Maria da Graça e Quitéria são duas amigas que compartilham, além da profissão, a desilusão de uma vida monótona. Elas passam os dias a trabalhar fazendo faxina e, esporadicamente, arrumam bicos como carpideiras, chorando em velórios de desconhecidos. Os descaminhos dessas duas personagens compõem o enredo de O Apocalipse dos Trabalhadores (Biblioteca Azul, 201 páginas), romance de um dos escritores mais relevantes da literatura contemporânea, o português Valter Hugo Mãe.

Com a prosa poética que é sua marca, Hugo Mãe mergulha no cotidiano das duas amigas para trazer uma temática universal e atemporal: o sentido da vida. Vítimas claras da invisibilidade social, Maria da Graça e Quitéria buscam mil subterfúgios para despistar o vazio de uma existência dedicada a sobreviver mais do que a viver.

Maria da Graça é casada com Augusto, que passa longas temporadas longe de casa, a trabalho, mas nunca contribui para as despesas da família. Ambos encaram esses períodos de afastamento como um alívio. Claramente, Augusto aproveita muito mais sua liberdade por contar com o olhar indulgente da sociedade patriarcal em relação aos homens. À Maria, sobram as responsabilidades cotidianas e o peso da imagem de esposa fiel que aguarda o marido trabalhador.

Desafiando os padrões, a faxineira mantém um caso com o patrão, o senhor Ferreira, um septuagenário culto e solitário que satisfaz seus desejos com a empregada, sem se importar muito com os sentimentos que ela nutre por ele. Um acontecimento inesperado nessa relação faz Maria da Graça se dar conta de que sua vida não passa de um conjunto de jornadas de trabalho, interrompidas apenas por breves descansos para se alimentar, dormir e repor energias para voltar à lida:

achava que maria da graça era mulher sem desejos de tipo algum. andava pela vida a pensar no trabalho e trabalhava e não acontecia mais nada, porque não era mulher para lhe acontecer mais nada.

Os ares de Macabéa, a icônica personagem de A Hora da Estrela, também envolvem Quitéria. Ela segue pelo mesmo caminho que a amiga, mas com uma vida amorosa mais livre. Ela se sente dona do seu destino e não deixa suas aventuras abalarem-na. Os homens são descartáveis, até que ela encontra o jovem ucraniano Andriy, que a surpreende por querer algo mais que satisfazer os desejos físicos.

Embora as duas amigas sejam centrais para o história, vejo Andriy como o personagem mais emblemático desse romance. Fugindo da miséria e da instabilidade política do Leste Europeu, ele chega a Portugal sem saber nada do idioma e disposto a trabalhar no que for para enviar dinheiro aos pais, que ficaram na cidade de Korosten. A impossibilidade da comunicação e a necessidade da sobrevivência exigem que ele leve uma vida sem distrações, incluídos aí os sentimentos.

Andriy é o retrato de uma figura cada vez mais comum na atualidade: o imigrante. Ele encarna a solidão e ostracismo imposto a essas pessoas que se veem obrigadas a atravessar fronteiras para sobreviver. Valter Hugo Mãe nos mostra que a rotina proletária, o tal “apocalipse dos trabalhadores”, é ainda mais cruel com os imigrantes. Andriy se enxerga como uma máquina, cujas pausas servem apenas para reajustar a engrenagem:

haveria de ter a quitéria as vezes que quisesse, mas nunca permitir que isso o demovesse da progressiva metalização do corpo. via-se como platinado, robótico, uma força incrível e os sentidos alerta como seria impossível para uma cabeça só orgânica.

Assim como em seu outro romance A Máquina de Fazer Espanhóis, em que o pesadelo dos pássaros a bicar o corpo de António significava a morte a rodeá-lo, em O Apocalipse dos Trabalhadores, Valter Hugo Mãe também recorre ao onírico para sintetizar a essência da história. Maria da Graça tem um sonho recorrente em que se enxerga, depois de morta, à porta do céu, tentando garantir seu lugar no paraíso. Ali, descobre ela, era uma extensão da sua vida terrena. A luta para se fazer ouvir e sair da invisibilidade não havia acabado:

as portas do céu eram pequenas, ao contrário do que poderia esperar. precisaria de se baixar consideravelmente para passar e, na multidão de quem queria ser atendido, era dramática a confusão, gerando violência e uma nuvem de pó que se levanta com muita frequência.

Um amor não correspondido, a solidão da velhice, o horror da miséria e da guerra – cada um com seu drama, todos os personagens desse romance enfrentam o dilema de encontrar um sentido para sua existência, enquanto tentam lidar com a finitude da vida. Qual a saída quando nem a jornada nem o destino compensam?

a felicidade, pensava ela, não sei o que é. sei que não somos umas máquinas sem paragem. não podemos estar para aqui a trabalhar enquanto nos pedem que passemos da cera do chão para a partilha das memórias mais difíceis da vida.


O Apocalipse dos Trabalhadores 

Biblioteca Azul
R$ 49,90
201 páginas

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Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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