A cidade de Paris e o texto de Marcel Proust são sinônimos de sofisticação. A coletânea de crônicas que revela o lado jornalista do célebre escritor francês encontrou a combinação perfeita de forma e conteúdo nesta luxuosa edição da Carambaia. Salões de Paris reúne 22 textos de Proust, publicados entre o final do século XIX e início do XX, a maioria deles no Le Figaro.

As festas requintadas que atraíam a alta burguesia e a nobreza remanescente da França imperial são o principal tema dessas crônicas. A minuciosidade da prosa proustiana é capaz de transportar o leitor ao salão da princesa Mathilde ou ainda ao ateliê da sra. Madeleine Lemaire.

O escritor não economiza nas adjetivações quando retrata os ambientes, tampouco quando introduz os anfitriões e convidados dessas reuniões. Suas observações são carregadas da postura bajuladora que caracterizou tanto o Proust jornalista, quanto o Proust escritor. Sobre a princesa Mathilde, tia do príncipe Luís Napoleão, ele diz:

Essa rudeza um pouco máscula da princesa se tempera a um extrema doçura que transborda de seus olhos, de seu sorriso, de toda a sua hospitalidade. Mas por que analisar o charme dessa anfitriã? Prefiro tentar fazê-los sentir isso, mostrando a princesa no momento em que recebe.

Ao mesmo tempo em que afirma a exclusividade dessas reuniões, como no ateliê da sra. Lemaire, em que “toda Paris desejou entrar” e “não conseguiu ali de imediato forçar a entrada”, Proust tenta aproximar da realidade esse universo que era, provavelmente, bastante distante do seu leitor. Ainda não eram os tempos da pobreza de espontaneidade das redes sociais, mas não escapava ao escritor a necessidade de dar vida àquelas descrições, para que elas não parecessem falsas, como fica claro neste trecho a respeito do salão da condessa d’Haussonville:

É delicioso chegar a Coppet em um tranquilo e dourado dia de outono, quando as videiras são de ouro sobre o lago ainda azul, nessa residência um pouco fria do século XVIII, simultaneamente histórica e viva, habitada por descendentes que têm ao mesmo tempo “estilo” e vida. (…) Elas conversam, cantam, riem, fazem corridas de automóvel, jantam, leem, fazem à sua maneira, e sem a afetação de querer imitar, o que faziam as pessoas de outrora; elas vivem.

Ainda nesse cenário de festas e reuniões, outro aspecto da sociedade que chamou a atenção do Proust jornalista foi a moda. Em Salões de Paris, há duas crônicas sobre o tema, uma voltada às nuances que fazem com que novas tendência derrubem facilmente as anteriores, garantindo um movimento lucrativo do mercado, e outra bastante específica sobre os vestidos de baile. Seus comentários sobre moda aliam conhecimento, excelência descritiva e um humor leve, revelando um faceta menos conhecida do escritor.

Além dessas crônicas, o livro traz também alguns textos que flertam mais com o gênero de ensaio, na medida em que Proust suaviza o perfil observador e intensifica suas opiniões. Em As Avós e em Sentimentos Filiais de um Parricida, por exemplo, ele comenta fatos recentes que o afetaram de alguma forma, aproveitando para explorar, de maneira filosófica, temas mais amplos, como as relações familiares. Uma tentativa de ir além da superficialidade e frieza a que, em sua opinião, estava fadada o texto jornalístico:

Ao acordar, me dispus a responder para Henri van Blarenberghe. Mas, antes de fazê-lo, quis dar uma olhada no Figaro, entregar-me a esse ato abominável e voluptuoso que se chama ler o jornal e graças ao qual todas as desgraças e os cataclismos do universo durante as últimas 24 horas (…) associam-se excelentemente, de maneira particularmente excitante e tônica, à ingestão recomendada de alguns goles de café com leite.

Não é a primeira vez que encontro na obra de Proust trechos críticos ao jornalismo, com opiniões que se situam na linha tênue entre o amor e o ódio. A atividade jornalística sempre esteve presente, como coadjuvante ou protagonista, na vida e na prosa do escritor francês.

Dois outros temas caros ao autor – a passagem do tempo e as memórias, principalmente as de infância – aparecem fortemente em vários dos textos mais reflexivos da coletânea. Destaque especial para Igreja de Vilarejo e Férias de Páscoa, em que salta aos olhos a maestria da escrita de Proust, cujo requinte soa tão natural quanto a simplicidade:

Os romancistas são tolos que contam por dias e por anos. Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem. Há dias montanhosos e difíceis que levamos um tempo infinito para escalar e dias em declive que se deixam descer a toda velocidade, cantando.

Salões de Paris é uma ótima opção tanto para os leitores que desejam ter um aperitivo do texto do autor de Em Busca do Tempo Perdido, quanto para aqueles já iniciados em sua obra, pois revela a flexibilidade do estilo proustiano.

O escritor francês certamente ficaria muito satisfeito em ver que até mesmo seus textos mais cotidianos saíram das páginas efêmeras dos jornais e ganharam a perenidade do livro, em uma edição de páginas douradas, tiragem limitada e produção artesanal – tão requintada e exclusiva quanto os salões que ele frequentava.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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