“A esperança na humanidade, talvez por ingênua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós.”
Valter Hugo Mãe em A Desumanização
“A esperança na humanidade, talvez por ingênua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós.”
Valter Hugo Mãe em A Desumanização
Ler a última frase do livro antes de terminá-lo. Ou o último parágrafo. Ou a última página. Ou o último capítulo. Nem sempre fui assim. Tudo começou na minha adolescência quando conheci Agatha Christie.
A Rainha do Crime não me deixava seguir a ordem das páginas. Os personagens, as intrigas, as suspeitas surgiam e eu PRECISAVA de uma “dica” de quem cometeu o Assassinato no Expresso do Oriente, quem preparou Um Brinde de Cianureto, quem é a mente maquiavélica que habita A Casa Torta. Pronto, nascia mais uma leitora curiosa.
Ao leitor curioso, nunca faltam desculpas para fingir que ele lê o final por arte do acaso. “Sem querer abri naquela página”. “Uma manchinha no papel me chamou atenção”. “O marcador estava lá e eu precisava dele”. “Tinha uma orelha e eu fui desfazer”. É destino, gente.

Seguir em frente pode significar deixar tanto para trás que se torna insuportável. Em Diga o Nome Dela, o escritor americano Francisco Goldman enfrenta com maestria um sentimento tão paradoxal e particular ao luto. Se desfazer de objetos, roupas e livros é difícil porque aos poucos se percebe que será preciso se deparar com uma segunda morte, às vezes até mais dolorosa, que é a das memórias.
Embora seja um autor razoavelmente conhecido nos Estados Unidos, colaborador da The New Yorker, Goldman teve apenas este livro traduzido e publicado no Brasil, pela Cia da Letras. Conheci a história nas páginas da revista piauí, e fiquei com aquele texto ecoando na minha cabeça por semanas – gosto, não sei bem explicar por quê, de histórias de grandes amores e finais tristes.
Meses depois, encontrei-o dando sopa em uma feirinha de livros na redação. No excerto do livro publicado pela piauí, Goldman conta como conheceu sua jovem esposa, Aura, como a pediu a esposa em casamento, os temores dela sobre a probabilidade de ficar viúva jovem (a diferença de idade entre os dois era de 20 anos) e encerra o texto com sua morte prematura.
Gosto de escritores que enxergam literatura onde parece existir apenas banalidade. Em outras palavras, gosto de Alan Pauls.
Terminei há pouco de ler sua trilogia (História do pranto, História do cabelo e História do dinheiro), que aborda de maneira muito original um capítulo complexo e pesado da história argentina – os anos 70.
Em cada um dos livros, esses elementos supostamente banais que aparecem nos títulos funcionam como um gatilho para as memórias do período. Proust tinha suas madeleines. Pauls tem as lágrimas, o corte de cabelo e os maços de dinheiro.
Seus personagens não têm nomes e, ainda assim, ao final do livro, parecem ser nossos amigos íntimos, tal a profundidade e o ritmo frenético com que suas aventuras e desventuras, sempre conectadas de alguma forma ao pranto, ao cabelo ou ao dinheiro, nos são apresentadas.
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