O enredo? Um caso entre uma mulher casada, de 19 anos, e um jovem de 16. O período? Primeira Guerra Mundial, sendo o marido traído um soldado. O autor? Raymond Radiguet, que escreveu o romance entre seus 16 e 18 anos. O Diabo no Corpo, uma das poucas obras desse escritor francês, que faleceu precocemente aos 20 anos, gerou polêmica quando foi publicado em 1923 e, ainda hoje, conquista leitores por sua ousadia.

O narrador é um colegial que descobre as angústias e prazeres da paixão ao lado de Marthe, que, apesar de jovem e apenas um pouco mais velha que ele, já era casada com Jacques, um soldado em combate na Primeira Guerra Mundial. O romance foi lançado no período pós-guerra. O fato de o grande enganado da história ser um membro do exército claramente não agradou a sociedade, que ainda lidava com as cicatrizes recentes de uma juventude sacrificada em anos sangrentos. Logo no início do romance, Radiguet já ambienta, de uma maneira até um pouco irônica, o contexto conturbado de então, que possibilitou aquele caso proibido:

Vou me expor a recriminações. Mas o que posso fazer? É minha culpa se completei doze anos alguns meses antes do início da guerra? Sem dúvida, os transtornos que me trouxe esse período extraordinário foram de um tipo que jamais se experimenta nessa idade; mas como, apesar das aparências, nada é forte o bastante para nos envelhecer, ainda criança eu tomaria parte numa aventura em que mesmo um homem se veria em apuro. Não fui o único. E que não é a mesma dos rapazes mais velhos. Que aqueles já indispostos comigo considerem o que foi a guerra para tantos meninos: quatro anos de férias.

A perspectiva inusitada de um narrador homem e tão jovem sobre o florescer de uma paixão é um dos grandes trunfos do romance. A insegurança, a inexperiência, a intensidade e as oscilações de humor e opiniões, típicas de amores imaturos, garantem uma narrativa empolgante, cheia de surpresas. O leitor não sabe o que esperar do narrador e essa imprevisibilidade é muito bem explorada pelo texto direto e decidido de Radiguet.

Além disso, o tom confessional do jovem colegial traz proximidade ao relato. Ele conta com naturalidade seus desejos mais íntimos e pensamentos, que, na maioria das vezes, não condizem com suas atitudes.

O amor, na escrita de Radiguet, é um vizinho próximo do ódio e da perversidade. O próprio título do livro, nada convencional para introduzir uma história romântica, pressupõe essa relação paradoxal, em que os sentimentos mais nobres e os mais egoístas são pautados, igualmente, pelo impulso e pelo desejo:

Em qualquer outra hora, desejar a morte de seu marido teria sido uma quimera infantil, mas esse desejo tornava-se agora quase tão criminoso como se eu o houvesse matado. Eu devia à guerra minha felicidade nascente; dela esperava agora a apoteose. Esperava que servisse a meu ódio como um anônimo que comete o crime em nosso lugar.

Embora não seja indulgente com o narrador, o texto tampouco é lisonjeiro com Marthe, assim como a literatura da época não o era com as mulheres em geral. Ora a personagem simboliza o sexo frágil, dependente e submissa, ora ela é ardilosa e de caráter duvidoso, bem ao estilo Capitu e Bentinho, enchendo o leitor de suspeitas (vale reforçar que aqui também temos apenas uma perspectiva masculina da história).

Pelo que se sabe da história de Radiguet, o mote desse romance tem origem em sua experiência pessoal. O autor teria tido um caso aos 14 anos com uma professora dez anos mais velha e esposa de um soldado. Autobiográfica ou não, impossível não admirar a precocidade literária do escritor.

Quando o livro foi lançado, seu editor investiu pesado na publicidade – uma prática não muito comum à época. O Diabo no Corpo foi anunciado como “a obra-prima de um romancista de dezessete anos” e, ajudado pela temática controversa, despertou rapidamente a curiosidade do público francês.

Radiguet frequentava o meio artístico boêmio da Paris no pós-guerra, ciceroneado, sobretudo, pelo grande escritor Jean Cocteau. A relação entre o mestre e o menino prodígio inspirou boatos de seus contemporâneos e ainda hoje é objeto de estudos de historiadores literários que desconfiam de uma relação amorosa entre os dois.

Assim como seu personagem precoce, Radiguet também teve uma vida intensa. Sua passagem pelo mundo foi breve, mas a maturidade do seu legado faz parecer que ele experimentou todas as fases da vida, da juventude à velhice. Com apenas vinte anos vividos, teve três livros publicados e, em breve, sua literatura completará um século conquistando leitores. Este trecho de O Diabo no Corpo, parece ter sido, afinal, escrito para o próprio autor:

Não enxergava mais obstáculos. Aos dezesseis anos, aguardava um modo de vida que desejamos na idade madura. Viveríamos no campo; lá seriamos eternamente jovens.

A única diferença entre criador e criatura é que Radiguet substituiu a eternidade de uma vida no “campo” pela juventude eterna na boêmia parisiense. Sorte da literatura, não?

Ps.: a edição brasileira deste livro é do selo Penguin-Companhia, da editora Companhia das Letras.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
Mariane Domingos

Últimos posts por Mariane Domingos (exibir todos)