vem de fora.

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