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Lemos, gostamos (ou não) e indicamos (ou não). Aqui, colocamos nossas impressões sobre livros que, de alguma forma, nos marcaram. Tem opinião, mas não tem spoiler!

[Resenha] Operação Impensável

Famílias felizes, famílias infelizes. Todas o são da mesma maneira, para distorcer um pouco a célebre frase de abertura de Anna Kariênina, de Liev Tolstoi. Ou, ao menos, é o que parece nos querer dizer Vanessa Barbara em Operação Impensável.

Comprei o livro bastante animada. Na lista dos 20 melhores jovens escritores brasileiros da revista literária Granta, Barbara escreve deliciosas crônicas para jornais e blogs e ainda compartilha de uma paixão privada, que é analisar a tradução de cardápios. Seu romance mais recente, porém, está longe de ter a mesma graça que seus textos mais curtos.

Operação Impensável conta a história de um casamento que durou cinco anos e terminou em guerra. Nos tempos de paz, somos apresentados a Lia, historiadora, e Tito, programador. Uma família feliz como tantas outras, dona de duas tartarugas, três gatos e uma dezena de filmes vistos e comentados juntos.

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[Resenha] O Duplo

Comecei este ano lendo um clássico. Em 2015, minha lista de leitura foi quase toda contemporânea, o que é sempre muito bom para lembrar que a literatura está aí firme e forte, mas os clássicos são os clássicos. Sempre achei mágica a ideia de ler algo que foi escrito há mais de um século. E, nesse sentido, Dostoiévski é um dos meus mágicos preferidos.

O duplo, minha escolha para inaugurar 2016, foi lançado pouco depois de Gente pobre (1846), livro de estreia do escritor russo. O herói é o senhor Golyádkin, um pequeno funcionário, pertencente à nona classe da escala burocrática russa (ou seja, sem nenhuma possibilidade de movimentação), que carece de habilidades para o convívio social e, ao mesmo tempo, sonha em transitar pelas altas esferas. Mais do que dinheiro, falta-lhe traquejo. Neste trecho, em conversa com seu médico, ele deixa isso claro:

…gosto da tranquilidade e não do burburinho da alta sociedade. Lá entre eles, digo, na alta sociedade, Crestian Ivánovitch, é preciso saber fazer rapapés (nisso o senhor Golyádkin roçou o chão com um pé), lá se cobra isso, e também se cobram trocadilhos… capacidade de fazer elogios inebriantes… é isso que lá se cobra. Mas isso eu não aprendi, Crestian Ivánovitch, não aprendi esses artifícios; faltou-me tempo. Sou um homem simples, sem rebuscamentos e sem brilho externo.

Depois de uma mal sucedida e humilhante tentativa de figurar nos círculos que desejava, Golyádkin encontra, em uma noite nas ruas de São Petersburgo, seu duplo. Mesmas feições, mesmo nome, mesma profissão, mas uma diferença: a personalidade. Golyádkin segundo tinha a máscara, “o brilho externo” que faltava ao nosso herói.

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[Resenha] Formas de Voltar para Casa

Sabia pouco, mas pelo menos sabia isto: que ninguém fala pelos outros. Que, mesmo que queiramos contar histórias alheias, terminamos sempre contando nossa própria história.

Para ser bom, um livro não precisa ser grande, ter trama complexa, muitos personagens ou abusar das palavras difíceis. Ele pode ser tão simples quanto Formas de Voltar para Casa, do chileno Alejandro Zambra.

Como diz Alan Pauls na resenha que ocupa a orelha da edição da Cosac Naify (essa da foto), o tom é a grande invenção do Zambra romancista. E ele é baixo. São frases curtas, diretas, mas cheias de sentido e interpretações, como quando, logo na primeira página, o narrador relembra as brigas dos pais. “Ela dizia cinco frases e ele respondia com uma única palavra. Às vezes dizia, cortante: não. Às vezes dizia, à beira de um grito: mentira. E às vezes, inclusive, como os policiais: negativo”. Zambra, que já apareceu por aqui, é fonte quase inesgotável para o Marque a página.

Se o tom é baixo, os sentimentos são sutis, quase sussurrados. O livro começa com as lembranças do terremoto que atingiu o Chile em 1985, noite na qual o narrador, sem nome, conheceu Claudia, “o nome de noventa por cento das mulheres da minha geração”. Ela é um dos tantos “personagens secundários”, título do primeiro capítulo do livro, que teve a vida virada do avesso por um acontecimento que parecia estar fora do presente, de tão longe do dia a dia daquele bairro no subúrbio de Santiago: o golpe que levou Augusto Pinochet ao poder.

Com curiosidade, parecendo se tratar de apenas mais uma brincadeira de criança, o narrador obedece ao pedido dela, três anos mais velha, para que espie seu tio, Raúl. Só vai entender que assim partilhou de algumas das muitas cicatrizes que Claudia leva desse período muitos anos depois. O que ele,  por sua vez, guarda do período mais sombrio da história recente do Chile é, pelo contrário, a falta de marcas indeléveis desses anos. Em outro momento, pensa, em meio a uma conversa com colegas de faculdade, que “era o único que provinha de uma família sem mortos, e essa constatação me encheu de uma estranha amargura: meus amigos tinham crescido lendo os livros que seus pais ou seus irmãos mortos tinham deixado em casa. Mas na minha família não havia mortos nem havia livros”.

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[Resenha] É Isto Um Homem?

Os personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade ficou sufocada, ou eles mesmos a sufocaram, sob a ofensa padecida ou infligida a outros.

Esse trecho está em É isto um homem?, um daqueles livros que nos deixam pensativos, porque a última página está longe de ser o fim da história. Nele, o autor Primo Levi conta sua própria experiência como um judeu italiano em Auschwitz. Nenhuma das situações que ele relata é carregada de autopiedade ou sentimentos de ódio e vingança. Desde o título, Levi já dá o tom que pautará o livro: a perplexidade.

Perplexidade diante de até onde a humanidade pode chegar (e chegou), tanto os que infligem o sofrimento quanto os que o padecem. Em alguns momentos, parece até que falta emoção na narrativa de Levi. Mas como exigir emoção quando sua condição humana é colocada em xeque? Não é possível fazer alguém que acorda para viver compreender o que é acordar todos os dias para sobreviver.

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[Resenha] Diga o Nome Dela

imagem pacífico

Seguir em frente pode significar deixar tanto para trás que se torna insuportável. Em Diga o Nome Dela, o escritor americano Francisco Goldman enfrenta com maestria um sentimento tão paradoxal e particular ao luto. Se desfazer de objetos, roupas e livros é difícil porque aos poucos se percebe que será preciso se deparar com uma segunda morte, às vezes até mais dolorosa, que é a das memórias.

Embora seja um autor razoavelmente conhecido nos Estados Unidos, colaborador da The New Yorker, Goldman teve apenas este livro traduzido e publicado no Brasil, pela Cia da Letras. Conheci a história nas páginas da revista piauí, e fiquei com aquele texto ecoando na minha cabeça por semanas – gosto, não sei bem explicar por quê, de histórias de grandes amores e finais tristes.

Meses depois, encontrei-o dando sopa em uma feirinha de livros na redação. No excerto do livro publicado pela piauí, Goldman conta como conheceu sua jovem esposa, Aura, como a pediu a esposa em casamento, os temores dela sobre a probabilidade de ficar viúva jovem (a diferença de idade entre os dois era de 20 anos) e encerra o texto com sua morte prematura.

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