O título e a capa inusitados, além da enxurrada de críticas positivas, fizeram com que este livro se destacasse nas prateleiras convidativas da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). A escritora mexicana Valeria Luiselli esteve na edição deste ano do evento. Há pouco, terminei a leitura de A história dos meus dentes e confesso que me bateu o arrependimento por não ter presenciado a participação da jovem autora.

O personagem principal do romance é o leiloeiro Gustavo Sánchez-Sánchez, conhecido como Estrada. Sua meta na vida é trocar todos os seus dentes. Depois de ler sobre um escritor que conseguiu, a partir do sucesso de sua obra, juntar dinheiro para fazer esse investimento, Estrada acredita que ele também possui habilidades suficientes, principalmente a de leiloeiro, para financiar esse sonho.

Depois de estudar para se tornar um profissional requisitado no ramo, Estrada alcança, por fim, sua meta e decide que essa história merece ser contada:

Meu corpo magro e desajeitado, assim como minha vida um pouco sem rumo, tinha adquirido um novo brio com os novos dentes. Minha sorte não tinha equivalente, minha vida era um poema, e eu estava certo de que um dia alguém iria escrever um belo retrato da minha autobiografia dental.

O enredo centrado em um leiloeiro que deseja trocar todos os seus dentes é apenas a superfície de uma discussão bem mais profunda. O mote do romance de Luiselli é digno de um esforço filosófico.

A história dos meus dentes aborda, sobretudo, a ideia de valor inconstante dos objetos. Não há uma resposta única e inquestionável para a pergunta “quanto vale tal coisa?”. Cada objeto é um conjunto de experiências que adquire sentido a partir da experiência alheia.

A profissão de Estrada, bem como seu perfil de colecionador, manifestado ainda na infância, não foram construídos ao acaso. Durante toda sua vida, o personagem lida com a relação entre os homens e os objetos. Quando escolhe se dedicar à ocupação de leiloeiro, seus objetivos são claros:

Eu não era um vil vendedor de objetos, e sim, antes de mais nada, um amante e colecionador de boas histórias, que é a única maneira realmente honesta de modificar o valor de um objeto.

Estrada se aprofunda de tal forma na ciência do leilão que chega a desenvolver métodos próprios. O romance, inclusive, é dividido em capítulos que seguem a lógica dessas categorias, todas definidas segundo a maior ou menor dependência que o objeto leiloado tem das histórias que o acompanham. Essas anedotas, que podem ser reais, levemente fantasiadas ou totalmente inventadas, determinam o sucesso de um lote que vai a leilão.

O fascínio que Estrada tinha por ouvir e inventar histórias é bem definido na última parte do romance, em que a narrativa é assumida pelo escritor responsável pela tal “autobiografia” dental:

Quando Estrada começou a me contar suas histórias, cheguei a pensar que ele fosse um mentiroso compulsivo. Mas, depois de viver com ele, percebi que tinha menos a ver com mentir do que com superar a verdade. Estrada foi um desses espíritos enormes, eternos. Sua presença às vezes era ameaçadora, não porque fosse uma ameaça real para alguém, mas porque contra a sua liberdade feroz todos os parâmetros com os quais estamos acostumados a medir o mundo pareciam triviais.

Um personagem espirituoso e um enredo inventivo costuram a discussão de um tema universal e inquietante. Quando achamos que não falta nada ao romance, uma surpresa: no epílogo, Luiselli conta de onde surgiu a ideia do livro e como foi seu processo de escrita.

Fica claro, então, que a originalidade da escritora a acompanhou por todas as etapas, desde a concepção até a versão final do romance, que ela acredita não ser tão definitiva assim:

Este livro começou como uma colaboração, e gosto de pensar nele como uma colaboração em progresso, na qual cada nova camada modifica o conteúdo inteiro completamente.

A história dos meu dentes foi meu primeiro, e bem-sucedido, encontro com a escritora mexicana. Senti aquele sopro de juventude e novidade, tão essencial à perenidade da literatura. A sensação ficou ainda mais completa quando me dei conta de que esse sopro era feminino e latino-americano. É a literatura nos mostrando a urgência de novos tempos, mais justos e mais diversos.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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