Uma, duas, três, quatro, cinco histórias… Quando você se dá conta já está há horas lendo o livro O Palácio da Memória, de Nate DiMeo. Sua narrativa envolvente nos faz passar de um capítulo a outro como se estivéssemos ouvindo um bom amigo contar casos tão interessantes e emblemáticos que até nos questionamos: como demorei tanto tempo para conhecer essa história?

O livro é uma coletânea dos melhores episódios criados e apresentados por DiMeo em um dos podcasts mais conhecidos da atualidade – The Memory Palace. As histórias e os personagens são todos reais: pessoas comuns (ou seriam extraordinárias?) que marcaram a História por sua inteligência, coragem ou determinação, e nem sempre tiveram o devido reconhecimento.

Mesmo nos casos em que o personagem principal é alguém que desfrutou, em vida ou postumamente, da fama, a abordagem de DiMeo não se aproxima do que encontramos nos livros didáticos ou nos jornais. Sua narrativa privilegia o que escapa à História oficial: o cotidiano, o banal, o humano.

Em Ave Feia e Escura, por exemplo, DiMeo traz um relato sobre Edgar Allan Poe. Mais precisamente uma narrativa sobre um momento específico da vida do escritor – sua morte:

Ele entrou no trem errado.

Seu destino era Nova York, mas acabou em Baltimore. Não podemos saber ao certo o que aconteceu. Não podemos saber ao certo quase nada do que aconteceu a Edgar Allan Poe entre 27 de setembro, quando chegou, e 7 de outubro de 1849, quando morreu – de alguma coisa – no Washington College Hospital.

É dessa forma despretensiosa que DiMeo inicia todas as histórias. A preocupação em sempre contextualizar os relatos, com datas, lugares e nomes, mostra o intenso trabalho de pesquisa que está por trás de cada narrativa.

Os relatos vêm do passado, mas DiMeo não hesita em trazê-los para o presente. Ele nos convida a refletir sobre os episódios a partir da nossa realidade, para que fique claro que o que temos como certo hoje teve que ser conquistado em algum momento. Ele nos ensina a valorizar o banal, como neste relato sobre Mary Walker, uma mulher que ousou ser médica e usar calça em pleno século XIX:

Foi presa inúmeras vezes em inúmeras cidades. Não por se acorrentar a uma urna, nem por trancar a porta da prefeitura. Mas simplesmente por usar calças. Mas, ainda assim, Mary Walker usava o que bem entendesse.

Lembre-se disso talvez quando for vestir shorts para correr. Ou roupas esterilizadas, para remover uma vesícula biliar. Ou leggings, para ir à escola. Ou uma calça jeans para deixar as crianças na creche antes de ir votar, a caminho do hospital.

A luta pela igualdade de gêneros é apenas um dos temas essenciais de que tratam as histórias de O Palácio da Memória. O racismo, o uso irresponsável dos recursos naturais e os avanços tecnológicos também têm espaço nos episódios narrados por DiMeo. Embora a maioria seja ambientada nos Estados Unidos, sua abordagem humana consegue universalizar as histórias, criando empatia com leitores de todas as origens.

Assim é o capítulo Esquecemos. Nele, DiMeo começa com o relato sobre James Powell, uma das muitas vítimas da violência racial no país. Em seguida, ele lembra o nome de Odesssa Bradford, Perfecto Bandalan, Eugene Williams e Robert Bandy – todos personagens que, como Powell, sentiram na pele o racismo e cujos sofrimentos serviram de estopim para revoltas que marcaram a luta pela igualdade de direitos entre negros e brancos. Ao final, DiMeo extrapola o contexto americano e mostra que James Powell é a alegoria de uma verdade muito maior – temos o hábito de memorizar grandes feitos e apagar os sacrifícios que nos levaram até lá:

Esquecemos Robert Bandy, um soldado afro-americano que perguntou aos policiais por que estavam prendendo uma mulher no saguão do Braddock Hotel, no Harlem. Numa noite de 1943. Eles atiraram. E a cidade pegou fogo.

Nós lembramos o incêndio. Mas esquecemos o fósforo.

Nós esquecemos James Powell.

É dessa forma sucinta, mas impactante, que DiMeo conclui praticamente todas as narrativas. Seu texto tem ritmo e linguagem bem definidos. Em cada construção de frase e escolha de vocabulário, é possível vislumbrar o cuidado que o autor teve na elaboração do relato.

Essas histórias nasceram na escrita, ganharam sucesso no formato oral e, felizmente para nós, ávidos leitores, voltaram para a literatura. No entanto, é impossível terminar o livro e não ter a curiosidade de ouvir a voz que ecoa silenciosamente nas mais de 200 páginas. Em texto ou em áudio, DiMeo deixa sua marca, porque domina um dos elementos fundamentais da literatura e das relações humanas: a arte de contar histórias.

No ar desde 2008, seu podcast é a prova de que sempre houve e sempre haverá ouvintes para boas histórias.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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