Neste mês de novembro, a revolução russa completa 100 anos! E já que esse país de dimensões e contradições continentais está na pauta, não podemos perder a oportunidade de trazer um pouco de literatura russa ao blog. A lista de hoje segue essa proposta, com um objetivo muito nobre: convencer você a ler o gênio Fiódor Dostoiévski!

1. Sua escrita alcança os mais recônditos meandros da consciência humana.

Os personagens de Dostoiévski são tão transparentes que chega a ser assustadora a empatia que eles despertam. Em Crime e Castigo, por exemplo, quando menos esperamos, já estamos mergulhados na angústia do atormentado Raskólnikov, tentando, junto com ele, encontrar saídas para o injustificável. Finda a leitura, parece até que dividimos com o personagem o fardo de um crime.

No livro O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksiévitch, há um trecho em que um dos seus entrevistados sintetiza muito bem essa marca das obras de Dostoiévski e da literatura russa em geral:

A misteriosa alma russa… Todos tentam entendê-la… Leem Dostoiévski… O que eles têm lá além da alma? Nós além da alma só temos mais alma.

A maestria de Dostoiévski para ouvir a consciência humana e colocar em palavras suas ambiguidades o torna universal e atemporal. Sua narrativa habita justamente o limite tênue entre o herói e o anti-herói, entre o louvável e o condenável, revelando, com clareza, que a matéria-prima da natureza humana é a contradição.

2. Novelas curtas ou grandes romances? Ele domina os dois.

Não tem fôlego para enfrentar calhamaços? Isso não é desculpa para deixar Dostoiévski de fora das suas leituras! O meu livro favorito do autor é Uma Criatura Dócil, uma breve novela narrada por um marido atormentado diante do corpo da mulher, que jaz sobre a mesa.

Ela, a “criatura dócil” do título, acabara de cometer suicídio, atirando-se pela janela. À época do casamento, ele tinha mais de quarenta anos e ela, uma jovem órfã sem muitas perspectivas na vida, ainda não tinha completado dezesseis. No começo, tudo vai bem, mas com o tempo, “a criatura dócil se rebela”. O perfil possessivo e acomodado do marido entra em choque com os arroubos da juventude da esposa. Ele tenta expurgar sua culpa relembrando todos os momentos que levaram o casal àquela situação limite.

Falando sobre narrativas curtas, ainda não li os contos de Dostoiévski, mas a coletânea recém-lançada pela Editora 34, intitulada Contos Reunidos, me aguarda! Não tenho dúvidas de que será uma ótima leitura.

3. Sua obra é uma viagem à Rússia do século XIX.

O texto de Dostoiévski mergulha no íntimo sem perder de vista o público. Ao mesmo tempo em que seus personagens poderiam habitar qualquer época, dada a universalidade dos dilemas humanos que carregam, eles proporcionam um retrato detalhado da Rússia do século XIX.

No romance O Duplo, por exemplo, o herói é o senhor Golyádkin, um pequeno funcionário, pertencente à nona classe da escala burocrática russa (ou seja, sem nenhuma possibilidade de movimentação), que carece de habilidades para o convívio social e, ao mesmo tempo, sonha em transitar pelas altas esferas. Mais do que dinheiro, falta-lhe traquejo.

Depois de uma mal sucedida e humilhante tentativa de figurar nos círculos que desejava, Golyádkin encontra, em uma noite nas ruas de São Petersburgo, seu duplo. Mesmas feições, mesmo nome, mesma profissão, mas uma diferença: a personalidade. Golyádkin segundo tinha a máscara, “o brilho externo” que faltava ao nosso herói.

No mesmo personagem, Dostoiévski consegue trabalhar uma questão da época – a imobilidade social – e um tema que atravessa eras da história da humanidade – os truques e armadilhas da vida em sociedade. Afinal, assim como Golyádkin, todos temos que vestir nossa máscara pública. E alguns são mais habilidosos que outros nessa tarefa.

4. Diversas áreas do saber têm Dostoiévski como inspiração ou referência.

Nietzsche e Freud consideravam Os Irmãos Karamázov “o maior romance já escrito”. Crime e Castigo estimula ainda hoje debates nos campos do direito e da psicologia criminal (aliás, sabiam que esse é um dos romances mais lidos pelos detentos nos presídios federais?). Não importa qual sua área de interesse, há sempre um Dostoiévski para encantá-lo e fazê-lo refletir.

Os Irmãos Karamázov foi talvez a mais exigente e recompensadora leitura que já fiz. Com uma narrativa ao mesmo tempo filosófica e policial, Dostoiévski mergulha no universo de uma das famílias mais disfuncionais da história da literatura. Os protagonistas da trama são o devasso Fiódor Karamázov e seus três filhos – o orgulhoso e apaixonado Dmitri; o intelectual Ivan; e o “puro” Aliócha. A partir do perfil de cada personagem, Dostoiévski engendra reflexões profundas que nos fazem questionar se estamos mesmo lendo um romance ou um ensaio.

Uma das passagens mais célebres desse livro é o capítulo em que Ivan relata ao irmão Aliócha as ideias que basearam a escrita do seu poema O Grande Inquisidor. Até hoje, esse é considerado um dos trechos mais relevantes da literatura sobre a natureza humana, o livre-arbítrio e o sofrimento.

5. Temos traduções diretamente do russo.

Durante muito tempo, os leitores brasileiros sofreram com traduções nada dignas das grandes obras russas. Hoje, felizmente, a história é outra, o que incentiva ainda mais a leitura não só de Dostoiévski, mas de outros clássicos russos.

Recentemente um texto da Tatá no blog lembrou muito bem o quão importante foi a chegada da Editora 34 com suas traduções diretamente do russo. Nesta ótima reportagem de piauí, essa evolução fica clara em uma fala de Paulo Bezerra, um dos “nossos três russos”:

Quando finalmente se sentiu capaz de ler Dostoiévski no original, Bezerra percebeu uma distância abissal entre o texto russo e o que tinha lido no Brasil, traduzido por Rosário Fusco e publicado pela José Olympio. Teve a impressão de que a edição brasileira, baseada na francesa, e também na espanhola, não conseguira se livrar do perfume enjoativo do beletrismo, ainda em voga na época. “Mas creia-me, por quem é! Por que razão enganá-lo?, pergunto-lhe. Ao contrário, e a coisa espanta-me: parece-me, a mim, particularmente, quase doentiamente pudica”, dizia a tradução de Fusco. “Dostoiévski é um escritor rude: ele tem a concepção de uma realidade dura, feia, e a linguagem que traduz essa realidade precisa ser coerente com isso. Mas os tradutores franceses não entendiam isso e amaneiravam o texto. São os piores tradutores de russo da Europa”, comentou. “Mas pode acreditar! E por que cargas-d’água eu iria esconder de você, quer fazer o favor de me dizer? Ao contrário, eu mesmo acho isso estranho: comigo ela é de um jeito redobradamente, timidamente puro e acanhado”, lê-se o mesmo trecho, agora traduzida por Bezerra.

A linguagem dura e o ritmo truncado do texto de Dostoiévski são essenciais para captar toda riqueza da sua literatura. E com as traduções disponíveis hoje temos mais um motivo para ler o escritor russo!

E você, é fã de Dostoiévski ou se animou para conhecê-lo? Deixe aqui nos comentários!

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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