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Lemos, gostamos (ou não) e indicamos (ou não). Aqui, colocamos nossas impressões sobre livros que, de alguma forma, nos marcaram. Tem opinião, mas não tem spoiler!

[Resenha] A Vida dos Elfos

A união é a urgência dos nossos tempos. Essa ideia, tão simples quanto necessária, ganha vida nas criaturas e terras mágicas do belo romance A Vida dos Elfos, da autora francesa Muriel Barbery.

Depois do sucesso mundial de A Elegância do Ouriço, Barbery deixa o realismo e se arrisca na literatura fantástica, sem perder o requinte e a profundidade que já são marcas da sua escrita.

Na trama, duas jovens órfãs, Clara e Maria, têm uma ligação misteriosa que se esclarece à medida que são desvendados os segredos em torno das origens de cada uma.

Maria vive em uma região rural da Borgonha e é cercada por pessoas de pouca instrução, mas que têm a sabedoria que apenas a pureza do contato diário com a natureza pode prover. A comunidade acolheu a menina ainda bebê, quando ela foi abandonada nas redondezas, em um dia de muita neve. Desde a chegada de Maria, a região não conhece a escassez da terra. Os pomares e a caça se mantêm abundantes durante as quatro estações do ano. A relação simbiótica de Maria com a natureza é uma das chaves da narrativa:

Compreendera muito cedo que os outros se moviam no campo como cegos e surdos para quem as sinfonias que ela ouvia e os quadros que contemplava não passavam de ruídos da natureza e paisagens mudas.

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[Resenha] Meia-Noite e Vinte

Daniel Galera se tornou uma espécie de “fenômeno literário” brasileiro com Barba Ensopada de Sangue, lançado em 2012. Seu novo romance era aguardado, portanto, com uma expectativa enorme. Meia-Noite e Vinte confirma o autor como o expoente maior de uma safra de ótimos escritores como há muito não se via na cena literária brasileira.

O ponto de partida de Meia-Noite e Vinte é justamente a morte de uma espécie de alter ego de Galera, Andrei Dukelsky, descrito como “um dos maiores novos talentos da literatura brasileira contemporânea”. Mais conhecido pelo apelido, Duque foi morto de forma brutal, ao ter seu celular levado durante uma corrida pelas ruas de Porto Alegre.

A tragédia, que chega a Aurora por meio do Twitter, força a aproximação dela com os outros dois narradores do livro, Antero e Emiliano. Juntos, os quatro haviam escrito, na virada do milênio, um cultuado fanzine digital, chamado Orangotango.

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[Resenha] A História dos Meus Dentes

O título e a capa inusitados, além da enxurrada de críticas positivas, fizeram com que este livro se destacasse nas prateleiras convidativas da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). A escritora mexicana Valeria Luiselli esteve na edição deste ano do evento. Há pouco, terminei a leitura de A história dos meus dentes e confesso que me bateu o arrependimento por não ter presenciado a participação da jovem autora.

O personagem principal do romance é o leiloeiro Gustavo Sánchez-Sánchez, conhecido como Estrada. Sua meta na vida é trocar todos os seus dentes. Depois de ler sobre um escritor que conseguiu, a partir do sucesso de sua obra, juntar dinheiro para fazer esse investimento, Estrada acredita que ele também possui habilidades suficientes, principalmente a de leiloeiro, para financiar esse sonho.

Depois de estudar para se tornar um profissional requisitado no ramo, Estrada alcança, por fim, sua meta e decide que essa história merece ser contada:

Meu corpo magro e desajeitado, assim como minha vida um pouco sem rumo, tinha adquirido um novo brio com os novos dentes. Minha sorte não tinha equivalente, minha vida era um poema, e eu estava certo de que um dia alguém iria escrever um belo retrato da minha autobiografia dental.

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[Resenha] De Veludo Cotelê e Jeans

Literatura e humor não são uma combinação trivial. Uma boa parte dos livros que se pretendem engraçados penaria muito para ser qualificado como literatura. E a maior parte das obras de ficção não estão aí para nos fazer gargalhar, temos que admitir.

O escritor norte-americano David Sedaris supera essas distâncias com facilidade. Sua escrita nos faz rir de verdade, mas não por causa de fórmulas feitas ou apelos baratos. Sua prosa é cômica porque ele retrata com um misto de ironia e sarcasmo a vida familiar, os hábitos da classe média americana e a constante paranoia em que vivemos como sociedade.

Sedaris tem quase uma dezena de livros publicados, a maioria já traduzidos para o português, mas meu preferido é De Veludo Cotelê e Jeans. O titulo reúne crônicas autobiográficas em que quase sempre estão presentes um ou outro membro de sua extensa família: o pai, a mãe, o irmão ou uma das quatro irmãs.

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[Resenha] Reparação

Quem nunca desejou decifrar os pensamentos de outra pessoa? Reparação, de Ian McEwan, é um deleite para leitores com esse perfil. A habilidade do escritor inglês em descrever os sentimentos de seus personagens é o ponto alto deste romance que ficou entre os finalistas do Man Booker Prize e ganhou versão para o cinema com direção de Joe Wright.

A maior parte da história se desenrola no verão de 1935. Briony Tallis, a personagem central, é uma garota de 13 anos, com uma mente bastante fantasiosa. A caçula temporã de uma família tradicional e abastada, ela não demora muito para revelar sua personalidade controladora.

A chegada dos primos, Lola e os gêmeos, e principalmente dos irmãos, Cecilia e Leon, agitam a rotina insípida da menina. Ela decide escrever e dirigir uma peça de teatro que seria encenada no primeiro jantar, como boas-vindas ao irmão. Mais do que agradá-lo, Briony queria estar no centro das atenções e exibir seu talento com a escrita.

A peça era um drama romântico fortemente influenciado pelos contos de fadas que povoavam suas leituras – finais felizes previsíveis e heróis que salvam mocinhas sofredoras. Embora tivesse a técnica, Briony não tinha como ir além, porque sua experiência de vida era muito rasa:

…não havia gaveta oculta, diário com cadeado nem sistema de criptografia que pudesse esconder de Briony a verdade pura e simples: ela não tinha segredos. Seu desejo de viver num mundo harmonioso, organizado, negava-lhe as possibilidades perigosas do mal. (…) Não havia nada em sua vida que fosse interessante ou vergonhoso que chegasse para merecer ser escondido…

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