Em Coisas Que Não Quero Saber, a sul-africana Deborah Levy transforma relatos autobiográficos em ensaios e constrói uma breve narrativa sobre o poder libertador da escrita. Quatro textos, organizados a partir do ensaio Por Que Escrevo, de George Orwell, trazem à tona três momentos cruciais da vida da escritora. As memórias que Levy passou décadas tentando afastar afloram em sua escrita, instigada, sobretudo, pelas perguntas:

“O que fazemos com o conhecimento com o qual não suportamos conviver? O que fazemos com as coisas que não queremos saber?”

O primeiro ensaio contextualiza essa autoinvestigação a que Levy se propõe. Após uma crise de choro nas escadas rolantes do trem de Londres, ela decide, abruptamente, fazer uma viagem a um lugar ermo de Maiorca. Durante essa escapada, um encontro fortuito a faz voltar às suas origens e encarar algumas lembranças difíceis.

Levy nasceu na África do Sul da época do Apartheid. Ela tinha apenas cinco anos quando assistiu, em sua própria casa, à prisão do pai, perseguido por ser membro do partido social-democrata African National Congress e atuar contra o regime segregacionista. Passam-se quatro anos até que ela e o irmão voltem a vê-lo.

Nesse período, Levy vive sob a imposição do silêncio. Ela não pode falar, por exemplo, sobre por que o pai foi preso, por que ela tinha uma amiguinha negra, nem sobre seu sobrenome de origem judia. Diante de tantas proibições, a voz de Levy vai sumindo a ponto de ela se tornar uma garota extremamente retraída.

A primeira pessoa que a estimulou a romper tal silêncio foi Melissa, filha da madrinha que a acolheu no interior da África do Sul, logo após a prisão do marido, quando sua mãe decidiu que era bom afastar a filha de Joanesburgo. Melissa era uma jovem ousada, que desafiava o conservadorismo dos pais relacionando-se com um indiano. Ao lembrar-se dela, Levy diz:

Melissa foi a primeira pessoa da minha vida a me encorajar a projetar a voz. Com seus olhos azuis pintados e o cabelo louro penteado em um coque colmeia quase tão alto quanto eu, ela era espirituosa, corajosa e aproveitava o máximo da vida. Eu não conseguia escutá-la, mas sabia que suas palavras me pediam para dizer as coisas em voz alta, confessar meus desejos e estar no mundo em vez de ser derrotada por ele.

Os relatos corajosos e transparentes que Levy coloca nessa coletânea são provas de que ela seguiu o conselho de Melissa. Depois de resgatar a infância traumática em meio à violência do apartheid, Levy recupera, no terceiro texto do livro, sua juventude em Londres, marcada sobretudo pelo sentimento do exílio:

Eu morava havia seis anos na Inglaterra e era a mais típica das inglesas. Ao mesmo tempo, eu tinha vindo de outro lugar, sentia falta do cheiro das plantas cujo nome eu não sabia, do som dos pássaros cujo nome eu não sabia, do murmúrio das línguas cujo nome eu não sabia.

A sensação de não pertencer a nenhum lugar a acompanhou durante muito tempo. O choro nas escadas rolantes do trem, já na idade madura, não está desconectado dessa inquietação que começou na infância.

É na escrita que Levy encontra espaço e meios para revisitar sua história e buscar sua identidade. Coisas Que Não Quero Saber é, ao mesmo tempo, um relato, uma reflexão e uma declaração de amor à literatura. Talvez por isso seja tão tocante.

Coisas Que Não Quero Saber

Editora Autêntica
R$ 22,70
123 páginas

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Mariane Domingos

Mariane Domingos

Eu amo uma boa história. Se estiver em um livro, melhor ainda. / I love a good story. If it has been told in a book, even better.
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