[Divã] Livros e memória afetiva

Tenho a impressão de que dentre as pessoas mais importantes da minha vida estão alguns livros.

O escritor português Valter Hugo Mãe disse essa frase durante uma palestra em São Paulo, no ano passado. Concordo totalmente. Os livros guardam mais do que a história dos seus personagens. Como bons amigos, eles carregam um pouco da nossa própria história.

Tenho o hábito de anotar na folha de rosto dos meus livros o mês e o ano em que concluí a leitura – além do registro, é uma forma de controlar minha pilha de não lidos, rs. De vez em quando, gosto de revirar minha estante olhando essas datas.

Apesar da decepção por ver que meu fôlego literário para calhamaços tem diminuído (saudade, vida de estudante), há outros sentimentos que me invadem. Alguns títulos me despertam memórias afetivas de certos períodos da minha vida.

Em março de 2011, terminei a leitura de 2666, de Roberto Bolaño. A obra-prima do escritor chileno é um livro denso, com uma narrativa violenta e perturbadora. Ainda assim é um dos meus romances favoritos. Provavelmente, porque era o que eu precisava naquele momento em que a espera por uma decisão me angustiava. A escrita de Bolaño me acompanhou por meses, preenchendo vazios e marcando minha memória sobre esse romance. Todos que me perguntam sobre 2666 recebem respostas entusiasmadas, seguidas de um “tem que ler!”.

Outro livro que me traz ótimas recordações é Os Miseráveis. Além dos valiosos meses na companhia de Jean Valjean, esse clássico me lembra um dia muito divertido que tive na época de faculdade. Depois de meses desejando a linda edição da Cosac Naify, comprei meu exemplar na Festa do Livro da USP de 2009. Eu e uma amiga havíamos passado o dia gravando histórias para um projeto em comum e decidimos ir ao final do dia até o prédio da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), onde acontecia a feira na época. Nos empolgamos nas compras, não vimos o tempo passar e nem a chuva chegar. Quando saímos para rua com sacolas cheias de tesouros literários, um aguaceiro caía do céu. Voltamos debaixo de chuva para a ECA (Escola de Comunicações e Artes), eu protegendo Os Miseráveis e ela, a coleção lindíssima do Livro das Mil e Uma Noites. Nem preciso dizer que esse Victor Hugo tem lugar especial na minha prateleira e, mesmo diante das cifras astronômicas que tem alcançado na Amazon, não tenho intenção nenhuma de me desfazer dele!

Há muitos outros títulos para acrescentar à minha lista de memórias literárias – presentes, livros que comprei ou li em viagens, descobertas dos tempos de colégio (impossível esquecer minha primeira leitura de Vidas Secas), entre outros.

Essa memória afetiva, por sinal, é uma boa desculpa para dificuldade que tenho de doar meus livros! Da mesma forma que quase não me desfaço dos meus exemplares, tenho uma certa aversão a compras em sebos, a não ser por edições raras. Quando os livros têm dedicatória então, sinto que estou me intrometendo em uma história que não me pertence, rs.

No romance Te Vendo um Cachorro, de Juan Pablo Villalobos, há um personagem que expressa exatamente a sensação que permeia este texto. Ele diz:

Desde quando um livro é uma coisa material?

Os meus não são. A maioria deles guarda mais histórias do que contam suas páginas.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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2 Comentários

  1. Me identifiquei demais com esse texto.
    Tenho uma história muito íntima com a literatura, porque ela entrou na minha vida para me salvar.
    Lembro especialmente do segundo semestre de 2015. Tinha acabado de conseguir um emprego como professora em uma ótima escola de inglês e eu tinha me esforçado demais para conseguir aquilo, até que aquela realidade aos poucos começou a (literalmente) me matar. E me lembro como estive acompanhada pelo livro O Demonologista, do Andrew Pyper, publicado pela Darkside.
    A presença daquele livro ao meu lado me fez resistir aos últimos dias de tortura até eu ficar extremamente doente, fazer uma cirurgia e em seguida pedir demissão

    • Mariane Domingos

      2 de outubro de 2017 at 02:03

      Olá, Marcela! Obrigada pelo comentário e por compartilhar sua história conosco. Um belo exemplo do poder da literatura em momentos decisivos!

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